terça-feira, 30 de dezembro de 2014

MAIS UMA NOITE DE NATAL

Por Pâmella Araujo da Silva Cintra*


É noite de natal. Sim, mais uma noite de natal. Tudo igual! Nem árvore, nem presentes, nem família reunida. Apenas um frio, não aquele frio por falta de vestes, mas aquele frio por falta de calor humano. Hoje é Natal!

Hoje, todos devem estar reunidos, comendo sem parar, crianças abrindo presentes do Papai Noel. E eu, bem... eu estou aqui assistindo a noite de natal...

Não acredito em Papai Noel, e em nenhum ser fantástico de luz. Eles não existem! Eu pedi a Papai Noel, quando eu ainda acreditava que ele existia, que não me desse presentes caros, não queria carrinhos, nem bicicleta, só queria uma coisa...Tá vendo? Papai Noel não existe! Continuo sem uma família feliz.

Quero que essa noite passe logo. Infelizmente outros natais virão. E, novamente, passarei por essa agonia. Por essa necessidade de na noite de natal ter uma família feliz. Será que todas as famílias são felizes? Vivem em paz o ano todo? Existe mesmo família feliz?

Eu não sei, eu não sei de nada. Talvez eu não saiba de nada mesmo. O que é família? Vazio. É um vazio! Minha família é assim para mim, um eterno vazio dentro de mim. Ainda assim Feliz Natal, família!


* Pâmella Araujo da Silva Cintra é graduanda do 5º semestre do curso de Letras Vernáculas da UEFS.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

CHUVA POÉTICA

Por Jessica Mina*


Eu estava encostada na máquina de lavar, pensando em fazer poesia quando, de repente, o céu inteiro se dissipou numa cor acinzentada que parecia entristecer. Na verdade, a poesia já estava feita e começava a cair em minha cabeça. Eu logo me apressei para não deixá-la desperdiçar. Caiam em mim pingos grossos de todos os lados, que eu não sabia onde guardá-los. Era muita poesia, eram versos fortes, donos de uma musicalidade e de uma dança que deixam qualquer sertanejo feliz. Então corri para apará-la com um balde e, em seguida, dei-me conta de que não era suficiente, pois a poesia transbordava, e logo inundaria a minha casa. Vesti-me, pois, de fios daquela poesia cristalina e ajeitei algumas roupas no varal. Feito isso, entrei em casa, fechei a porta e prendi a chuva lá fora.


* Jessica Mina, graduanda em Letras com Inglês 5º semestre na UEFS.

sábado, 20 de dezembro de 2014

ONTEM E HOJE

Por Greice Carla da Costa Cerqueira dos Santos*


Provas quem és tu, tenho eu
Pois quando tu me tinhas, eu era teu.
Hoje nada sou sem ti,
Mas tu nunca foste alguém sem mim.
E neste jogo de quem erámos
E o que hoje somos;
O tempo, então desbotou,
Com duras e belas palavras;
Nós fomos um grande Amor.


* Greice Carla da Costa Cerqueira dos Santos é graduanda do curso de Letras Vernáculas da UEFS.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

IDENTIDADE X PROCESSO DE COLONIZAÇÃO

Por Pâmella Araujo da Silva Cintra*


Durante o período conhecido como Romantismo, movimento que significou também uma busca da auto-afirmação da questão identitária dos países e não só, como se pensa, o individualismo, podemos perceber que esse período literário é marcado pela forte ideia de expressão do nacionalismo e na preocupação em instituir uma consciência nacional; estabelecer uma tradição literária calcada na origem da história de cada país como forma de criar uma identidade.

Entretanto, na América Latina, e em particular e principalmente no Brasil, os desdobramentos na criação de sua própria identidade se tornaram paradoxais e difíceis pelo fato dos países da América terem sido colônias dos países europeus. Contudo, isso significa que a América possui um atraso “intelectual” frente à Europa, por ter estabelecido literatura tardiamente. No caso do Brasil é ainda mais complicado, uma vez que ele, mesmo depois de ter conseguido sua independência, manteve com a metrópole colonizadora uma relação de cordialidade e até de submissão, o que explica um pouco esse complexo de inferioridade existente em nós brasileiros.

Vale ressaltar que, mesmo independentes, continuamos dependentes de Portugal após o período de colonização. E mais, a colonização de Portugal se diferenciou da espanhola, sofrida nos demais países latinos, por conta do apagamento cultural e imposição da cultura do país colonizador. Esse processo foi tão eficaz que resultou no fato de países como o Brasil não ter “memória” preexistente ao período de colonização. Isso dificulta, e muito, que países como o Brasil consigam constituir uma identidade, já que sabemos que não somos europeus, nem índios. O que somos, então? É esse o dilema em que se encontram os intelectuais, já que não temos resposta. Ou seja, o Brasil não possui uma identidade “acabada”, ainda nos encontramos em processo de formação.

Uma dificuldade sentida pelos nossos poetas e intelectuais durante o Romantismo foi justamente essa falta da história do nosso país. Eles, ao contrário dos escritores europeus, não tinham uma história, uma pátria. Por isso, encontraram-se na missão de criar a nossa pátria, ao mesmo tempo em que criavam uma literatura de cunho nacionalista sobre a mesma. De fato, os europeus não tiveram dificuldade quanto a isso porque já tinham uma tradição, uma história, uma origem a ser narrada.

Outro fato curioso é que tudo que é feito por nós, latinos, é sob e para o olhar da Europa, o que alimenta ainda mais a questão de nos sentirmos inferiores, já que o que verdadeiramente pretendemos com nossa literatura é que ela seja bem vista aos olhos dos outros; dos europeus. Vivemos então essa crise, o EU e o OUTRO. A literatura brasileira sofreu e ainda sofre muito com isso, no sentido de que, na tentativa de sustentarmos a criação de uma possível identidade, rejeitamos as influências daqueles que foram nossos opressores, os portugueses. Aí está o paradoxo: como negar a influência de Portugal para o Brasil se essa é uma parte de nós, da nossa quem sabe “legítima constituição”?

Não obstante, nós americanos nos enxergamos como bárbaros, e enxergamos a Europa como a civilizada. O Brasil rejeitou os modelos literários portugueses, mas adotou, por exemplo, o modelo de romantismo dos franceses. E, considera a França como o berço da civilização. Só nos enxergamos como donos de um país de natureza extravagante e exuberante porque o OUTRO nos enxerga assim. Afinal, até a visão que se tem do Brasil não é nossa, e sim do outro. E mais, somos vistos apenas como paraíso pela nossa bela fauna, flora, natureza em geral. Mas, quando falamos em civilização, cultura produção literária, somos rebaixados. Somos selvagens aos olhos do OUTRO e “incapazes” de exercer qualquer tipo de intelectualidade.

Assim, é de se imaginar que os nossos escritores, preocupados em criar uma pátria, pouco se importaram na elaboração de uma estética, e mais com os conteúdos tratados. Para Antônio Candido, a literatura brasileira é uma ramificação da literatura portuguesa. É vista como filha da portuguesa, e que por ser “nova”, deve atingir a “maturidade” da “velha”. Contudo, o que se pode observar é que a ideia de nacionalismo e de identidade brasileira não é algo fácil, e não podemos dizer que está acabada. Encontra-se em formação e em crise por conta de tantos paradoxos.


* Pâmella Araujo da Silva Cintra é graduanda do 5º semestre do curso de Letras Vernáculas da UEFS.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

GOLPE FATAL

Por Greice Carla da Costa Cerqueira dos Santos*


Amei demais...
Não me contive.
Foi tão intenso...
Mas só lamento.
E foi assim que acordei;
Acordei de um sonho,
Afora fui...
Distante então, da própria sorte ou dissabor
Entre o encanto e o desafeto,
Cujas lembranças ainda enxergo,
Eram turvas, mas enxerguei.
Vindo em minha direção,
Inclinei-me a receber;
Receber o golpe do qual fui vítima.


* Greice Carla da Costa Cerqueira dos Santos é graduanda do curso de Letras Vernáculas da UEFS.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

CULPA PERTINENTE

Por Greice Carla da Costa Cerqueira dos Santos*


Envelhecer não é problema,
Problema é envelhecer na mesma cena;
Situação que me inquieta e me condena,
Algo tão sorrateiro, mas se resume em dilema.

Envelhecer não é o caso,
Problema é envelhecer sendo massacrado;
Viver o preconceito, o medo e o pecado
Em um mundo tenebroso e disfarçado.

Envelhecer não me preocupa,
Porém meu ego não me escuta;
Vivo temeroso, ostentando outra conduta;
Procuro na verdade livrar-me dessa culpa.


* Greice Carla da Costa Cerqueira dos Santos é graduanda do curso de Letras Vernáculas da UEFS.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

QUANDO O IMPORTANTE É PARTICIPAR

Por Danilo Cerqueira Almeida*


Quando o importante é participar, os vitoriosos são todos.
Quando o importante é participar, não há prêmio individual, há bem-estar coletivo.
Quando o importante é participar, o mérito é compartilhador.
Quando o importante é participar, quem participa não deve perder tempo com autoglórias. Por isso, vai ganhar a secreta lembrança para a posteridade eterna.
Quando o importante é participar, ele(s) e ela(s) são apenas nós; você(tu) e eu também.
Quando o importante é participar, ganhar não é conseguir com o próprio esforço. É receber a graça do grupo.
Quando o importante é participar, participe, seja partícipe, seja você um entre poucos, seja você um entre muitos, seja você um entre todos: seja um todo!

Quando o importante é participar, sejamos sinceros: você não consegue, eu também não. Conseguimos juntos e juntos a tantos outros.
Quando o importante é participar, quem organiza também age, quem participa também pensa, quem vê também pode sentir, todos vivenciam.
Quando o importante é participar, somos a parte de uma realidade que se constrói.


* Danilo Cerqueira é licenciado em Letras Vernáculas, especialista em Estudos Literários, mestre em Estudos Literários – todas as graduações pela UEFS – e membro do conselho editorial da Graduando.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A COMÉDIA É UM GÊNERO CONSOLIDADO NO BRASIL

Por Joilma Maria de Freitas Trindade*


A comédia é o gênero com o qual o brasileiro se identifica mais. Mas, afinal, como a comédia se estabeleceu entre nós? Os Jesuítas (membro ou instituição Companhia de Jesus), com a intenção de catequizar os índios com a religião católica, trouxeram também uma cultura diferente: a literatura e o teatro. Dois séculos transcorreram entre as atividades Jesuíticas e o desenvolvimento do teatro no Brasil. Durante esse período (séculos XVII e XVIII), o país, que estava em fase de colonização, lutava pela autonomia do território colonial. Toda essa agitação refletiu no Teatro, que, apesar do sentimento nacionalista, tinha uma literatura dramática inaugural que dependia de iniciativas isoladas. Assim, a partir da Independência do Brasil, em 1822, na fase do romantismo, que rompeu com a tradição clássica, instalou-se um teatro determinado e engajado. Inicia-se a passagem a um teatro nacional.

Em 1833, o ator João Caetano formou uma companhia brasileira. A história da dramaturgia nacional está diretamente ligada ao ator por dois episódios marcantes: a estreia, em março de 1838, da peça Antonio José ou O Poeta e a Inquisição, de autoria de Gonçalves Magalhães, no Teatro Constitucional Fluminense. É a primeira e única tragédia escrita por um brasileiro que tratava de assunto nacional. Foi o primeiro passo para implantação de um teatro considerado brasileiro. Outras contribuições importantes figuraram nesse cenário: a de Arthur Azevedo, Gonçalves Magalhães, o escritor Machado de Assis e José Alencar. Além desses, ressalta-se a participação pioneira de Martins Pena, com suas comédias de costumes.

Ao longo do processo histórico-social brasileiro, as manifestações artísticas e culturais tiveram um papel singular na consolidação da identidade nacional. No teatro, por exemplo, fixaram-se como uma nova leitura do que fora feito até então. Assim, em outubro de 1838, foi apresentada pela primeira vez a comédia O Juiz de Paz na Roça, de Martins Pena, no mesmo teatro do começo de João Caetano. A peça foi o primórdio para a afirmação da comédia de costumes como o gênero preferido do público. As peças, por estarem incorporadas ao Romantismo, eram bem aceitas pelo povo, cansado do formalismo anterior, isto é, do teatro proveniente da Europa, que tinha como principal objetivo satisfazer a classe dominante brasileira, que transformava as exibições em autênticos acontecimentos sociais.

A perceptível identificação do Brasil com esse tipo de teatro deu-se pelo fato de o autor tratar de aspectos da vida social, destacar temas que envolvem as tradições e costumes populares: como as festas do Espírito Santo, festas da roça, a “malhação” do Judas, as festas de São João, as intrigas domésticas, os caçadores de dotes, os casamentos por interesse e os contrastes e diferenças entre o universo rural e o da cidade. Os personagens criados por Martins Pena descrevem com fidelidade o Brasil da época: funcionários públicos, meirinhos, juízes, malandros, matutos, estrangeiros, falsos eruditos, profissionais da intriga social.

A comédia de costumes, ou seja, a encenação que por meio do humor e da sátira procura revelar os costumes e condutas da sociedade, revelando a desorganização, a corrupção, a exploração, os comerciantes fraudadores, os interesses pessoais em detrimento dos coletivos, é que denuncia os desvios de caráter e os vícios que estão camuflados na personalidade humana.

O nosso herói cômico vem da plebe do campo. Faz o povo rir de si mesmo. Demonstra compreensão, superando suas dificuldades com festas, piadas e brincadeiras. Embora faça as pessoas rirem, a função da comédia não se limita só a isso, mas, particularmente, à superação de algo. Não há elevação de status, este permanece o mesmo. O homem do campo representa nossa identidade. Por causa de nossa vocação, o nosso teatro desenvolveu mais a veia cômica do que a dramática.

No estrado do teatro de comédia, procurávamos nos achar, nos entender. Não havia uma crítica expressa, visto que a consciência do povo estava começando a se formar. Aos poucos, a peça cômica começa a ganhar um tom de denúncia, provoca reflexão, suscita o questionamento e através do humor irônico, denuncia uma falta na sociedade, isto é, cutuca as relações de poder com ironia, sai em defesa das questões coletivas. Desenvolvemos, então, a característica cômica para buscarmos nossa identidade.

O cômico revela nosso ideal como povo. Quando representamos, deixamos de ser colonizados para sermos outras pessoas. O desejo se materializa por meio das atuações. Cria-se, no palco, a sociedade com a identificação que se quer afirmar. No tablado, o homem comum protagoniza as mudanças que gostaria de ver transformadas em ações concretas. Ali se realiza como cidadão que tem uma carteira de identidade.

Enfim, sabemos que, embora universais, ou seja, marcados por várias culturas, ainda somos subjugados ao “ranço” da colonização portuguesa. Portugal “despiu” o índio de sua cultural original, imprimindo-lhe a sua e tornou-se nosso principal colonizador. A nossa afinidade com a comédia se dá por conta da luta para comprovar nossa identidade como povo, como nação, que quer e deseja ser reconhecida pelo que é, e não pelo que foi. Continuamos a jornada. Somos um povo indefinido. Hoje, nossa formação provém de diversas etnias. Isto posto, quem nos garante que falamos português ou que a cultura que nos caracteriza é a do nosso colonizador?

Viva a comédia, que permite que sejamos outros em nós mesmos, em busca de nossa própria marca!


* Joilma Maria de Freitas Trindade é graduanda do 5º semestre do curso de Letras Vernáculas da UEFS.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

LINGUÍSTICA HISTÓRICA: AS MUDANÇAS OCORRIDAS NA LÍNGUA AO LONGO DO TEMPO

Por Pâmella Araujo da Silva Cintra*


A língua é um complexo sistema em transformação, por isso, linguistas tentam compreender essas mudanças ao longo do tempo. A Linguística Histórica é a disciplina científica que se preocupa em interpretar as mudanças fônicas, mórficas, sintáticas e semântico-lexicais das línguas utilizadas por seus falantes ao longo do tempo histórico. Para isso, ela depende, diretamente, da filologia, ciência do texto, que fornece os dados.

Podemos perceber, ao comparar, por exemplo, a escrita dos poemas da época do português arcaico (séc. XIII) com a escrita do português moderno, que a língua passou por muitas mudanças, a exemplo, itens lexicais ou gramaticais como em “non ei ren do que desejo”, o substantivo ren desapareceu do uso corrente. Veja: “Calho nego pola ver”, o mesmo aconteceu com a conjunção ca. É possível também notar na comparação, que, no português antigo, os substantivos terminados em –or eram de dois gêneros, como no exemplo: “Ca mia senhor quiso Deus fazer tal”.

Na Linguística Sincrônica, são analisadas as características da língua, considerando-as estáveis, ou seja, imutáveis. Dentro de um espaço de tempo aparentemente fixo e, muitas vezes, curto. É nesse intervalo de tempo que se procuram detectar as características linguísticas de maior relevância daquele período escolhido. A partir daí, o confronto das diferentes sincronias de diferentes períodos configura-se no que chamamos de estudo diacrônico, cujo centro das atenções são as mudanças ocorridas na língua ao longo do tempo.

A Linguística Histórica possui uma vertente conhecida como Linguística Histórica Lato Sensu. Caracteriza-se por ser todo tipo de linguística que trabalha com corpora datados e localizados, ou seja, com dados que possam ser comprovados por meio da data (tempo) e do local (espaço). Portanto, não estuda a mudança linguística. A dialetologia é um exemplo de estudo que se baseia em documentação datada e localizada, podendo-se, então, incluí-la na chamada Linguística Histórica Lato Sensu, tal como, a Sociolinguística Laboviana.

A outra vertente da Linguística Histórica é a Linguística Histórica Stricto Sensu ou Tradicional. A ela interessa as mudanças ocorridas, o que muda e como ocorre a mudança na língua ao longo do tempo. Aqui sim, há a preocupação com o estudo da mudança linguística. Contudo, sabe-se ainda que há duas orientações para se trabalhar com a Linguística Histórica Stricto Sensu, são elas: Linguística Histórica Sócio-Histórica ou Linguística Histórica Social e Linguística Histórica Associal ou Linguística Diacrônica. A primeira, considera os fatores extralinguísticos e sociais (LÍNGUA-E), como é o caso da teoria laboviana da variação e mudança, que leva em conta o grau de escolaridade dos falantes, faixa etária, os diferentes contextos sociais e demais fatores. Já a segunda, considera apenas os fatores intralinguísticos, como é o caso dos estruturalismos diacrônicos. Em suma, a língua interna (LÍNGUA-I).

A Diacronia Sincrônica é mais uma forma de abordagem que se preocupa com as mudanças da língua, mas essa se diferencia por englobar, ao mesmo tempo, diacronia e sincronia. Entretanto, trata-se de fazer diacronia com uma mesma sincronia através do confronto de diferentes faixas etárias, em tempo aparente, e não de diferentes períodos. Ou seja, é observada a mudança de um mesmo fenômeno linguístico em um mesmo espaço de tempo, levando-se em conta apenas as diferentes faixas etárias envolvidas.

Outra maneira de se fazer um estudo diacrônico é através da Diacronia Tradicional, que, em parte, se assemelha muito ao conceito de Linguística Histórica, tendo como objetivo interpretar as mudanças ocorridas na língua ao longo do tempo. Esse estudo é feito por meio do estruturalismo e do gerativismo diacrônico, considerando a língua interna (LÍNGUA-I) e o confronto de sincronias.

Para os linguistas, o estudo histórico da língua é entendido de diferentes formas, com isso, foram desenvolvidas três vias de estudo: voltar ao passado e nele se concentrar, voltar ao passado para iluminar o presente, estudar o presente para iluminar o passado. Esta última é a via assumida pela diacronia sincrônica e que está também para a Linguística Histórica Lato Sensu, é o caso da Sociolinguística Laboviana.

Fica claro que muitas são as orientações teóricas pelas quais podemos direcionar nossos estudos quanto às mudanças ocorridas na língua. Mas é preciso deixar claro que todas aqui apresentadas muito contribuíram e ainda contribuem para o entendimento das mudanças ocorridas desde o português arcaico até o moderno, as distintas três vias pelas quais podemos optar buscar entender essas mudanças. Assim, a linguística Histórica é uma disciplina científica, cujo objeto de estudo é tão complexo e rico, que muitas são as teorias criadas.


* Pâmella Araujo da Silva Cintra é graduanda do 5º semestre do curso de Letras Vernáculas da UEFS.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O PESADELO

Por Messias Bezerra Queiroz*


Eu agora estou no canto,
Gemendo, chorando e tonto.
Sempre encolhido, tremendo tanto,
Acorrentado pelo medo e pronto.

A minha vida está em perigo,
Mas é um delírio que me acerta.
Meu espírito está inimigo
Deste corpo que me aperta

Desarmonia desastrosa,
Que não revela a procedência.
E dessa angústia tenebrosa
Estou sofrendo a experiência

Quero voar, sair gritando,
Mas pelo visto não sou digno.
Pois sinto está me aprisionando
A triste força de um maligno

Será a perda do sentido?
Ou um poeta ficando louco?
Com licença,
Eu preciso chorar um pouco.


* Messias Bezerra Queiroz é graduando do curso de Letras Vernáculas da UEFS.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

DIÁRIO VI

* Por Danilo Cerqueira


Luzes e velas, fora!
Que custe minha vontade
A queima e o reflexo
O desvario sem interregno
Do fantasma apregoado.

Terra e tempo no passo
Invisível do som...
Leve, mas leve de vistas
E miragens de homens
Perdidos, em farpas...
Mosaicos iluminados.


* Danilo Cerqueira é licenciado em Letras Vernáculas, especialista em Estudos Literários, mestre em Estudos Literários – todas as graduações pela UEFS – e membro do conselho editorial da Graduando.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

“LOVE ME DO”

* Por Jessica Mina de Sousa


Eu acabara de sair de uma tarde enriquecedora num minicurso realizado na biblioteca Julieta Carteado quando encontrei algumas amigas, com as quais parei para tagarelar. Conhecer um pouco mais sobre Caio Fernando Abreu e identificar-me com algumas características fortes presentes em suas obras deixou-me em estado de fluxo de consciência; mesmo assim, aceitei o convite de Thaylane para tomarmos o café da noite no restaurante universitário. 

Todo aquele trajeto, corriqueiro para nós, não aparentava nada de anormal. Por isso, batíamos papo tranquilamente. De repente, apagaram-se as luzes. A reação instantânea foi de gritos e guizos. Por um minuto a fila parou, e podia-se imaginar a cara assustada das pessoas sem saber direito o que aconteceria a partir dali. Posteriormente, disseram que foi acidente feio na BR que provocou a falta de energia elétrica na Universidade, mas não faltou iluminação, e todos alimentamo-nos à luz das lanternas dos celulares.

As pessoas fizeram sua refeição ali mesmo, porém, mais próximas que o comum, pois uma coisa diferenciava aquele momento dos dias cheios no bandejão, nos quais as pessoas sentam-se bem próximas nem sempre por opção, mas por falta de outros lugares disponíveis. Hoje, o que ajuntou os seres ali presentes, foi a falta de energia elétrica e a presença de luz. Tanto que o rapaz que se sentou ao meu lado ainda disse para o colega: “Peraí, vei! Senta perto de quem tem luz!” E eu me senti iluminada, pois Thaylane portava um aparelho celular com lanterna, diferente do meu, que além de despertador serve apenas para ouvir músicas e fazer chamadas.

Foi um momento incrivelmente poético, e ao fundo, atrás das conversas batidas sobre provas, trabalhos e final de semestre, podia-se ouvir o solo maravilhoso da gaita dos Beatles em “Love me do”. O ritmo da música encheu o R.U. de uma energia transcendente que me acompanhou até em casa, para que eu não esquecesse de gravá-lo. Definitivamente, foi para mim, um dos dias mais inolvidáveis da vida universitária; e na cabeça, aquelas vozes que se repetem: “so pleaaaaaaaaaase, love me do, oh oh love me do”.

A saída de alguns estudantes pelo portão lateral aconteceu em bando, pois todo aquele aglomerado de cidadãos sente-se constantemente refém da marginalização que habita a rua Jurema e todo o conjunto de casas e prédios de aluguéis denominado Feira VI. Dobrei a esquina do meu caminho a passos largos, quase que correndo, e confesso que o temor de ser vítima, mais uma vez, passeava pela minha corrente sanguínea tão rapidamente a ponto de me fazer suar.

O alívio, ao entrar em casa e ver Talita deitada no sofá com uma vela miúda ao lado da TV minúscula, foi inspirador, motivo pelo qual fiz-me rabiscar as primeiras linhas de algo que eu ainda nem sabia o que viria a ser. Agora, sentada em frente a esse mundo que é o computador, a internet e sua imprescindível capacidade de armazenar dados limita-me a ser somente palavras, que guardadas, poderão algum dia refrescar a memória.


* Jessica Mina de Sousa é graduanda do 5° semestre do curso de Letras com Inglês na UEFS.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

ANOS SECOS

* Por Maria Rosane Vale Noronha Desidério


Queixando-se de mal estar, dona Evangelina deixou o velho corpo enrugado descansar entre as pedras do rio Puiú. E, avistou ao longe a arribada de passarinhos procurando água nas cacimbas. Tempo perdido! As cacimbas minguavam depressa debaixo daquele sol de novembro. Tudo havia minguado. O resto de água que a seca não carregou, estava protegido dessas aves, de todas as aves.

Dona Evangelina tinha essa mania de quando ia buscar água nas cacimbas do velho Puiú, deixar-se ali, meio que abandonada por si mesma para admirar o entorno. Usava esse tempo para fugir dos desesperos caseiros. Deixava-se embalar pelos pensamentos fugidios e pelo silêncio do mato. Um silêncio quebrado unicamente pela arribada de aves e pelos bichos entoando seus lamentos de sede.

Mas, ela se recordava que o sertão nem sempre foi assim. Nem sempre houve sede coletiva e compartilhada entre bichos e homens, nem sempre as plantações se perdiam, minguadas pela secura do solo ou a invasão da lagarta. Houve tempos em que o sertão era um paraíso farto e alegre. Um tempo bom em que o céu se vestia de cinza e derramava água à vontade. Era bonito ver os meninos aos pulos se banhando nas bicas ou se enlameando nas poças de água. A lua escondida e o sol intimidado admirando as nuvens carregadas. Nada podia se comparar à felicidade das chuvas, o povo colhendo feijão, milho, melancia, as mulheres e os meninos aos pés do fogão à lenha, assando espigas fornidas na brasa. Uma beleza!

Mas agora, a terra amargava três longos anos de seca, e o velho rio só possuía cacimbas de água barrenta e salobra, e o açude da vizinhança, tão grande e cheio de peixes, amargava uma morte apressada. Era triste avistar ao longe aquela imensidão de peixe morto às margens, cada vez mais encurtadas, do açude. Dona Evangelina sentia aquela tristeza arrebatar suas forças. E o sol parecia ter baixado sobre a cabeça do povo. Os sertanejos pareciam esquecidos.

Dona Evangelina estava ali, pensando nos tempos fartos, nas alegrias aos pés da trempe onde os meninos assavam milho verde. Agora as roças estavam desertas e a comida minguava. Perguntava-se diariamente porque o sertão era tão esquecido e seco. ­­­­­Era seco por gosto de Deus? Achava que não. O sertão tinha jeito, tinha sim. Faltava era o querer de quem podia fazer. O sertão era esquecido porque os homens do poder só visitavam os sertanejos em prazos de dois anos. Vinham sempre alegres, cheios de boas ideias e palavras bonitas. Dava gosto de ver. Depois se escafediam, evaporavam como fumaça. Era sempre igual. E os sertanejos minguavam ou arribavam-se para as cidades. Perdiam-se naquela imensidão. E, em sua maioria, permaneciam esquecidos. Poucos voltavam.

Dona Evangelina lamentava essa necessidade que tinham muitos sertanejos de despregar-se de seu chão e desaprender a lidar com a terra para aventurar-se em chão alheio. Aquilo era uma violência. Muitos morriam por dentro. Outros morriam de todo. Não voltavam.

Se os filhos quisessem ir embora, ela teria que deixar. Tinha medo disso, mas sentia que não tardaria a acontecer. Quase todos os filhos do sertão estavam fazendo isso — indo embora. O sertão estava secando por dentro. E o sertão era tão bonito! Mas os novatos tinham medo da seca, queriam outros caminhos, outros destinos. Se tivesse boa vontade dos homens do poder o sertão não careceria ter medo dos anos secos.  E ela não careceria ter medo de ver os filhos se enveredarem pela estrada do sul.

Agora avistava aquela arribada de aves. Logo elas iriam embora também,procurar água em outros rios. E ela voltaria para casa com o balde repleto de água salobra para encher os potes, enquanto ainda houvesse água salobra. Enquanto ainda houvesse...


* Maria Rosane Vale Noronha Desidério é aluna do 5º semestre do curso Letras Vernáculas pela Uefs.

sábado, 11 de outubro de 2014

TRAGÉDIA X COMÉDIA

* Por Pâmella Araujo da Silva Cintra


As peças de teatro, ou seja, a arte de encenar, data dos tempos da colonização. Durante o processo de catequização dos índios, os autos foram uma das maneiras encontradas de cristianizá-los, pelo interesse que a encenação lhes causava. Eis que os gêneros teatrais tragédia e comédia se destacaram bastante devido às suas características peculiares e pela forma como foram introduzidos e aceitos pela sociedade, tal como as transformações geradas de ordem religiosa, social, formação do pensamento reflexivo, e a busca pela nossa identidade nacional.

A tragédia grega caracteriza-se por ser a imitação de uma ação importante e completa que suscita compaixão e terror (medo). A compaixão significa, portanto, uma identificação, em outras palavras: a mimesis. Quanto ao terror, este apresenta-se como uma espécie de compreensão adquirida, ou seja, uma verdadeira catarse. Segundo Aristóteles, a importância da tragédia grega está na organização dos fatos, sendo fundamental a imitação de ações da vida real, da felicidade e da desventura, pois ela não é imitação de pessoas e sim, dessas realidades citadas.

O interesse que se tinha em que a sociedade grega assistisse às tragédias provém da transformação política da Grécia Antiga, que pretendia também acabar com a crença desmedida em divindades mitológicas, fazendo com que as pessoas enxergassem não mais uma única visão absoluta de mundo, e sim levar a sociedade ao questionamento, a refletir sobre as atitudes e comportamentos humanos, ora tratados como tabus pela sociedade, como coisas distantes da realidade do povo.

A tragédia consegue levar as pessoas à reflexão da problemática causada pelo conflito estabelecido, sem apresentar uma solução pronta. Ela suscita no espectador os porquês disso e daquilo, uma possível identificação com as personagens e uma procura até mesmo mais racional de explicações e soluções para a problemática tratada. Aristóteles diz que a tragédia é sem ventura, ao passo que a comédia é com ventura, o que significa dizer que não existe final feliz nas tragédias, enquanto que a comédia, assim como a grande maioria dos contos de fadas, apresenta final feliz. 

Já a comédia, caracteriza-se, segundo Aristóteles, pela exacerbação dos vícios (defeitos), ou seja, a comédia trata dessa intensificação dos defeitos. Trabalha com a reordenação/renovação, com a coletividade, com o social. Ao contrário da tragédia cujos personagens principais são sempre os heróis, na comédia estes são vistos como os anti-heróis. A comédia traz uma proposta de superação, não sendo algo só para rir. Até porque, a ironia pode estar associada à crítica, a quebra da lógica é o que gera o riso. A graça está na compreensão nova daquele contexto.

As relações sociais que são as relações de poder, assim como os tipos sociais, são os focos das peças teatrais cômicas. A comédia tem como objetivo retratar a sociedade tal como ela é, com os seus sujeitos, seu modo de falar... No Brasil, sem sombra de dúvida, a força da literatura brasileira está no cômico. A comédia proporcionou ao teatro brasileiro uma desvinculação dos moldes europeus. Com isso, percebe-se que, com a comédia, há uma busca pela identidade nacional do nosso país, até então, os nossos palcos retratavam realidades que não eram nossas, como também a linguagem utilizada.

Fica a pergunta: Por que o teatro brasileiro desenvolveu mais a veia cômica do que as tragédias? A resposta pode estar no fato da comédia causar uma identificação maior no público. Ora, a comédia era mais fiel à realidade do nosso país, havia uma linguagem compreensível, porque era o nosso modo de falar que era utilizado, personagens tinham características próprias do povo brasileiro, os costumes eram nossos, como também os obstáculos esperados. Os tipos sociais demonstravam bem traços da personalidade brasileira, ao mesmo tempo que denunciava as discrepâncias de igualdade e de justiça do nosso país.

Embora a comicidade tenha se desenvolvido e se destacado mais que a tragicidade, ambas tiveram muita importância pelas transformações geradas. O teatro se destacou muito com esses dois gêneros que serviram como instrumento de reflexão e de aprendizagem ao discutirem questões como o ser humano, suas atitudes e comportamentos. Foi uma forma de fazer as pessoas repensarem a sociedade como um todo. Assim como a literatura nunca é apenas literatura, devemos ter em mente que o teatro e a ideia que temos dele hoje é bem diferente do que foi o teatro e suas propostas. O teatro de outrora, era mais que teatro, tinha embasamento filosófico, educador, político e causas. Em síntese, a tragédia e a comédia conseguiram ganhar os palcos e o povo brasileiro.


* Pâmella Araujo da Silva Cintra é graduanda em Letras Vernáculas, 5º semestre, UEFS.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O PROCESSO DE AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM

* Por Pâmella Araujo da Silva Cintra


O processo de aquisição da linguagem gira em torno da questão de Platão: Como podemos saber tanto a partir de tão pouco? Ou seja, como pode o ser humano intuir que tal sentença não pertence a sua língua só com o conhecimento dos dados primários? Chomsky e a tradição racionalista defendem a existência de um dispositivo inato biologicamente determinado, conhecido como Gramática Universal (GU). Trata-se, portanto, do estágio inicial do processo de aquisição.

A concepção defendida pela tradição racionalista pressupõe que adquirir uma língua particular é mais uma questão de maturação e de desenvolvimento do tal órgão mental biológico e menos uma questão de aprendizagem. O Behaviorismo defende que os dados primários, ou seja, o meio ambiente linguístico ao qual a criança é exposta, sejam suficientes para explicar o sistema de conhecimentos final do indivíduo adulto.

Entretanto, apesar da tradição racionalista não negar a importância do meio para iniciar o funcionamento da aquisição da linguagem, ela desconsidera que os dados primários deem conta de determinar as propriedades finais atingidas pelo sistema gramatical.

Em outras palavras, os estímulos iniciais da criança são pobres. Devendo-se, então, admitir a existência da GU na mente humana como um mecanismo inato suficientemente complexo, capaz de explicar e de determinar a aquisição e o desenvolvimento da linguagem.

Assim, podemos considerar que a GU é a nossa língua interna (Língua – I), constituída por princípios e parâmetros, e a performance, o uso concreto da linguagem (Língua – E). Contudo, entende-se que o dispositivo inato e o meio linguístico são os responsáveis pelo processo de aquisição da linguagem.


* Pâmella Araujo da Silva Cintra é graduanda em Letras Vernáculas do 5º semestre

sábado, 27 de setembro de 2014

PREÇO

* Por Pâmella Araujo da Silva Cintra


SEI QUE NÃO POSSO MUDAR O MUNDO, NEM AS PESSOAS.
GOSTARIA DE VIVER EM PAZ,
COM O MUNDO E COM AS PESSOAS.
TER UMA VIDA NORMAL,
SEM JULGAMENTOS E OSTENTAÇÃO.
COMO?!
PORQUE, HOJE, TUDO É VAIDADE!
NADA É DE CORAÇÃO!
NÃO SE SABE QUEM É QUEM
SÓ SE SABE QUANTO VALE,
O VALOR MONETÁRIO DAS COISAS.
E ATÉ MESMO DAS PESSOAS.


* Pâmella Araujo da Silva Cintra é graduanda em Letras Vernáculas, 5º semestre.

domingo, 14 de setembro de 2014

EIS A CONTRADIÇÃO

Por Stéphanie Nascimento da Cruz* 

Eis que meu coração está distante do amor, sem rumo, sem sentido, sem esperança nem veracidade. Pois, do importante aspecto, duras são as almas que caem sobre um pobre e deserdado coração. Eis que abro as portas que escondem os segredos mais vis destinados à crueldade humana. Pobre daquele que desmerece e desmede sem ao menos ter sofrido por amor. Eis que sinto o prazer mais destemido por jamais ter amado e doado uma parte de mim, porque não há pedaços para serem reerguidos quando nunca foram despedaçados. Certamente são tolos os que acreditam que nunca se importaram com nada, porque de dor qualquer ser humano compreende, da mais simples à mais terrível. Eis que surge o suicídio de corpo e alma quando sua mente já não suporta discernir entre a realidade e a fantasia. Onde estão escondidos os sentimentos? Por trás das palavras que ferem ou curam? Por que já não existe mais um sentido ideal quando julgamos a nós mesmos. Era para serem somente palavras escritas em um texto enfadonho perdido no vácuo. E eis que surge a realidade e retoma a ferocidade que está impregnada em cada nuvem, em cada estrada, em cada lugar e em cada olhar, porque já não há mais flores, muito menos conexões ou certezas. Já não existe um mundo pelo qual se dar corações em vez de batalhas. Já não mais vivemos em um mundo que se morre por amores; ao contrário, se mata por amores. Então sim, eis que passa a existir algo doce, algo belo que necessita de paz, mas o medo ainda está lá. Então onde está seu coração agora? Perto ou longe? Dentro ou fora? Eis que surge a paixão e tudo faz sentido, músicas te agradam, filmes te fazem suspirar e as frases são somente suas e eis que surge a solidão que incapacita todas as suas manhãs e enganam todas as suas noites. Tudo tão contraditório, mas tão real. Pelo que lutamos afinal? Por amor ou pelo medo de não tê-lo? Eis que meu coração já desconhece as respostas de tão enganoso que és, porque não há sentido, rumo, esperança ou veracidade. Pois, difíceis são as feições que desabam sobre um desprovido espírito. 

* Stéphanie Nascimento da Cruz cursa o 5º semestre de Letras vernáculas na Uefs.

domingo, 17 de agosto de 2014

A COMÉDIA PARA LER UM BRASIL

Por Maria Rosane Vale Noronha Desidério*


Há muitas perguntas ecoantes no cenário literário. Aqui, porém, tentaremos responder uma que se refere especificamente ao teatro. Por que o teatro de comédia teve mais êxito do que o dramático? Para responder tal pergunta é necessário compreender a formação brasileira, é necessário saber de que tipo de Brasil estamos falando, para só então podermos responder essa pergunta acerca do teatro de comédia.

Quando a primeira nau portuguesa, trazendo consigo os jesuítas, atracou em terras desconhecidas da futura Ilha Vera Cruz, o Brasil, avistou além das belezas naturais uma população aborígene que não compreendia a língua portuguesa e nenhum outro dialeto europeu ou oriental. E, para estabelecer contato, os portugueses precisaram utilizar algum tipo de linguagem para se comunicarem com aquele povo. Foi neste momento crucial que o teatro deu seus primeiros passos em terras brasileiras. Depois deste primeiro contato com os colonizadores, o Brasil vivenciou grandes transformações, tornando-se colônia portuguesa, império e depois uma nação republicana.

Além das transformações políticas, o Brasil ganhava uma população muito heterogênea com indígenas, africanos, franceses e holandeses (em menor número), portugueses e brasileiros portugueses, ou seja, os filhos de portugueses que não sabiam bem quem eram, se brasileiros ou portugueses — lembremo-nos de Gregório de Matos com seu ranço de fidalgo e sua voz ainda ecoando o colonizador. Era uma população que ainda não compreendia sua identidade, e havia uma imensa necessidade de compreendê-la, mas o Brasil de Gregório ainda possuía uma ligação umbilical com a sua colônia. Esta ligação estava em tudo, inclusive nas artes, e isto dificultava sobremaneira a identificação da singularidade de uma nação em nascimento. Era preciso compreender o povo, identificar o modo de ser genuinamente brasileiro, mas pouco se sabia além das notícias da corte. A arte e, especificamente, a literatura poderia ser um caminho, mas seus primeiros passos, embora se perceba desde o início traços que a diferenciava da europeia, estiveram muito presa a esta, principalmente às literaturas portuguesa e francesa.

Machado de Assis, ao analisar o então estado da literatura no romantismo em seu artigo “Instinto de nacionalidade”, afirmou que esta ainda não estava madura; era, pois, ainda adolescente. Ao referir-se sobre o teatro, Machado concluiu sem singeleza nem meias palavras que este simplesmente não existia no Brasil; não havia nenhum teatro nacional, apenas “reticências”.

As palavras de Machado não querem dizer que não se fazia teatro no Brasil, mas que não se fazia teatro nacional. Este, para ser nacional, não necessitava de textos sobre índios ou sobre as belezas da mata atlântica, afinal, segundo Machado, um escritor não precisa citar detalhadamente a região de sua origem para ser nacional. Esta nacionalidade estará em tudo que ele escrever. E mesmo ao escrever temas universais se pode ser nacional. O problema então era que o teatro que se fazia no país estava impregnado da prosódia portuguesa, não possuía um estilo que se pudesse chamar de nacional, apesar dos avanços que João Caetano imprimiu no modo de interpretar, permitindo maior realismo. 

O teatro produzido no Brasil carecia de uma autenticidade nacional. Faltava-lhe uma identidade que pudesse afirma-lo, de fato, Brasileiro. E esta busca por identidade atravessou um longo caminho até chegar à década de 1950 a 1960, quando o Teatro de Arena lança em seu palco um autor nacional através da peça Eles não usam black tie, de Guarnieri. Uma ousada ideia que trouxe os temas, a linguagem e o cotidiano tipicamente nacionais ao tablado do teatro brasileiro. 

Todo este cenário brasileiro de transformações políticas busca por se firmar como nação e a necessidade de se conhecer e compreender as transformações pelas quais estava passando o Brasil. Seja no campo político, intelectual e artístico ou de formação do povo efetivamente como nação brasileira, o país necessitava de um teatro que fosse além da reflexão. Era preciso ler e compreender aquele povo, era preciso investigá-lo, observar os modos e reproduzi-lo. Era preciso um teatro que se prestasse a falar do povo comum, do plebeu, porque era preciso conhecer quem era o povo que formava o Brasil. E, diferentemente da tragédia que tem seu foco no individuo, a comédia focaliza o coletivo, refletindo sobre ele. 

A comédia amplifica os tipos humanos: a moça casadoura, o político de conduta duvidosa, o avarento, a viúva, o homem da roça, a fofoqueira, o juiz de paz. Ao fazer isto, permite que se volte com um olhar mais agudo para estes tipos humanos que, embora pintados com certo exagero pelo teatro, são personagens rotineiros, fazem parte da sociedade. Assim, se poderá compreender a cultura daquele povo e perceber essa singularidade coletiva tipicamente brasileira que o particulariza no cenário universal. 

É interessante observarmos ainda que a comédia, ao voltar-se para o subalterno, refletirá um estado de Brasil enquanto colônia portuguesa e quiçá como colônia imaginária de outros poderosos que vieram depois. Veja, enquanto colônia o Brasil era, inevitavelmente, subalterno à sua metrópole. Então, como um herói cômico, o Brasil buscava superar suas dificuldades, cortar sua ligação umbilical com a metrópole para enfim poder andar com os próprios pés.

Por esse motivo, a comédia teve melhor aceitação no Brasil do que a tragédia. Embora se tenha escrito peças trágicas de valor, estas não se adequaram aos anseios e necessidades de uma nação em formação, uma nação em busca de sua própria identidade ainda que fosse impossível desvencilhar-se por completo da herança que recebera de sua ex-metrópole. O novo país tinha a árdua missão de absorver todas as informações culturais de um povo híbrido, vindas de povos e nações diversas para unir-se aos nativos e formar uma identidade híbrida e, apesar disso, única e singular.


* Maria Rosane Vale Noronha Desidério é aluna do 4º semestre do curso Letras Vernáculas pela Uefs.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

(SEGUNDA) CRÍTICA À EDUCAÇÃO BRASILEIRA *

Conceição do Jacuípe, 12 de Junho de 2014


Excelentíssima Presidenta do Brasil Sra. Dilma Rousseff,

Gostaria de poder iniciar este texto parabenizando-a pela sua atuação positiva no cenário da Educação em nosso país. Mas, como cidadão e educador, conhecedor de meus direitos e deveres enquanto cidadão brasileiro, não posso compactuar de uma hipocrisia tamanha. Escrevo-lhe acreditando que Vossa Excelência, com o poder que lhe foi conferido, seja capaz de amenizar minhas angústias. Quero também acreditar que a Excelentíssima disponibilizará de alguns minutos do seu tão precioso tempo para ler meus lamentos, já que não tenho a quem recorrer a não ser à autoridade máxima da minha terra, eleita pelo povo brasileiro para defender seus direitos.

Tenho verificado que o Sistema Educacional brasileiro atual tem sido falho. Muitos jovens ingressam no Fundamental II sem habilidade para a compreensão de textos simples, e outros nem sequer conseguem assinar o próprio nome. E então alguns insistem em pôr a culpa em nós, professores, pela má qualidade do ensino. O acesso aos cursos técnicos com a finalidade de qualificar a mão de obra para o mercado de trabalho tem crescido de forma significativa, porém tem formado profissionais sem a devida qualificação; e ainda assim a culpa recai sobre os docentes. Na Educação Básica, o governo criou a progressão continuada, os ciclos, a avaliação contínua, a recuperação paralela, tudo isso sem bons resultados; e a culpa também é do professor.

É lamentável Excelentíssima, como o professor tem sido alvo neste cenário. De quem seria a culpa afinal? Do professor que é mal remunerado e por isso não dispõe de ânimo para executar o seu trabalho pedagógico de maneira responsável, ou do governo, que investe mais em projetos pedagógicos de cunho político com o intuito de mostrar à sociedade de que há um trabalho voltado para Educação do país, não se importando com seus resultados? Do meu ponto de vista, parece-me que esse modelo de Educação brasileira tem sido uma “cópia xerografada” de outros países. Um exemplo disso é o Programa Mais Educação, que propõe a permanência do aluno na escola, mas o espaço físico não comporta os alunos em tempo integral diferentemente do que é proposto em países vizinhos.

Peço-lhe desculpa, Senhora Presidenta, mas não posso mais fingir que tudo está perfeito. Sou graduado e pós-graduado, recebo um salário insignificante equivalente a pouco mais que um salário mínimo e tenho que transformar a sociedade enquanto que os senhores políticos, que em alguns casos não possuem nem o fundamental completo, recebem valores incalculáveis para desfilarem engravatados. E os jogadores de futebol que recebem milhões a cada jogo? Então pergunto: Por qual estrada Excelentíssima ficou o lema de sua campanha Brasil rico, e sem pobreza?

Não posso esquecer de mencionar nessas poucas linhas a respeito dos Programas do FNDE juntamente com o MEC, nos quais Vossa Senhoria visa oferecer uma Educação pública de qualidade. Mas, também não posso deixar de citar o quanto são falhos. A exemplo posso citar o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), que visa a distribuição de livros didáticos nas esferas estaduais e municipais, porém de forma precária, uma vez que a distribuição é feita de acordo com o Censo Escolar do ano anterior, deixando dezenas de alunos sem livros se no ano em curso o número de alunos matriculados for superior.

As cotas. De que adianta Excelentíssima popularizar o ingresso de estudantes nas Universidades Públicas se a Academia não está preparada para recebê-los e nem tão pouco os profissionais se predispõe a atender a diversidade? Muitos desses alunos vêm de escolas públicas com todas essas problemáticas citadas anteriormente.

E quanto às avaliações externas como SAEB, prova Brasil e provinha Brasil, servem para quê mesmo? Acho que já sei a resposta, Presidenta, mas me corrija se estiver enganado. Certamente se o resultado for positivo será fácil mascarar o IDEB e dizer que no Brasil não há analfabetos, mas se o resultado for negativo, mais uma vez servirá para autoafirmar que o problema está na formação do professor. Será que acertei?

Talvez, Presidenta Dilma, eu seja um sonhador, mas prefiro mesmo sonhar com professores satisfeitos com seus salários e menos injustiçados. Sonhar com meus alunos num sistema educacional que atenda as suas expectativas e que de fato funcione. Mas não basta sonhar, é preciso concretizar, e a Excelentíssima pode idealizar este sonho que não é só meu, mas de todos os educadores brasileiros.

Desde já espero que me desculpe por tamanha ousadia e meus sinceros agradecimentos pela vossa atenção.


Sandro Guimarães da Mata
Aluno de Letras com Língua Inglesa
Universidade Estadual de Feira de Santana

* O texto publicado foi apresentado com trabalho requerido pela disciplina Política e Gestão Educacional, do Curso de Licenciatura em Letras com Língua Inglesa, da Universidade Estadual de Feira de Santana.

terça-feira, 29 de julho de 2014

CRÍTICA À EDUCAÇÃO BRASILEIRA*



Conceição do Jacuípe-BA,  13 de Junho de 2014.


Excelentíssima Presidenta do Brasil Sra. Dilma Rousseff,


Sou um cidadão de 38 anos, pai de família, professor do Fundamental I, casado e no momento desempregado. Domiciliado no interior da Bahia, na cidade de Conceição do Jacuípe, venho enquanto cidadão, patriota desta Terra adorada da qual Deus lhe concedeu a honra de governar, fazer-lhe alguns questionamentos a respeito da Educação Brasileira nestes últimos tempos. Espero sinceramente que se digne em respondê-los, afinal lhe confiei meu voto na última eleição para a presidência do Brasil acreditando que uma das suas prioridades fosse a Educação e, enquanto educador, até a presente data meus anseios não foram atendidos.

Por onde será que devo começar, Excelentíssima? Pela desvalorização do professor ou pela estrutura precária da maioria das escolas públicas brasileiras, onde as fachadas escondem alunos desmotivados, professores desqualificados, um sistema de promoção automático que tem como objetivo comprometer o aprendizado dos alunos durante toda sua vida acadêmica?

Será que a Excelentíssima já parou para pensar que por conta dos baixos salários oferecidos aos professores no Brasil, poucos jovens seguirão a carreira e tão logo o educador se tornará algo em extinção? Não é possível ainda que não tenha percebido que muitos professores deixam a profissão em busca de melhores salários.

Difícil aceitar que tenhamos que passar quatro anos em um curso de graduação dentro de uma Universidade Pública, e muitas vezes o dobro disso, já que temos que abandonar alguns semestres para trabalhar a fim de manter nosso sustento; mais alguns anos em pós-graduação, mestrado, doutorado... e ainda assim não conseguimos ganhar nem um terço daquilo que alguns políticos analfabetos ganham pelo país afora. Perdoe-me se me expressei mal, Excelentíssima, sei que não é o vosso caso e não pretendo ofendê-la, apenas desabafar minhas  mágoas.

De fato, não posso negar que o Governo Federal tem desenvolvido alguns programas que visam construir uma Educação mais igualitária no país, como o acesso às universidades públicas através do ENEM, SISU ou PROUNI. No entanto, as academias não possuem ainda estrutura para sediar determinados cursos, a exemplo do curso de Língua Estrangeira que nem sequer tem um laboratório e ainda recebe os alunos pressupondo que já leem, escrevem e falam uma determinada língua e, ao invés de incluí-los, acabam excluindo-os de todo o  processo.

A Educação Básica possui distribuição de livros didáticos, mas a maioria dos alunos não os recebem; existe um programa que visa manter os alunos na escola em tempo integral, no entanto as escolas não são adaptadas para atender a esta demanda. Sei também da falta de interesse da maioria dos alunos em estudar. Parece que muitos vão à escola apenas para ver amigos, comer, merendar, namorar, bagunçar e obter diploma. Mas será, Excelentíssima, que o problema não está na forma que esta Educação é oferecida? Acho que uma das propostas  do seu governo deveria ser a de identificar as falhas na Educação brasileira a fim de reverter este quadro de forma significativa, abandonando as estatísticas quantitativas para as qualitativas em relação ao número de pessoas alfabetizadas no nosso país.

Espero que me perdoe pela ousadia, mas pense bem em meus argumentos, quero poder ver a Educação do meu país dando frutos de qualidade. Desejo ver a mim mesmo e meus colegas de trabalho satisfeitos com o que recebem e tudo isso de maneira muito urgente. Tenho certeza que ainda há tempo da Vossa Excelência  deixar gravado seu nome no quadro da Educação do Brasil.

Grato,


Sandro Guimarães da Mata
Aluno de Letras com Língua Inglesa
Universidade Estadual de Feira de Santana 

* O texto publicado foi apresentado com trabalho requerido pela disciplina Política e Gestão Educacional, do Curso de Licenciatura em Letras com Língua Inglesa, da Universidade Estadual de Feira de Santana.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

HERÓIS ESQUECIDOS


* Por Rosana Carvalho


Esse ano, com os 50 anos do Golpe, mais do que nunca pudemos observar, nos meios de comunicação ou manifestações isoladas de grupos específicos, algumas homenagens às “vítimas” da Ditadura Militar. Muros foram pichados, papéis distribuídos, mas o que pouca gente sabe é que os torturadores do período estão espalhados por aí em nomes de escolas, ruas e avenidas e, ainda que inconscientemente, são mais lembrados do que os muitos personagens injustiçados naquele momento de opressão. Contudo, não é bem do esquecimento relegado às vítimas da ditatura que me proponho a falar. Hoje, quero lembrar-vos de duas personalidades que me foram apresentadas, a pouco mais de um ano, pelo meu orientador o Prof. Dr. Claudio C. Novaes. Refiro-me às figuras de Olney São Paulo e Eurico Alves, sendo que o primeiro, coincidentemente, foi preso e torturado pela Ditadura Militar.

Olney é natural de Riachão de Jacuípe, mas foi em Feira de Santana que Olney descobriu o amor pelo cinema e se empenhou na difusão cultural entre todos os ramos da população. Eurico Alves nasceu em Feira de Santana e aí viveu a infância e ingressou nos estudos que concluiria um pouco mais tarde em Salvador. Mas, o que Olney e Eurico têm em comum? Essa pergunta é simples, o que aproxima esses dois artistas é o amor pela temática sertaneja, que movia a vida de ambos.

Olney São Paulo era apaixonado pelo cinema, a sétima arte era o combustível da vida desse cineasta. Imbuído das perspectivas cinemanovistas repercutidas na Bahia, hoje praticamente nenhum livro que trate de Cinema Novo menciona o nome de Olney São Paulo. Essa pouca aparição do cineasta é semelhante ao apagamento dos personagens marginais do sertão. Já Eurico Alves foi um dos fundadores e representantes do Modernismo baiano, movimento literário que, pela postura revolucionária e interesse pela cultura popular, chega mesmo a se aproximar do Cinema Novo. O conjunto das obras desse autor e sua vida cultural também continuam no esquecimento.

Quando falamos em Cinema Novo, lembramos principalmente dos nomes de Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Alex Viany. Vez ou outra o nome de Roberto Pires também aparece em alguma nota, afinal foi ele o produtor do primeiro longa metragem baiano, o filme Redenção, e do grande sucesso de A grande feira. Mas, e de Olney São Paulo, o diretor que produziu seu primeiro filme, Um crime na rua, utilizando uma câmera emprestada e a ajuda de alguns amigos, quem é que lembra? Quem é que lembra dos filmes Manhã Cinzenta e Grito da Terra?


Olney São Paulo e Eurico Alves são apenas dois exemplos, os outros são enumeráveis. Nos últimos 14 meses, os nomes desses dois artistas não se afastaram dos meus pensamentos. Mas e quanto a vocês, será que depois da leitura dessas breves linhas procurarão algum poema de Eurico Alves para ler ou algum filme de Olney São Paulo para assistir? De toda sorte, fica o convite. E, se tiverem interesse também, procurem pelos nomes esquecidos, deem oportunidades para essas vozes.


Rosana Carvalho é graduanda em Letras Vernáculas e bolsista de iniciação científica Probic/UEFS. Tem como orientador o prof. Claudio C. Novaes.

domingo, 6 de julho de 2014

JANELAS DE LEMBRANÇAS

Por Maria Rosane Vale Noronha Desidério


Ouço as janelas e as portas serem fechadas com cuidado. O céu parece acinzentar-se e a noite enfim começa a tragar o dia. E, eu permaneço imóvel a observar ao longe as ruínas da velha casa de taipa que o avô de minha avó havia erguido em tempos remotos. Bons tempos aqueles! Diz minha avó com saudades nos olhos sempre que rememora as velhas lembranças daquele passado, guardado nas ruínas da velha casa de taipa.

E foi ela quem nos contou uma história extraordinária sobre a grande descoberta de seu avô, o meu tataravô... É claro que nós quando temos quinze anos nas ventas raramente ouvimos com atenção velhas histórias de família, mas eu adquiri uma curiosidade particular pelas histórias de minha avó. E talvez seja por isso que não consigo despregar os olhos daquela velha tapera, pois foi lá que se iniciou a caçada de meu tataravô...

O mês foi setembro. O ano devo confessar que, se minha avó mencionou, já não me lembro. O fato é que meu tataravô avô, um cearense da gema, criado entre os juazeiros e o chão de terra seca no sertão pedregoso, teve um sonho fantástico, imaginem?! Sonhou que debaixo do chão sertanejo existia ouro. Enfiou na cabeça que precisava procurá-lo. Teve a certeza de que aquele sonho era um sinal, e que ele havia sido escolhido pelo destino para encontrar os tesouros enterrados por fazendeiros que temeram os revoltosos, uma espécie de cangaceiros que outrora saqueavam as fazendas. Diz uma velha lenda que circunda o sertão que quando um fazendeiro enterrava seu ouro, este desaparecia debaixo do chão. E, só era encontrado após sua morte. Obviamente, esses fazendeiros não tinham consciência de tal lenda. Que ironia! Guardavam para perder...

Meu tataravô deixou para trás tudo e embrenhou-se solitário à procura do ouro. Dizem que ele não contou nada sobre sua empreitada nem mesmo para minha tataravó, que ficou a ver navios com a dúzia de filhos agarrados à saia. A estratégia de manter segredo fazia parte da lenda. Se o cabra contasse para alguém o ouro fugia dele, ficava invisível aos olhos do dito cabra. Meu tataravô não ia querer uma miséria desta, não é mesmo?

Ele ficou um bom tempo hospedado em umas casas de pedras esculpidas pela própria natureza nos serrotes sertanejos e, depois de uns oito meses sem enviar notícias à esposa, ele voltou para casa em uma noite como esta de hoje. E, com os olhos apreensivos, sem dar maiores explicações ordenou que a família juntasse as tralhas e amarrasse tudo no lombo dos jumentos, pois precisavam arribar-se dali com urgência. Minha tataravó, resignada e desconcertada, obedeceu às ordens. Então escafederam-se dali, fugiram pela noite escura em busca de abrigo na vila de Cachoeirinha.

Fiquei curiosa para saber o motivo de tal fuga e minha avó me explicou o restante da velha lenda sertaneja. Dizem que se uma pessoa sonha com um lugar que tem ouro e o encontra, precisa mudar de casa rapidamente, pois do contrário sofre maldições. Na certa era a explicação.

Meu tataravô se tornou homem influente na região. Seus filhos, contudo, não carregaram toda a fama dele, e a nós coube a história de família, coube as lembranças. E uma incerteza: terá ele, de fato, vivido essa história? Ou tudo isto não passa de lenda? Lastimavelmente, em nosso bolso o ouro não chegou!
  
Hoje eu espicho os meus olhos para a tapera ao longe, tentando reconstruir a memória de minha avó, mas talvez cometa o pecado do esquecimento, deixando algum fato encoberto ou o pecado do acréscimo, tentando compensar os rastros apagados da memória.

Minha avó, que ainda nos conta boas histórias, mora, hoje, bem longe de mim, mas continua contando aos netos menores, quando estes param para ouvi-la, as histórias de nossa família tal como esta história curiosa de meu tataravô e o ouro que o sertão guardou em seu chão.

E, eu preciso confessar que a velha tapera não está e nem nunca esteve ao alcance visual de meus olhos, infelizmente, mas ao alcance da memória. Sim, minha memória, é ela que avista, ao longe da janela de minhas lembranças, a velha tapera.

E como negar sua existência ou sua inexistência? Não importa, ela existe em mim.

Em homenagem a minha querida avó Rosa, que sempre me conta boas histórias e de quem cultivo imensas saudades.



* Maria Rosane Vale Noronha Desidério é aluna do 4º semestre do curso Letras Vernáculas pela Uefs.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

PROFESSOR¹, PRECURSOR²

*Por Danilo Cerqueira


Ele sempre soube que seria um precursor...

Considerando as problemáticas do tempo e do aspecto verbal, lembra que talvez cada palavra saída à boca ou à tecla, da cabeça ou das orelhas dos livros, tenha sido um suplício para os que a liam ou, ainda, a ouviam. Entretanto, ao mesmo tempo em que “sofriam a gramática” “profundissimamente hipocondríaco(s)”, ficavam, com o tempo, mais fortes, pensavam mais rápido, concluíam mais cedo... E nem se davam conta disso, os bobos – e as bobas!

Tudo talvez fosse muito difícil.

“Lidar com palavras (e alguns números, sejam sinceros) é a luta mais vã” (Drummond), “os moinhos de vento” estão aí, nas mentes das pessoas... O professor deve fazer mesmo com que descubramos a biruta que há em nós (“a”, pelo amor de Deus!), para fazer com que encontremos a direção dos nossos caminhos ao vento.

Por isso ele é também é um precursor. Não, não como é conhecido o célebre profeta que antecedeu a Jesus Cristo, o qual, dizia de si mesmo em relação ao filho de Deus, não ser digno “de desatar a correia das suas sandálias” (Jo 1. 27). O professor professa, mas sobre e para os outros “filhos do Homem”, por assim dizer e para os que Nele acreditam.

Não tive tempo para informações detalhadas, mas suponho que João Batista e Jesus Cristo nunca tenham se encontrado até o batismo nas águas do rio Jordão. Sem nada a ver com isso especificamente, apenas pela ocasião simbólica desse encontro, e considerando essa função de professar e profetar (professorando), quando chegar o dia de ir visitar o professor da escola do futuro filho (do homem – eu), pensarei literariamente (ou espiritualmente) nessas palavras:

8 Se não foi isso, o que vocês foram ver, então? Um homem vestido com elegância? Não! Os que se vestem com elegância estão por aí, na corte dos reis.
9 Então, o que vocês foram ver? Um profeta? Sim, e viram bem mais que um profeta.
10 É dele que a Bíblia fala, quando diz: “Eis que envio meu mensageiro à frente de você; para preparar seu caminho”.
11 Eu lhes afirmo com toda certeza: entre os mortais não apareceu ninguém maior que João Batista; no entanto o menor no Reino dos Céus é maior do que ele. (Mt 11. 8-11, grifo nosso).

Acho, e até creio nisto: É claro que, numa sala de aula, não há ninguém mais importante do que o que ensina, mas também o que ensina deve sempre aprender com quem está ensinando: e ele pode ser o estudante ou o professor. Logo, quanto mais difícil o aprendizado, quanto mais problemáticas sejam as condições materiais, humanas e psicológicas do educando (professor, aluno, estudante, graduando, aprendente, cliente etc.), mais o professor se sentirá (ou deve se sentir) menor diante dele, impossibilitado e impactado com a incapacidade momentânea em ajudar o outro a aprender. Parte desse sentimento, por incrível que pareça, é necessário, mesmo quando visivelmente inexistente. É preciso o mínimo de adversidade – o imperceptível prazer em resolver uma simples questão – para que o professor incite e aperfeiçoe, no educando, a vontade de estudar. Ensinar é aprender a ensinar...

A própria condição do professor lhe dá uma questão bastante trágica e heroica na sociedade: o seu real prazer e felicidade talvez seja ver um ex-aluno numa situação de vida tal que seja, em alguns aspectos... melhor que a dele! Não se fala aqui do professor como um “mártir social” (ou, comparativamente religioso). Sua atividade, labor, trabalho e função é ensinar... E nessa profissão, como seria então lidar com o potencial, como medir – momentaneamente – o alcance de uma inteligência; de qual maneira (con)ter a real proporção de quanto e como estão evoluindo intelectualmente os alunos de uma turma?

É preferível ser, enquanto professor, como João Batista: o menor do Reino dos Céus é maior do que ele; no entanto, nenhum mortal – para quem acredita, ninguém mesmo – é maior do que ele.

Adendo: é ele quem batiza o filho do Maior no Reino dos Céus.

NOTAS
¹ Professor - 1 aquele que professa uma crença, uma religião; 2 aquele que ensina, ministra aulas (em escola, colégio, universidade, curso ou particularmente); mestre; 3 derivação - sentido figurado: indivíduo muito versado ou perito em (alguma coisa). n. adjetivo. 4 que professa; profitente. lat. professor, óris 'o que se dedica a'.
² Precursor - 1 que ou o que precede, anuncia, prenuncia, prepara ou indica a vinda ou o acontecimento de; que ou o que vai adiante, anuncia algo de novo ou se antecipa a (alguém ou algo); 2 que ou o que se manifesta ou vem antes de ou dá origem a; 3 Rubrica: bioquímica. diz-se de ou composto ou substância de que se formam outro composto ou outra substância, esp. por um processo natural. lat. praecúrsor, óris 'o que vai adiante, o que precede; explorador, batedor'.

Referências
Bíblia Novo Testamento. Tradução José Raimundo Vidigal. Aparecida. São Paulo: Editora Santuário, 1989.

HOUAISS, A. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa. V. 3.0. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.

* Danilo Cerqueira é licenciado em Letras Vernáculas, especialista e mestre em Estudos Literários, todas as qualificações pela UEFS. Também é membro do conselho editorial da Graduando.

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