quinta-feira, 23 de abril de 2015

AUTORRETRATO: UMA COMPLEXA CONSTRUÇÃO

Por Maria Rosane Vale Noronha Desidério *


Tirar uma foto parece algo relativamente simples hoje em dia. Nada mais que um clic e pronto tem-se um momento eternizado, uma face alegre, triste, distraída. Uma face qualquer para sempre guardada, ou talvez não, pois hoje é muito fácil apagar fotos, basta outro clic. Mas como apagar retratos? Será fácil ou difícil? Penso que um clic não constrói um retrato, talvez nem mesmo uma vida inteira seja suficiente para construir ou decifrar um retrato. E apaga-lo então. Como apagar retratos? Neste caso é preciso um clic de esquecimento. Aí se apaga tudo. Porque retratos e fotos são coisas distintas. Portanto, suas feituras ou apagamentos também se operam de modo diferente.

Mas não falemos de apagamentos, melhor que visualizar um apagamento é contemplar uma construção. E a construção de um retrato é mesmo algo inexplicável. Tão extraordinário. Tão despercebido e tão indizível. Principalmente se o retrato for de si mesmo. Fazer autorretrato é mesmo uma obra indizível. Tão complicado. Quase impossível. Ou mesmo absolutamente impossível.

Certa vez ouvi alguém perguntar: quem é você? Eu provavelmente conseguiria pronunciar meu nome, idade, religião entre outras informações úteis sobre minha pessoa. Falaria da família, da naturalidade, mas provavelmente essas respostas não contemplaria a pergunta. Quem é você? Passaremos a vida inteira nos perguntando quem somos nós. E ao fim dos anos descobriríamos que a pergunta permanecerá vaga, incompleta e assim será eternamente. Muitos fariam vários autorretratos de nossas almas e faces e ainda assim estariam longe de responder a pergunta: quem era ele ou ela?

Por isso, fazer autorretrato é tão complexo, estaremos sempre vendo fleches. Pequenos pontos de nós mesmos. Ainda que a pintura seja bem feita ela estará sempre incompleta, porque estamos e estaremos sempre em processo de construção. 

Eu posso dizer que me chamo Maria, que já passei dos vinte, que gosto de literatura e vivo planejando comprar livros, que oro, que gosto de ter amigos, de abraçar meus pais, de sentir saudades, de matar saudades, de ouvir o som do alto, contemplar a beleza de Deus, de ler os clássicos da literatura, os teóricos e principalmente a bíblia, que nasci no sertão de uma cidade chamada Tauá e fui registrada e vivi boa parte da infância em uma outra cidade chamada Parambu, cujo significado é cachoeirinha pequena. Posso dizer que sou cearense, que amo escrever por ócio e me esquecer nas páginas de um bom livro ou nos sonhos do futuro, que não falo muito , que ouço, que as vezes sou insegura, mas será que isso contempla o meu autorretrato? Haverá um jeito de dizer tudo? Eu saberia? Não, não saberia. Não é que não me conheça um pouco, é que fazer um autorretrato demanda uma eternidade de reflexões sobre mim, sobre nós. Mas não quero desanimar os meus caros colegas no prosseguimento de sua tarefa, porque o exercício de fazer nosso autorretrato é fundamental para pensarmos quem somos, seremos ou seríamos. Aviso-lhe que sempre sentirão que esqueceram algum detalhe ou que a tarefa é árdua, indecifrável. 

Eu, pessoa em construção, sou exatamente eu. Provavelmente não existem duas de mim como não existem duas outras cópias de ninguém, porque ainda que biologicamente nasçam no mundo dois iguais, seus retratos, suas almas jamais serão. Somos unidades únicas de nós mesmos em um mundo imenso, às vezes pequeno, às vezes assustador. E nós, unidades únicas, somos imensos, complexos, indecifráveis e nisto se encontra toda a beleza. 

E se você reparou, eu ainda não fiz meu autorretrato, atividade expressamente pedida em aula. Não fiz e ao mesmo tempo estou a fazer. A cada frase, letra, ponto, a cada dia, hora minuto, bisbilhotando-me para descobri novos detalhes a cada instante. Sou eu. Esse eu imenso de todos nós. Esse eu que a gotas se revela a mim...


* Maria Rosane Vale Noronha Desidério é aluna do 6º semestre do curso Letras Vernáculas pela UEFS.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

POR QUE O TEATRO SE DESENVOLVEU MAIS PARA O RISO DO QUE PARA A TRAGÉDIA?

Por Márcia Silva de Souza *


A palavra teatro, de origem grega, vem de théatron, uma configuração de arte em que um ator ou uma junção de atores interpretam uma história para um público em algum lugar.  O teatro surgiu na Grécia Antiga, mais precisamente, no século IV A.C. Em consequência dos festivais anuais em consagração a Dionísio, o deus da alegria e do vinho. Foi na Grécia antiga que surgiram dois gêneros teatrais, sendo eles: a comédia e a tragédia.

As peças teatrais trágicas tinham temas ligados à justiça, às leis e ao destino. E o bom exemplo é o “Rei Édipo” de Sófocles, que retrata a impotência do homem contra o seu destino. Já, o teatro cômico, tem como intuito o riso dos espectadores, pois representava de forma engraçada o cotidiano da vida em formato de sátiras, porém vale lembrar que o riso não é um fator essencial da comédia, mas a reordenação (renovação).

A origem do teatro no Brasil teve grande influência dos padres Jesuítas, que ao chegarem ao país, trouxeram consigo influências como a literatura e o teatro, sendo estes os principais instrumentos pedagógicos para a educação religiosa. Este período corresponde ao século XVI, quando o Brasil passou a ser colônia de Portugal. Os Jesuítas notaram que a utilização de métodos como o teatro, somado com a cultura indígena, eram eficazes como instrumento de civilização, principalmente para a catequese dos índios.

O teatro realmente nacional só veio se estabelecer em meados do século XIX, quando o Romantismo teve seu início. Martins Pena foi um dos responsáveis por isso, através de suas comédias de costumes, o teatro passou a refletir as cenas e as problemáticas da realidade brasileira. Apesar do Brasil já ter conquistado sua independência, ainda buscava sua identidade nacional, e buscava essa identidade através de temas universais que falassem da dor, dos conflitos, etc.

O Brasil se desenvolveu mais no teatro cômico, pois enquanto a tragédia fala dos deuses e dos feitos heroicos, a comédia fala do homem, dos mortais e de sua fragilidade, daí sua identificação com a arte popular. Por mais grosseira, por mais grotesca que pareça, por mais que dê a impressão que ela esteja te atacando, ela diz 'eu falo a mesma linguagem que você, eu sou humano'. Ou seja, fala do homem comum. Através dela, é possível transmitir determinados princípios de maneira mais direta e acessível, pois o cômico vem falar do que já existe em determinado tempo-espaço.

Por mais franco que o suponham, o riso esconde uma segunda intenção de entendimento real ou imaginário. Assim, ao rir do outro, sempre se ri um pouco de si mesmo; esta é uma maneira de se conhecer melhor e também de sobreviver às dificuldades e obstáculos. Sendo assim, a tragédia traz questões, perguntas para o espectador, ou seja, propõe que as pessoas pensem, reflitam.


* Márcia Silva de Souza é graduanda do 6º semestre de Letras Vernáculas da UEFS.

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