domingo, 7 de junho de 2015

A REPRESENTAÇÃO DO ÍNDIO EM DIFERENTES PERÍODOS LITERÁRIOS

Por Pâmella Araújo da Cintra Silva *



Desde a chegada dos portugueses às terras brasileiras, o índio, na literatura, ora é consagrado, ora marginalizado. Entretanto, foi considerado o herói nacionalista brasileiro. Muitas são as representações de que temos da figura do índio ao longo do tempo e dos diferentes períodos literários. O presente texto busca tratar da temática das representações do índio em três fases distintas mostrando como esse símbolo da nacionalidade brasileira foi e ainda tem gerado diversos mitos e desmistificações a respeito da história do Brasil.

Em O Guarani, José de Alencar coloca a figura do índio como herói romântico. Peri representa o herói nacional brasileiro, imbuído de características que traçam o perfil do povo brasileiro, tais como: a cordialidade, ou seja, seu caráter pacífico; e a sua ligação com a natureza. Assim como os escritores da sua época, José de Alencar traçou uma identidade nacional brasileira, a partir da figura do índio Peri como herói, idealizado por ele, de acordo com o modelo eurocentrista de homem.

Dessa forma, a pretensão objetivada durante o Romantismo, em sua primeira fase, consistiu na procura de um herói nacional na tentativa de exaltar elementos e características típicas do brasileiro, como forma de afirmarem a identidade e o nacionalismo do país em “nascimento” em face a Portugal, país este de tradição literária e de um passado histórico. Em suma, muitos escritores românticos debruçaram-se na tentativa de construir o passado histórico e um herói nacional legítimo. Alencar, assim como os demais, elege o índio como símbolo da identidade nacional. Daí a presença do índio Peri, por exemplo, não como o selvagem, mas como um ser de natureza hostil e de valores nobres, caracterizado na obra de José de Alencar.

O romance de Alencar apresenta a ligação do nativo americano e do colonizador português. Peri retrata o aborígene e, D. Antônio de Mariz, o português. Eles representam nações diferentes que mais tarde não tardou a formar uma nova nação, a brasileira. O índio Peri é caracterizado pela natureza, pelo ambiente da mata virgem, típica do Brasil. Vive em harmonia com a natureza, detentor da coragem, liberdade e selvajaria. Enquanto que o fidalgo europeu é caracterizado pelo ambiente da civilização moderna, ou seja, seu lugar de origem, a Europa. Portanto, um ser civilizado e educado. 

É possível perceber na narrativa de Alencar que essa distinção de “mundos” das personagens não resultou nenhum conflito. Entretanto, é possível reconhecer que o choque entre o aborígene e o colonizador, na obra de Alencar, mostra a submissão do índio à “superioridade” do colonizador já no primeiro contato com ele. Em resumo, mesmo o índio sendo o representante das florestas, da terra virgem, após enfrentar o seu colonizador se submeteu a ele. Tal passagem da narrativa nos leva a crer que a intenção do autor foi a de mostrar a união entre o índio e o português como se tivesse ocorrido de forma pacífica, tal como no relato da carta de Caminha. Embora saibamos que historicamente tal fato não se deu assim.

Na obra de Antônio Torres, intitulada Meu Querido Canibal, o autor por meio da figura do índio chamado Cunhambebe tenta desconstruir esse imaginário do índio construído pelo discurso historiográfico. Ele, podemos assim dizer, reconta a história do Brasil fazendo uma revisão e reavaliação dos processos que consolidaram uma possível identidade nacional, rasurando a imagem estereotipada do índio, que constitui o discurso sobre a identidade do Brasil e de seu povo.

Torres, ao retratar o índio como herói não se utilizou da idealização romântica e da visão do OUTRO, ou seja, dos colonizadores, como Pero Vaz de Caminha que em sua carta afirma que o contato dos portugueses com o índio se deu de forma pacífica, assim como Alencar, em O Guarani. Muito pelo contrário, ele caracterizou o indígena como um bravo guerreiro figurando como símbolo de resistência à colonização, acabando com essa ideia de que os índios aceitaram pacificamente a dominação dos portugueses e de que não houve combate, o que resultou na dizimação de uma parcela numerosa de indígenas. Assim, na obra de Torres, temos o perfil guerreiro de Cunhambebe, contrário ao índio pacífico que Pero Vaz de Caminha descreve em sua Carta para o rei de Portugal.

De acordo com Marilena Chauí (2000), em Brasil: o mito fundador e a sociedade autoritária, observa-se uma repetição das narrativas de origem, embora elaboradas na época da conquista de Portugal sobre o Brasil, durante o movimento literário estético do Romantismo perdurou a escrita de textos que difundiam e aceitavam os fatos narrados da época na carta de Caminha. 

Antônio Torres faz então uma releitura histórica rompendo com as representações indígenas iniciadas lá no tempo do processo de colonização, agora percebemos que em sua obra não há mais a presença do índio como herói romântico, de posição neutra, primitivo e selvagem tal como no indianismo de Alencar. Por meio do imaginário contemporâneo, Torres, traça um novo perfil para o índio, que passa a ser visto como o anti-heroi moderno e não mais como um ser de natureza neutra. 

Com isso, o índio anti–heroi não deixa de ser humano, ao contrário, ele é mais humano, ousado e vitorioso. Torres defende a prática do canibalismo como sendo uma prática de ritual antropofágico imbuída de significados para a cultura indígena. Desse modo, Cunhambebe reverte a imagem de índio como o “bom selvagem” de Roussear, e o ritual antropofágico antes mal visto e negativizado pelos europeus passa a ter um outro olhar, agora, talvez, mais compreensível e com sentido. “A preocupação do século XVIII em relação às mentiras e à falsidade passa a ser uma preocupação pós-moderna em relação à multiplicidade e à dispersão da(s) verdade(s), verdade(s) referente(s) à especificidade do local e da cultura.” (HUTCHEON, 1951, p. 140). Com base na afirmação da autora, o pós-moderno não se prende a historiografia. Foi o que fez Torres ao recontar a história das expedições não considerando o discurso do outro, do português. Portanto, desmistificou a ideia da carta de Caminha de ser o índio um ser ingênuo e facilmente domesticável.

Segundo Zilá Bernd em Literatura e identidade nacional, no contexto de releitura da história brasileira, “Só bem recentemente começa[-se] a operar a síntese — ainda inacabada — deste jogo dialético, associando o resgate dos mitos à sua constante desmistificação [...]” (BERND, 2003, p. 20). Tal afirmação significa dizer que, na pós-modernidade, há o deslocamento das imagens que fixam a ideia de nação e de povo, ao passo que revela ideologias presentes na narrativa da identidade nacional. O autor contemporâneo consegue enxergar que de fato, mesmo os textos históricos, não são tão reais e verídicos, assim, a depender das reais intenções do escritor, muita coisa pode ser apagada.



* Pâmella Araújo da Cintra Silva é graduanda em Letras Vernáculas do 6º semestre da UEFS.

2 comentários:

  1. Parabéns, Pâm! A reflexão sobre povo indígena deveria ser sempre bem-vinda. Afinal,mesmo depois de um "pacífico" processo de colonização, o índio resistiu e permanece.

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  2. Pâmela, lindo texto. Parabéns! Discutir a representação do índio em nossa história e em nossa literatura é sempre muito importante. É preciso refletirmos sempre sobre a visão construída historicamente da figura do índio. Visão que quase sempre o torna invisível na história nacional, mas sabemos que os livros de história "esqueceram" muitos detalhes importantes. E como foi maravilhoso trazer para o texto o olhar que Antônio Torres traz da figura do índio. Um índio que resistiu e que ainda resiste a dominação.

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