quinta-feira, 27 de julho de 2017

COISAS DE MIM... PARTE 2

Por Edilene Barboza*


... Embora eu tivesse encontrado o chamado “Meu Amor Maior” e ter saído de vez daquele lugar, algo em mim continuara aflorado a ele. Passei dias, semanas, ainda sentindo aquele bairro em minhas entranhas. Flashes vinham à tona nos circuitos cerebrais de minhas memórias. Mas NADA! NADA conseguia extrair de dentro delas... Repeti várias e várias vezes que NUNCA mais iria voltar àquele lugar. Não, nunca mais, mesmo morrendo de vontade de saber o que eu tinha esquecido lá, deixado pra trás, sei lá... Não iria!Mas, algo estava mais do que vivo dentro de mim, e agora?... Tentando me sincronizar à nova vida, nova casa, novo bairro, sentir novos ares, conhecer novas pessoas, lugares diferentes, meu novo mundo! Ainda assim, Ele me perseguia, como vulto, durante todo o dia!...Tranquila demais para que algo me tirasse a paz!... Mas que Paz? Mental? Espiritual? Emocional? Taí! Era isso! Ôh, não! De novo NÃÃÃOOO!!! Nesse instante me deparei com o meu coração batendo em ritmo acelerado!!! É isso! Ainda deixei emoções fortes por lá! E, já deitada em minha cama, pronta para dormir... Meu Whatsapp chama!... Era um número desconhecido, sem foto de perfil, e logo foi taxativo dizendo: 

- Por favor, não me bloqueie novamente, preciso de você!... 

Respondi:

- HÃÃÃNN??? Como assim? Quem é você? Se não falar vou te bloquear! MUDO!... Não vai responder??? Um... Dois...

- Não, espere! Respondeu Ele. Deixe-me reapresentar a você. Em um final de tarde, eu estava aguardando o ônibus para ir à minha casa e, quando ele chegou, entrei pela porta do meio e lá estava você, que olhou para mim e logo de cara criticou a camisa que eu estava vestindo. A imagem na camisa era de um Touro, e você me contou sobre a lenda taurina completa, ainda me perguntou se eu torcia pelo Fluminense de Feira! Rsrsrs... Eu só olhava você, seu jeito de falar, seus gestos, sua boca, me deu vontade de te beijar ali mesmo, com toda aquela gente olhando! Rsrsrs...

- Não me recordo disso! Não vai falar quem é? Vou bloquear! Um... Dois... Disse-lhe.

- Espere! Espere! Respondeu. Teve outro acontecimento que você vai lembrar!... 

- Então tá! Diz!... Falei.

Continuou: 

- Te convidei para irmos assistir o pôr do Sol na UEFS, marcamos, o dia estava perfeito, e fui. Mas você me deu um bolo! ...

- Ah! PARA! Já sei quem você é! O cara chato, que quase me beijou dentro do “Buzu”, aliás, ainda me deu um beijo no meu ombro, quando o “motor” deu uma freada e quase caí em cima de você! Quanto a ver o pôr do sol na UEFS, eu estava lá no dia marcado, mas não pude sair da sala. Rsrsrs...Hum... Lembrei! Sim, e daí?... 

- E daí que ando te procurando nas minhas viagens de ônibus daqui do bairro, pra ver se te encontro novamente, pois você me bloqueou e deixou coisas no ar!... E... Estou aqui pertinho de você, posso te ver agora?... Perguntou ele.

- Desculpa, mas eu não moro mais aí! Nesse bairro!... Respondi.

E para a minha surpresa, o universo mais uma vez quis falar comigo através desse lugar. Pois o beijo Dele subiu mais um pouquinho e desceu! Rsrsrsrs!!!

Feliz por ter fechado este ciclo, tendo em mente que a sincronização entre minha alma e a Dele nos unirá para sempre!


* Edilene Barboza é graduanda em Letras com Francês da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

quarta-feira, 7 de junho de 2017

DISCURSO DE ORADORA

Por Cidalia Oliveira Barbosa Pinto*


Muito boa noite a todxs. Primeiramente, FORA TEMER! Dando prosseguimento, gostaria inicialmente de cumprimentar, com muita gratidão, cada familiar presente fisicamente e em espírito que está aqui esta noite, os quais estão sentindo nesse momento no coração o quanto foi preciso para formar seus filhos e estarem aqui todxs brilhando neste momento maravilhoso. Parabéns pra vocês! Cumprimento também o Magnífico senhor reitor desta casa, Evandro do Nascimento Silva, e a Magnífica – literalmente – vice-reitora, Norma Lucia Fernandes de Almeida, juntamente com essa mesa extraordinária que escolhemos com tanto amor. Agradeço também aos meus colegas pela missão de representar a turma com as palavras que proferirei, palavras estas que fui buscar dentro da alma.

Senti a necessidade de fazer uma homenagem ao nosso poeta recentemente falecido do corpo físico, Ferreira Gullar, com um poema chamado “Um instante”, que dialoga profundamente com o momento de hoje:

Aqui me tenho
Como não me conheço
           nem me quis

sem começo
nem fim
           aqui me tenho
           sem mim

nada lembro
nem sei

luz presente
sou apenas um bicho
           transparente

Que sejamos transparentes e inacabados no exercício do ensino por todo o tempo efetivo da nossa profissão! Pois então: compreendo o discurso de orador como um discurso essencialmente político. Confesso que não gostava de política, mas, pela educação, foi preciso gostar. Como falar em educação sem falar de política? O contexto político brasileiro atual abarca: a PEC do fim do mundo, da educação e da saúde, escola sem partido, reforma do ensino médio, um país golpeado, de feição conservadora, machista, patriarcal, homofóbica, doente. Uma junção de doenças que têm matado diversos brasileirxs diariamente. Fisicamente e interiormente. E hoje, o Brasil tem a nós. Oficialmente professorxs. E eu vos pergunto: e então? Nossa missão é uma missão de resistência. De trabalhar com o caos. De ter a consciência de que não somos máquinas conteudistas. Que acima de tudo, somos humanos tendo que ajudar outros humanos. Sim, ser professor é um trabalho de humanização, desconstrução, resgate de VIDAS da escuridão da ignorância. Ignorância esta que mata, oprime e exclui.

Percebam: as escolas estão parecidas com os presídios, e não é à toa que têm aprisionado mentes, seres capazes e pensantes, futuros críticos e colaboradores para o mundo. É preciso ter voz. Alta. Forte. Muito sangue foi derramado no decorrer da história para, sobretudo as mulheres, e especialmente mulheres negras serem professoras, bem como todos os grupos sociais que são marginalizados. Os cursos de licenciatura, em sua grande maioria, acolhem pessoas oriundas de classes sociais mais baixas, que são as primeiras de suas famílias a ter acesso ao ensino superior e à oportunidade de desenvolver um trabalho intelectual. Tal fato contrasta com a desvalorização da profissão e o sucateamento das escolas e a falta de investimento nos cursos de licenciatura, que os torna uma espécie de gueto, reduto dos pobres dentro da universidade, tão marcada por divisões de classe entre os cursos de rico e os cursos de pobre. As licenciaturas precisam parar de mascarar essa situação e, enquanto o ensino público não melhora, ajudar os alunxs e não empurrar para um novo semestre sem que esteja pronto para isso. Aguardemos ansiosamente a reforma do currículo e do ensino dos cursos de Letras, visto que é o curso que serve como base para todos os outros cursos e para a visão de mundo. As letras tecem o mundo, as letras são a política da vida, como diz Roland Barthes em seu livro Aula: “A linguagem é uma legislação”.

A sala de aula é um espaço democrático que tem sido sufocado porque eles reconhecem o poder de uma nação crítica. E eu vos pergunto novamente: e então? E nós? Profissionais essencialmente da leitura e da escrita, ferramentas de conhecimento do mundo, de reconhecimento da identidade. E como diz Rubem Alves: “Escrever e ler são formas de fazer amor”, e ainda complementa: “‎As palavras só têm sentido se nos ajudam a ver o mundo melhor. Aprendemos palavras para melhorar os olhos.” Temos duas armas poderosas nas mãos: a Linguística, ciência da língua, e a nossa língua mostra quem somos, e a outra, a magnífica Literatura, operadora da alma, a arte que mostra o que somos.

Sigamos juntxs pela educação, por um mundo melhor, pelos seres humanos, pela vida. É necessário educar as pessoas, e escolhemos isso. Arquemos com este maravilhoso desafio. Trabalho de formiguinha, profundamente efetivo. E quando alguém nos questionar sobre sonhos, ilusões e dizer que é loucura querer mudar o mundo,  que sorríamos. Essas pessoas são as que mais precisam de ajuda, e o mundo – vasto mundo – é o nosso espaço, é onde estamos, e se cada umx de nós transformarmos o lugar em que atuamos, já é muito, já é tudo.

Sendo assim, peço a ajuda dxs formandxs para repetir comigo a frase de uma das músicas mais marcantes do mestre Criolo:

“AS PESSOAS NÃO SÃO MÁS, ELAS SÓ ESTÃO PERDIDAS, AINDA HÁ TEMPO”

Que sejamos amor, ensinemos antes de tudo amor, porque AMAMOS A EDUCAÇÃO!

AGRADEÇO!



* Cidalia Oliveira Barbosa Pinto é graduada em Letras Vernáculas (UEFS) e mestranda em Estudos Literários (UEFS).

sexta-feira, 2 de junho de 2017

PERCEPÇÕES (TEXTO-POEMA)

Por Mariana Barbosa*


São admiráveis àqueles que vibram, sorriem ou apenas vivem!
Em contrapartida, há aqueles, que ao longo da caminhada,
esquecem das alegrias com os seus;
não percebem o olhar fraterno;
quiçá sabem recordar ou sequer viver.

E talvez jamais descubram o sentido da palavra saudade;
Do encantamento de um toque, do cuidado,
da presteza, dos sarcasmos, das bobagens...
Das buscas...
Das tentativas, certas vezes, frustradas.
Do desejo, ou até da falta dele.

Da angústia, do amar por amar...
Do querer apenas por saber-se desejado.
Dos momentos...
Eles que parecem existir apenas para aquele instante.
Das palavras não ditas...
E do silêncio capaz de tudo nos revelar.

Uns pobres diabos!
Usam o tempo ou a tecnologia como desculpa.
Seria fuga?!
Preferem fixar o olhar na TV e sorrir.
Disse sorrir?!
Isto, apenas.
Ironicamente gargalhar com a vida alheia.

E nessa ausência de reflexão...
Não percebem aquela biblioteca:
repleta de histórias e possibilidades.
Pobres!
Não sabem eles quanto poderiam ter vivido!

Falei de saudade, lembra?!
Quando esta vier...
Serão arrebatadores: a solidão, a angústia e o arrependimento.
Tudo isto dito, ainda assim, alguns teimarão em enxergar apenas o jardim ao lado.
Sem valorizar o simplório
mas, encantador pé de Esperança que há dentro da sua própria casa.


* Mariana Barbosa é graduada, especialista e mestre em Letras pela UEFS, Universidade Estadual de Feira de Santana. É professora e integra a equipe da revista Graduando: entre o ser e o saber.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

DISCURSO DE FORMATURA - Letras Estrangeiras de 2011.1 (UEFS)

Por Jaqueline Andrade


“O futuro não é um presente, é uma conquista.” Quão oportuna essa frase nos é hoje. Quantas vezes este momento foi sonhado e idealizado por mim, por vocês, pelos nossos pais? Foi em busca da concretização desse sonho que estivemos aqui, nesta universidade, nestes últimos quatro, cinco, e, para alguns, oito anos. E nada mais justo do que atribuir a este momento o cognome conquista, já que a trajetória percorrida por cada formando — para que aqui estivesse hoje — foi cheia de pedras, de todos os tamanhos e tipos: disciplinas frustrantes; professores que exigiram muito pouco; as nossas próprias dificuldades enquanto alunos; as nossas imperfeições enquanto humanos e os imprevistos da vida. Alguns lidaram com a perda de amigos e entes queridos durante o curso, outros viram a família aumentar com a chegada de um bebê, e ainda houve quem tivesse que superar a falta de apoio dos que mais deveriam ser uma torre forte.

Nestas turmas de Letras, tivemos quem viesse de longe: de lá das bandas do Chile; houve também aqueles que viajavam diariamente para chegar à universidade, vindos de Santo Estevão. “Mas será que valeu a pena?”, alguns questionarão, e eu, como porta-voz da turma, direi prontamente: “faríamos tudo mais uma vez, se preciso fosse”. E por falar em questionamentos, houve um que foi dirigido a cada um de nós, estudantes das Letras, representado pela seguinte pergunta: “mas você vai ser professor, mesmo?!”. Como era chato ouvir isso, no entanto, este tipo de indagação nos fez pensar se deveríamos seguir a profissão de professor. A reflexão feita nos revelou o seguinte: todos necessitam de professores, todos querem e precisam ser competentes linguisticamente; todos almejam aprender uma segunda língua, seja ela o inglês, o francês ou o espanhol. Mas poucos reconhecem os profissionais que zelam por essa aprendizagem. Saber disso nos desanimou? Graças a Deus, não. Nosso compromisso maior deve ser com a educação brasileira: com os nossos filhos, com os seus filhos e com tantas gerações que virão. Ao saber da escolha pela licenciatura em letras, muitos simplesmente tentaram nos fazer mudar de rumo. Ainda bem que não os escutamos, senão este momento teria sido riscado da vida de alguns de nós ou de todos.

Fernando Pessoa, em um dos seus heterônimos, escreveu o seguinte:
Eu tenho uma espécie de dever
de dever de sonhar,
de sonhar sempre,
pois, sendo mais do que um espectador de mim mesmo
eu tenho que ter o melhor espetáculo que posso.
E assim me construo a ouro e sedas,
em salas supostas,
invento palcos, cenário para viver o meu sonho
entre luzes brandas e músicas invisíveis.

Que cada um de nós nunca se esqueça de seu dever de sonhar, de sonhar sempre com uma educação de qualidade. Quem já está em sala de aula ou já esteve, sabe que há alguns fatores que, à primeira vista, parecem nos impossibilitar de dar o melhor espetáculo que podemos, mas só parecem, porque nos reconstruímos “a ouro e sedas, inventamos palcos”. Não desistimos, pois ouvimos e vemos as “músicas invisíveis” que vêm por meio do olhar grato do aluno, da palavra de agradecimento e da certeza de seu aprendizado.

Assim, da próxima vez que escutarmos: “mas você é professor?”, cada um poderá dizer, sem titubear: “sim, sou. Eu aceitei o desafio.” Por isso, meus queridos colegas, parabenizo-os por terem aceitado esse desafio: congratulations for you, mes compliments à nous e felicitaciones a nosotros.

Muito obrigada a todos!

sexta-feira, 7 de abril de 2017

PRAÇA REVISITADA

Por Rammon Freitas*


9h10min marcava o relógio do celular, fizera dez minutos que Diego esperava por Fernando. Ele supostamente estava a caminho, ele não costumava se atrasar. Diego estava perdido em seus pensamentos e em suas recém-nascidas certezas, havia algum tempo que os dois se conheciam e ali na Praça do Lambe-lambe, também conhecida como a Praça Bernardino Bahia, ele se perdia nas suas observações de quem passava. Diego adorava praças por causa da diversidade, da liberdade e do aconchego que em muitas delas residiam. Ele já havia esperado outras pessoas ali, marcado outros encontros ali e também assistido às pessoas que passavam por ali. Essas ações se repetiram diversas vezes. Aquele era o ambiente de trabalho de várias pessoas, cabines de fotos 3x4 rodeavam as bordas da praça, mulheres, crianças, senhoras e senhores, todos pareciam estar apenas de passagem, uns aparentavam ter objetivos, horários a cumprir, outros pareciam estar apenas passeando. Um rapaz abraçava o outro em direção oposta à que Diego se localizava, ele notou como os seus corpos conversavam nesse curto espaço de tempo em que os dois se cumprimentavam, pareciam ser amigos, até o microssegundo que suas mãos se encontravam e se apertavam de leve no instante em que seus corpos se separavam.

Esses amigos seguiram adiante como todas as pessoas que vêm e vão à praça. Diego esperava e pensava que Fernando poderia ter dormido demais, talvez estivesse preso no trânsito, talvez tivesse esquecido o compromisso, mas algo o confortou ao mesmo tempo em que conjecturava sobre onde estaria Fernando, e isso era a certeza de que ele estava em um lugar muito melhor agora, psicologicamente falando. Seus sentimentos estavam claros, suas crenças estavam renovadas, e uma esperança tão grande como a imensidão da aurora o preenchia. Agora Diego viajava em pensamentos que se iniciaram a partir da observação de uma criança brincando com outra, ele nunca entendera o porquê as crianças maiores mudam a voz quando falam com crianças menores que elas, às vezes da mesma forma que os adultos falam com elas, infantilizando a voz, balbuciando coisas sem sentindo. E cada vez mais claro ficava o fato de que ele cria que não nos comunicamos apenas através de uma língua.

No fundo da praça uma voz bradava, era um pastor que começava a pregação em plena praça às 9h20min agora. Diego se lembrara de sua relação com uma colega de trabalho que era evangélica e afirmava que ele tinha a pomba-gira no corpo. “Qual o malefício de ter a pomba-gira no corpo?”, ele a perguntou um dia. “O malefício é que ela te controla e faz coisas que não é de sua natureza como homem fazer,” ela respondera determinadamente. Diego sempre achou toda essa “maluquice,” como ele costumeiramente denominava esses comportamentos, uma completa perda de tempo. “Deixe-me ser quem eu sou!”, ele exclamara certa vez. Essa colega de trabalho conseguiu tirá-lo do sério quando ela o convidou para ir à igreja e se livrar do demônio que nele habitava, Diego apenas não suportava mais e exigiu que ela não o dirigisse mais a palavra, a não ser que fosse algo restritamente profissional.

9h25min marcava o celular e Fernando nem sinal de vida. Diego começou a acreditar que Fernando se esquecera, mas o que ele podia fazer? Diego automaticamente sabia que teria que comprar fones de ouvido novos, depois ele iria à livraria e por fim ele iria voltar para casa. Nesse exato momento passava um casal heterossexual na praça, o rapaz era negro, forte, musculoso, com um caminhado solto. A moça era negra, usava longas tranças no cabelo e um minishort que valorizava seu corpo, se pendia sobre ele segurando sua mão. Eles andavam destemidos, como o casal mais feliz do planeta. Isso fez Diego pensar em como sua realidade não era a mesma, andar segurando na mão de quem ele queria segurar não era até então uma coisa vista como normal ou ética e descente por algumas pessoas. Ele apenas desejava muitíssimo que os mesmos afetos testemunhados todos os dias por casais heterossexuais também fossem disponíveis para ele, sem implicar em receber um olhar de reprovação por um estranho na rua. Ele pensava em como isso tudo era injusto, em como a tradicional família brasileira o deixava frustrado às vezes.

Dez minutos se passaram em meio a esses pensamentos e Diego se perdera em vários devaneios, o dia começava a esquentar no sol de fevereiro, Feira de Santana estava incomumente quente, mas uma brisa pairava no ar por causa das gigantescas árvores que por ali sombreavam partes da praça, o fluxo de pessoas ficava mais intenso, a feirinha que funcionava ao lado da praça começava a ficar mais barulhenta, e os pombos que por ali catavam migalhas faziam grande estardalhaço quando voavam em grupo. Diego começou a se agoniar, ele decidira esperar até as dez em ponto. Com toda a sua falta de paciência em esperar ele se deu conta que Fernando era a única pessoa que ele esperava sem reclamar, e perdoava o atraso instantaneamente, assim que os seus olhos encontrassem os olhos dele. Ele resolveu que teria tempo hábil para ir às barracas do camelô comprar os fones de ouvido, afinal ele não achara os fones originais na internet, tampouco nas lojas especializadas da cidade. Assim ele o fez, comprou os fones na barraca mais próxima dali, mantendo sempre os olhos na praça caso Fernando aparecesse. Ele voltou para o mesmo lugar onde estava sentando, de repente ele avistara um rapaz que parecia familiar, era um estudante da Universidade Estadual de Feira de Santana, onde Diego também estudava. Era estranho ver rostos familiares em ambientes diferentes, esse rapaz era só um conhecido, desses que vemos quase todos os dias, pois frequentamos o mesmo espaço, porém eles não eram amigos, Diego nem sabia o seu nome.

Faltavam cinco minutos para as dez, Diego estava se preparando para deixar uma de suas praças favoritas de Feira de Santana, a livraria o custaria uma boa caminhada, o calor também já o incomodava muito, estava fatigado por estar ali. Depois de traçar o roteiro mentalmente do caminho mais curto para a livraria ele se levantou, olhou mais uma vez para toda a praça, pelo menos para os lugares da praça que sua vista alcançava, quando de repente pensava que fazia um tempo que ele havia visitado a praça pela última vez. Observar pessoas era um de seus passatempos favoritos, rodoviárias e praças eram seus lugares de maior preferência para tal ação, ele adorava olhar para as pessoas e tentar imaginar a história de vida e a personalidade daquela ou daquele ser. Ele olhara pela última vez para a feirinha que fazia companhia à praça, para a avenida logo à frente que nesse horário da manhã já estava bastante agitada, e fez movimento para sair dali decidido em seguir em frente com o que havia planejado para o seu dia, quando uma voz exclamou, “Diego!”


* Rammon Freitas é Graduando em Letras com Inglês pela UEFS, atualmente sexto semestre.

terça-feira, 4 de abril de 2017

GRADUANDO ALCANÇA 100.000 ACESSOS ! ! !




Amigos da Graduando,

É com muita satisfação que anunciamos a chegada do blog aos 100.000 acessos!

Essa é uma conquista construída e compartilhada com todas as pessoas que acessam e prestigiam o nosso trabalho.


Acesse o site ou o facebook para saber mais sobre nosso periódico

Muito, muito obrigada!
Equipe Graduando

sexta-feira, 17 de março de 2017

CATARSE

Por Rejane Aquino*


No olhar, o medo
Na pele, os guetos
Na postura, as indagações
Acaso ser mulher é tão simples?
um verso desconexo?

Complexo, intangível,
incalculável medo.
Medo do tudo, medo do nada,
medo, apenas porque somos:
definições através de curvas,
bocas que todos pedem silêncio,
corpo alimento,
fetiche escroto
de machos desvairados.
Não seria em vão tamanho tormento.
Seria?

Há maremotos nas emoções, intensidades imperfeitas
e eu sigo
cantando meus medos
de ser aquilo
que já sou,
apenas por ser
       [mulher].


* Rejane Aquino é formada em Letras, professora e poeta.

sábado, 11 de março de 2017

COISAS DE MIM...

Por Edilene Barboza*


Sabe... Acabei de descobrir que... Faz dez anos que eu moro em um bairro onde vivi uma história de amor deslumbrante com o meu marido!... Sair! Voltei! Sair! Voltei! Sair! Voltei! Foram muitas vezes que tentei ir embora deste lugar... Mas ainda não era a hora exata!... Então resolvi ficar. Mesmo o amaldiçoando, ele me aceitava de volta!... Alguma coisa ele queria de mim... Ou me mostrar... Me revelar... Sei lá!... Então resolvi ficar... Dar mais um tempinho por aqui... E fiquei... Voltei... Me separei!... Me divorciei!... E fiquei! Logo reencontrei um amigo... E fizemos uma louca viagem juntos... Aqui mesmo! Meu Deus! Que viagem!... Porém, sentia que ainda havia algo para acontecer, pois desde criança, tive a intuição de que moraria neste bairro... Foi aí que algo muito intenso aconteceu! Era isso! Será? Meu Pai! Não! De novo não!... Deve ter sido para isso que, depois de ter passado por experiências um tanto fantásticas, sofrido um bocado, aprendido a ser forte, envelhecido, finalmente ele resolveu aparecer... E, em uma bela tarde, morando sozinha, voltando para casa e bastante cansada... Na esquina da rua, Ele! Ele resolve aparecer! E me revelar o que esse lugar tinha guardado de melhor para mim!... O Meu Amor Maior! Agora sim! Posso ir embora daqui...


*Edilene Barboza é graduanda em Letras com Francês da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

quinta-feira, 2 de março de 2017

SENTIR E PENSAR EM FERNANDO PESSOA

Por Maria Rosane Vale Noronha Desidério*


Fernando Pessoa é um dos poetas mais extraordinários da literatura universal. Sua poesia se fragmenta em várias vozes distintas, vários “eus” e, por isso, torna-se múltiplo e singular ao mesmo tempo. A criação dos seus poetas heterônimos, expressa o desejo de Fernando Pessoa em trazer a lume essas múltiplas vozes que existem em sua alma de poeta.

No âmago da poética de Fernando Pessoa e nele mesmo há o encontro de um eu-lírico imerso entre o tudo e o nada. Este, que ao se descobrir no mundo sofre a dor de pensar, de se perceber com os olhos da razão. Por isso, deseja ser como os gatos que permanecem pela rua desprendidos dos conflitos da humanidade. Conflitos que só atingem o homem que pensa e reflete acerca das questões a sua volta. Pessoa assim revela um eu-lírico que não consegue se desprender desse universo das ideias, das reflexões tão danosas ao conforto da alma humana.

O desejo do poeta em viver sem essas amarras causadas pela racionalização e problematização dos conflitos humanos aparece em Ricardo Reis, que nos convida a viver sem nos prendermos as dores do mundo e em Caeiro, que nos exorta a não racionalizarmos o que contemplamos. Porém, Fernando Pessoa: ele mesmo não consegue fugir do mundo dos conflitos racionais, nem tão pouco da dor de pensar e refletir o mundo que o rodeia. Quem dera ser ele como a ceifeira que trabalha involuntariamente e feliz em seu oficio! Mas, o eu-lírico que pensa e reflete sobre tudo a sua volta jamais poderá viver alheio e em paz como a ceifeira e os gatos do mundo. Eis a dor de pensar. A dor de nunca estar em paz e pleno.

Alberto Caeiro, considerado por Pessoa como o mestre dos Heterônimos, tinha como defesa em sua poesia a ideia de que não se devia pensar sobre nada, olhar o objeto e apenas ver o objeto, sem a necessidade de explicá-lo pelos olhos da filosofia, sem nenhuma metafísica. O mundo é apenas o mundo, as flores, as árvores, o espelho são apenas o que são e nada mais. Perceba que o poeta Caeiro afasta de si a necessidade e, porque não dizer, a obrigação de refletir, de pensar sobre o mundo.

No poema “Há metafísica bastante em não pensar em nada”, o eu-lírico defende essa percepção do mundo de que as coisas são o que são e não há a necessidade de explicá-la.

Vejamos alguns versos que confirmam essas afirmações:

O que penso eu do mundo? 
Sei lá o que penso do mundo! 
Se eu adoecesse pensaria nisso. 

Essa é a primeira estrofe do poema em análise e neste primeiro encontro do leitor com o eu-lírico, este último já lhe deixa transparecer sua visão do mundo. Para que pensar? Do que me aproveitaria pensar? O eu-lírico não está interessado em refletir sobre o mundo, apenas vive nele e isso lhe basta.

Nos três versos da segunda estrofe afirma:

De todas as filosofias e de todos os poetas 
A luz do sol não sabe o que faz 
E por isso não erra e é comum e boa. 

Eis o que o eu-lírico afirma: que a luz do sol é boa justamente porque não pensa e não racionaliza nada. Em um verso acima do primeiro aqui transcrito, o eu-lírico afirma que a luz do sol é mais valiosa do que os pensamentos de filósofos e poetas, ou seja, atacando justamente onde mora o mais alto grau do pensamento e da reflexão – os filósofos e poetas.

O interessante é que habitualmente a luz do sol lembra a razão e a razão nos vem apenas através da reflexão do mundo. Mas, aqui o eu-lírico usa essa luz solar para afirmar que ela existe apenas e que não nos cabe racionalizá-la. Assim, quebra-lhe a metáfora do sol e da luz como símbolos da razão, porque afinal o sol é apenas o sol e não cabe a razão roubar a sua natureza de sol para metaforizá-lo.

Assim, o poema de Caeiro, aqui analisado, reflete a mais pulsante característica desse heterônimo – a defesa de que as coisas que estão no mundo são para ser contempladas em seu universo natural, real e não cabe ao observador preencher o objeto observado com a metafísica dos seus olhos. O mundo é simples e é assim que dever ser observado.


* Maria Rosane Vale Noronha Desidério é aluna do 8º semestre de letras vernáculas pela UEFS. Gostaria de partilhar com o Blog um texto escrito na disciplina de literatura portuguesa III.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

MEU EU A VOCÊ

Por Edilene Barboza*


Fiz uma promessa a mim mesma...
Esquecer-te por toda a eternidade...
Mas como pude fazer isso comigo?
Se é de você que vivo...
Então comecei a colecionar memórias...
Lembranças boas e ruins,
De mim e ti...
Mudei o foco!
Coisas ruins vão embora para que as boas cheguem.
Refiz meus pensamentos,
Agora você não é mais para mim como no passado,
Você é ainda melhor...


* Edilene Barboza é graduanda em Letras com Francês na Universidade Estadual de Feira de Santana


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