segunda-feira, 30 de junho de 2014

PROFESSOR¹, PRECURSOR²

*Por Danilo Cerqueira


Ele sempre soube que seria um precursor...

Considerando as problemáticas do tempo e do aspecto verbal, lembra que talvez cada palavra saída à boca ou à tecla, da cabeça ou das orelhas dos livros, tenha sido um suplício para os que a liam ou, ainda, a ouviam. Entretanto, ao mesmo tempo em que “sofriam a gramática” “profundissimamente hipocondríaco(s)”, ficavam, com o tempo, mais fortes, pensavam mais rápido, concluíam mais cedo... E nem se davam conta disso, os bobos – e as bobas!

Tudo talvez fosse muito difícil.

“Lidar com palavras (e alguns números, sejam sinceros) é a luta mais vã” (Drummond), “os moinhos de vento” estão aí, nas mentes das pessoas... O professor deve fazer mesmo com que descubramos a biruta que há em nós (“a”, pelo amor de Deus!), para fazer com que encontremos a direção dos nossos caminhos ao vento.

Por isso ele é também é um precursor. Não, não como é conhecido o célebre profeta que antecedeu a Jesus Cristo, o qual, dizia de si mesmo em relação ao filho de Deus, não ser digno “de desatar a correia das suas sandálias” (Jo 1. 27). O professor professa, mas sobre e para os outros “filhos do Homem”, por assim dizer e para os que Nele acreditam.

Não tive tempo para informações detalhadas, mas suponho que João Batista e Jesus Cristo nunca tenham se encontrado até o batismo nas águas do rio Jordão. Sem nada a ver com isso especificamente, apenas pela ocasião simbólica desse encontro, e considerando essa função de professar e profetar (professorando), quando chegar o dia de ir visitar o professor da escola do futuro filho (do homem – eu), pensarei literariamente (ou espiritualmente) nessas palavras:

8 Se não foi isso, o que vocês foram ver, então? Um homem vestido com elegância? Não! Os que se vestem com elegância estão por aí, na corte dos reis.
9 Então, o que vocês foram ver? Um profeta? Sim, e viram bem mais que um profeta.
10 É dele que a Bíblia fala, quando diz: “Eis que envio meu mensageiro à frente de você; para preparar seu caminho”.
11 Eu lhes afirmo com toda certeza: entre os mortais não apareceu ninguém maior que João Batista; no entanto o menor no Reino dos Céus é maior do que ele. (Mt 11. 8-11, grifo nosso).

Acho, e até creio nisto: É claro que, numa sala de aula, não há ninguém mais importante do que o que ensina, mas também o que ensina deve sempre aprender com quem está ensinando: e ele pode ser o estudante ou o professor. Logo, quanto mais difícil o aprendizado, quanto mais problemáticas sejam as condições materiais, humanas e psicológicas do educando (professor, aluno, estudante, graduando, aprendente, cliente etc.), mais o professor se sentirá (ou deve se sentir) menor diante dele, impossibilitado e impactado com a incapacidade momentânea em ajudar o outro a aprender. Parte desse sentimento, por incrível que pareça, é necessário, mesmo quando visivelmente inexistente. É preciso o mínimo de adversidade – o imperceptível prazer em resolver uma simples questão – para que o professor incite e aperfeiçoe, no educando, a vontade de estudar. Ensinar é aprender a ensinar...

A própria condição do professor lhe dá uma questão bastante trágica e heroica na sociedade: o seu real prazer e felicidade talvez seja ver um ex-aluno numa situação de vida tal que seja, em alguns aspectos... melhor que a dele! Não se fala aqui do professor como um “mártir social” (ou, comparativamente religioso). Sua atividade, labor, trabalho e função é ensinar... E nessa profissão, como seria então lidar com o potencial, como medir – momentaneamente – o alcance de uma inteligência; de qual maneira (con)ter a real proporção de quanto e como estão evoluindo intelectualmente os alunos de uma turma?

É preferível ser, enquanto professor, como João Batista: o menor do Reino dos Céus é maior do que ele; no entanto, nenhum mortal – para quem acredita, ninguém mesmo – é maior do que ele.

Adendo: é ele quem batiza o filho do Maior no Reino dos Céus.

NOTAS
¹ Professor - 1 aquele que professa uma crença, uma religião; 2 aquele que ensina, ministra aulas (em escola, colégio, universidade, curso ou particularmente); mestre; 3 derivação - sentido figurado: indivíduo muito versado ou perito em (alguma coisa). n. adjetivo. 4 que professa; profitente. lat. professor, óris 'o que se dedica a'.
² Precursor - 1 que ou o que precede, anuncia, prenuncia, prepara ou indica a vinda ou o acontecimento de; que ou o que vai adiante, anuncia algo de novo ou se antecipa a (alguém ou algo); 2 que ou o que se manifesta ou vem antes de ou dá origem a; 3 Rubrica: bioquímica. diz-se de ou composto ou substância de que se formam outro composto ou outra substância, esp. por um processo natural. lat. praecúrsor, óris 'o que vai adiante, o que precede; explorador, batedor'.

Referências
Bíblia Novo Testamento. Tradução José Raimundo Vidigal. Aparecida. São Paulo: Editora Santuário, 1989.

HOUAISS, A. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa. V. 3.0. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.

* Danilo Cerqueira é licenciado em Letras Vernáculas, especialista e mestre em Estudos Literários, todas as qualificações pela UEFS. Também é membro do conselho editorial da Graduando.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

A UNIVERSIDADE BRASILEIRA NO SÉCULO XXI: ENTRE O CAPITAL E O SOCIAL

* Por Cidalia Oliveira Barbosa Pinto


Devido ao debate realizado pela USP (Universidade de São Paulo), com o tema “A universidade que queremos, crítica ou produtiva”, são demonstradas duas perspectivas de discussão. A primeira é defendida pelo economista, ex-ministro da fazenda no governo de José Sarney e ex-ministro da administração federal e reforma do estado no governo de Fernando Henrique Cardoso, Bresser, que diz que o sistema público estatal brasileiro está em uma crise de legitimidade, e as soluções desta crise consistem numa universidade com autonomia administrativa e financeira, competitiva e isenta de funcionários públicos. A segunda vertente é defendida pela professora de filosofia e historiadora de filosofia brasileira Marilena de Souza Chauí, que tutela fortemente o fato de que a solução dessa problemática não está somente ligada ao poder aquisitivo, e sim à capacidade pensante e intelectual dos funcionários que compõem a universidade.

A universidade crítica e produtiva tem de produzir conhecimento e profissionais com um diploma que sirva muito mais do que um símbolo de formação, e sim um símbolo de um aluno que estudou, pesquisou, participou de projetos de extensão e mudou alguma realidade infeliz. Isso é uma universidade crítica, a que muda. Diferentemente da universidade que pretende resolver os problemas usando como base o capitalismo, não o conhecimento e a inteligência dos seus funcionários e alunos. De acordo com nosso ponto de vista, quando a Reforma do Estado brasileiro coloca como privado o que deveria ser tratado como direito e, sendo assim, ser provido pelo estado, está atingindo altamente não só a sociedade como arrancando as raízes desses setores. Como pode o conhecimento se tornar privado sendo ele o combustível para mudanças e evoluções sociais? Isso é uma alteração na essência da educação.

Quando vemos as medidas tomadas para atender aos valores de quantidade, tempo e custo, percebemos como a universidade foi arrancada de seu papel como instituição social de aspirar à universalidade e se transformou em uma organização que pensa em seus próprios benefícios.

A educação é um processo, não algo instantâneo, e se fundamenta na qualidade. Desse modo, não ajuda em nada o aumento de número de aulas ou de discentes por turma; não ajuda os programas de interação de estudantes a faculdades particulares, porque mesmo que à primeira vista eles se mostrem como auxílio, só estão cooperando para a formação de profissionais deficientes para o mercado. Deficientes porque o ensino é meramente repetitivo, é algo pronto, e não uma conclusão resultante de debates.

Existem muitas barreiras para a restituição desse modelo universitário. A burocracia que atua na administração, com as leis embasando-a, e a reinstalação da aula universitária, que é bem diferente do que propõe a Reforma do Estado. Porque o ensino e o conhecimento não são coisas prontas e repassadas, elas são construídas, criticadas, desconstruídas e reformuladas depois, sendo esse o papel da Universidade, semear cidadãos com capacidade de exercer essa prática, ao mesmo tempo em que continuam em uma luta por melhorias e pela não venda dos seus princípios.

Dessa forma, é valido ressaltar mais uma vez que a universidade deve ter a autonomia do saber e usá-la contra as determinações do mercado, pois a competitividade não deve ser feita entre as universidades e sim ser construída uma parceria entre elas, para o desenvolvimento intelectual dos seus discentes. Por fim, desejamos fazer um questionamento: Diante de tantos problemas e transformações, qual será a universidade do futuro?

* Cidalia Oliveira Barbosa Pinto cursa o 4º semestre de licenciatura em Letras Vernáculas na Uefs.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

AFINAL...

* Por Rosângela Ramos da Conceição 

Noite fria
Expectativas, medos e sutilezas
São noites longas, véspera de um inverno
As mãos pálidas que o tempo envelhece.
Levando da juventude as certezas.

Pensamentos levam-me a questionar
O que é verdade, ela existe?
Sentimentos perigosos contidos por 
Tempo, estabilidade ou falta de coragem?

Tudo que tenha dito pode ser apenas equívocos
Tudo que  vivi...
Meus olhos e o que vejo realmente 
são tardes azuis ou apenas vejo a superfície?

Questionar, questionar, questionar...
Justificativas, desculpas, análises
O tempo passa...
Sem ao menos permitir dizer valeu afinal...


* Rosângela Ramos da Conceição cursa Letras Vernáculas na Uefs.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

TERÇA-FEIRA

* Por Carise Suane de Jesus Santos


Um dia normal até aquele instante. O ônibus quase saindo do terminal, ganhando força para fazer mais uma trajetória. Alguém pede para que espere um pouco. Uma senhora quer entrar. Ela adentra e alguém se levanta, dando-lhe o lugar. Eu a chamo “Aqui, sente-se aqui”. Meus olhos captam mais alguém naquele episódio que estava apenas começando. Um menino que aparentava ter uns seis anos. Roupas alegres, boné, uma carteira debaixo dos seus braços, sacolas nas mãos, um documento de identidade, e um olhar atencioso para alguém que estava ao meu lado. Aquela Senhora. Percebi imediatamente que aquele RG e aquela carteira não eram seus, eram dela. Talvez você não esteja entendendo. Perdoou-te por não sentir o coração apertar. Algumas coisas precisam ser vividas para serem compreendidas.

Aquele menino me deu a oportunidade de vivenciar uma das cenas mais bonitas da minha vida, até hoje. Aquela criatura exalava bondade. Eu queria chegar logo ao meu destino final. Não aguentava mais ficar observando tanta gentileza. No fundo eu sentia vergonha. Eu queria ser como ele. Os meus olhos não seguraram as lágrimas. Chorei como uma criança. 

Eu sorri para ele. Ele correspondeu. Será que ele sabia que eu o admirava tanto? Será que percebeu, nos meus olhos cheios de água, que ele era único e especial? Será que pode compreender que ele era um diferencial nessa sociedade suja e perdida? Ele não sabia e isso não importava nem um pouco.

Passou algum tempo e aquela criança acertou meu coração com um golpe. Foi fatal. Ele apanhou uma maçã na sacola, entregou à avó, tomou-a de volta, mordeu um pedaço e entregou-lhe novamente. Entendi. Ela não conseguia morder a fruta sozinha. Eu queria descer daquele ônibus logo. Pareeeeem! Preciso sair. E ele continuava sorrindo, como se o que ele fez tivesse sido a coisa mais natural do mundo. E foi.

Por quê? Por que o que deveria ser natural agora é tido como algo surpreendente? Por que tanta bondade nos assusta? Acredito que nós, com nossas dores, guerras, conflitos e egoísmos, esquecemo-nos de ser bons. Esquecemo-nos de buscar o amor ao próximo. Então, o que era para ser natural é atração particular num ônibus lotado. Feita por alguém que não encena, mas é a bondade, vive o amor e mesmo sem entender e saber me ensinou coisas preciosas.

Aconteceram muitas coisas até eu descer no meu ponto. Relutava comigo mesma, queria dizer algo para ele. Queria que se lembrasse de mim. Decidi então perguntar onde eles iriam descer. Responderam-me. Mas, não era isso que o meu coração e a minha mente queriam dizer. Então, nos últimos instantes da minha presença naquele veículo, eu disse: Já vou. Deus te abençoe. Disse, olhando para aquele ser pequenino. Eram para aquele ser grandioso as minhas palavras.

Oro ao Senhor para que aquele rapazinho se torne um homem com os mesmos valores que possui. Sei que possuirá.


Carise Suane de Jesus Santos cursa o quarto semestre de Letras Vernáculas na Uefs.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

SOBRE SABER AMAR

* Por Ilana Benne Falcão Maia


Certa feita tive o interesse em pesquisar e escrever sobre o amor. Sabemos que as relações amorosas mudaram e mudam ao longo do tempo. Desde a Idade Média até os dias atuais, a instituição do casamento e o amor são vistos de diferentes formas devido às mudanças e movimentos das sociedades, o que não me surpreendeu até então. Foi aí que me deparei com a expressão “amor líquido” se referindo aos laços humanos do homem moderno como algo frágil, o que faz todo sentido. O amor moderno tornou-se líquido, segundo Bauman (2004) “as relações estão frouxas". Os desejos mudaram, conectar-se a alguém pode ser fácil, o difícil é justamente o contrário, romper esse laço é doloroso. O homem moderno teme a dor, fazendo assim as relações ficarem vazias, mantendo assim a sua liberdade.

Talvez os motivos dessa diluição do sentimento amoroso sejam por conta dos desejos urgentes, das intenções que mudaram e da constante busca do sentido da vida. Inúmeras dúvidas permeiam as cabeças de homens e mulheres do século XXI, e talvez nenhuma certeza. Perdeu-se o encanto do “amor da alma da cintura para cima e amor do corpo da cintura para baixo” (Garcia Márquez), vivemos o mundo da pluralidade, do efêmero, em que instituições como o casamento formal estão tendo que se adaptar às condições de mudança social. Nesse processo de mudança das relações amorosas, a intimidade tornou-se flexível devido à grande aceitação das relações sexuais pré-nupciais, à infidelidade, à adaptação religiosa a essas relações, apesar da religião ainda manter suas ideologias e resistências a respeito do casamento. Enfim, em tudo ou quase tudo os laços amorosos se diferenciam daqueles das sociedades arcaicas, em que o amor era algo crescente e fazia parte da adaptação do casal, e podia existir no leito matrimonial ou não; hoje é pré-requisito para o início da relação que começa ardente mas costuma acabar com o tempo, a partir do momento que os interesses mudam.

Com a flexibilidade do mundo moderno, todas as configurações de amor são aceitáveis, o que preocupa é que isto se perca, o sentimento se torne tão líquido que evapore. Enquanto pisamos na incerteza do que é amar e ser amado, os laços humanos continuarão sendo frágeis.


* Ilana Benne Falcão Maia é graduanda do quarto semestre de Letras Vernáculas na Uefs.

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