quinta-feira, 2 de março de 2017

SENTIR E PENSAR EM FERNANDO PESSOA

Por Maria Rosane Vale Noronha Desidério*


Fernando Pessoa é um dos poetas mais extraordinários da literatura universal. Sua poesia se fragmenta em várias vozes distintas, vários “eus” e, por isso, torna-se múltiplo e singular ao mesmo tempo. A criação dos seus poetas heterônimos, expressa o desejo de Fernando Pessoa em trazer a lume essas múltiplas vozes que existem em sua alma de poeta.

No âmago da poética de Fernando Pessoa e nele mesmo há o encontro de um eu-lírico imerso entre o tudo e o nada. Este, que ao se descobrir no mundo sofre a dor de pensar, de se perceber com os olhos da razão. Por isso, deseja ser como os gatos que permanecem pela rua desprendidos dos conflitos da humanidade. Conflitos que só atingem o homem que pensa e reflete acerca das questões a sua volta. Pessoa assim revela um eu-lírico que não consegue se desprender desse universo das ideias, das reflexões tão danosas ao conforto da alma humana.

O desejo do poeta em viver sem essas amarras causadas pela racionalização e problematização dos conflitos humanos aparece em Ricardo Reis, que nos convida a viver sem nos prendermos as dores do mundo e em Caeiro, que nos exorta a não racionalizarmos o que contemplamos. Porém, Fernando Pessoa: ele mesmo não consegue fugir do mundo dos conflitos racionais, nem tão pouco da dor de pensar e refletir o mundo que o rodeia. Quem dera ser ele como a ceifeira que trabalha involuntariamente e feliz em seu oficio! Mas, o eu-lírico que pensa e reflete sobre tudo a sua volta jamais poderá viver alheio e em paz como a ceifeira e os gatos do mundo. Eis a dor de pensar. A dor de nunca estar em paz e pleno.

Alberto Caeiro, considerado por Pessoa como o mestre dos Heterônimos, tinha como defesa em sua poesia a ideia de que não se devia pensar sobre nada, olhar o objeto e apenas ver o objeto, sem a necessidade de explicá-lo pelos olhos da filosofia, sem nenhuma metafísica. O mundo é apenas o mundo, as flores, as árvores, o espelho são apenas o que são e nada mais. Perceba que o poeta Caeiro afasta de si a necessidade e, porque não dizer, a obrigação de refletir, de pensar sobre o mundo.

No poema “Há metafísica bastante em não pensar em nada”, o eu-lírico defende essa percepção do mundo de que as coisas são o que são e não há a necessidade de explicá-la.

Vejamos alguns versos que confirmam essas afirmações:

O que penso eu do mundo? 
Sei lá o que penso do mundo! 
Se eu adoecesse pensaria nisso. 

Essa é a primeira estrofe do poema em análise e neste primeiro encontro do leitor com o eu-lírico, este último já lhe deixa transparecer sua visão do mundo. Para que pensar? Do que me aproveitaria pensar? O eu-lírico não está interessado em refletir sobre o mundo, apenas vive nele e isso lhe basta.

Nos três versos da segunda estrofe afirma:

De todas as filosofias e de todos os poetas 
A luz do sol não sabe o que faz 
E por isso não erra e é comum e boa. 

Eis o que o eu-lírico afirma: que a luz do sol é boa justamente porque não pensa e não racionaliza nada. Em um verso acima do primeiro aqui transcrito, o eu-lírico afirma que a luz do sol é mais valiosa do que os pensamentos de filósofos e poetas, ou seja, atacando justamente onde mora o mais alto grau do pensamento e da reflexão – os filósofos e poetas.

O interessante é que habitualmente a luz do sol lembra a razão e a razão nos vem apenas através da reflexão do mundo. Mas, aqui o eu-lírico usa essa luz solar para afirmar que ela existe apenas e que não nos cabe racionalizá-la. Assim, quebra-lhe a metáfora do sol e da luz como símbolos da razão, porque afinal o sol é apenas o sol e não cabe a razão roubar a sua natureza de sol para metaforizá-lo.

Assim, o poema de Caeiro, aqui analisado, reflete a mais pulsante característica desse heterônimo – a defesa de que as coisas que estão no mundo são para ser contempladas em seu universo natural, real e não cabe ao observador preencher o objeto observado com a metafísica dos seus olhos. O mundo é simples e é assim que dever ser observado.


* Maria Rosane Vale Noronha Desidério é aluna do 8º semestre de letras vernáculas pela UEFS. Gostaria de partilhar com o Blog um texto escrito na disciplina de literatura portuguesa III.

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