segunda-feira, 20 de junho de 2016

SENTIDOS

Por Josenilce Barreto*


Via flashes! Via fotografias! Via sonhos! Via utopias! Quanta opacidade nessa miragem!

Olha. Não vê! Toca. Não sente! Cheira. Qual cheiro? Bebe. Não sente o gosto! Ouve. Não sabe quem!

Quantas ilusões! Como podem os seus sentidos lhe traírem assim?

Olha no espelho e não se reconhece: Quem é este ser pálido, enrugado, desorientado e preso no reflexo diante de si? O que fizeram com ela? Simples, arrancaram-lhe a vida! E sem esta, que sentido há em estar ali?

Grita. Ninguém lhe ouve! Escorrega. Ninguém lhe segura! Cai. Ninguém lhe levanta! Tenta fugir de si. Ninguém lhe ajuda!

Que vida é esta em que ninguém lhe vê, lhe toca, lhe cheira, lhe saboreia, lhe ouve, lhe AMA? Qual o sentido nisso tudo? Velha, quase cega, quase surda, quase muda, trêmula e agora já desconhece os sabores da vida... Restaram-lhe apenas os dissabores que regam os seus recentes, últimos dias.

De repente, a imagem no espelho se dissipou. Ela saiu do banheiro. Voltou à sua gastada poltrona. Pegou o seu pincel, tintas e tela. Finalizou a pintura. Viu, diante de si, um autorretrato: uma mulher velha, quase cega, quase surda, quase muda, trêmula e que desconhece os sabores da vida.

Eram 21:00 e o sino tocou: “Hora de velho ir dormir”, diziam os mais jovens. A luz apagou e o asilo dormiu.


* Josenilce Barreto é graduada em Letras Vernáculas e mestra em Estudos Linguísticos pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), além de lecionar na mesma instituição. Também integra o conselho editorial da Graduando.

terça-feira, 14 de junho de 2016

MINHA QUINTA SINFONIA

Por Abimael Ferreira*


Mais um dia chuvoso e lá estava eu, sentado no canto daquele escuro porão, como de costume, lendo os meus gibis e escutando minhas músicas. Para muitos, escutar as canções de Beethoven era algo avançado para minha idade, mas na verdade eu nunca me importava. Todos os comentários só aumentavam a vontade incontrolável do garoto louco de nove anos.

Eram quase sete da manhã, quando minha mãe gritava desesperadamente o meu nome:

- Gabriel, saia desse porão e venha tomar seu café, filho. Estou indo para o trabalho e preciso que você se alimente bem e faça as atividades da escola. À tarde, teu tio Clovis passará aqui para te levar até o colégio, portanto, sem travessuras e obedeça ao tio, ele está sendo muito gentil conosco.

Depois de ouvir a voz de minha mãe a me chamar, desliguei a vitrola, subi as escadas, fui até a mesa, comi alguns biscoitos. Na correria, acabei derramando o copo de suco sobre minha roupa, mas não me importei muito, fui para o meu quarto, comecei a fazer as atividades da escola. Quando terminei, desci novamente para o porão. Sempre ao entrar, tinha uma sensação de proteção, de alívio, era como estar no paraíso, sem ninguém para atrapalhar a calmaria das minhas canções e a viagem no mundo dos meus gibis. Durante o meu momento de paz, sou interrompido com o barulho da fechadura. Em seguida, escuto a voz do tio Clovis:

- Gabriel, onde está você, meu garoto? Precisamos ir para a escola.

- Estou no porão, tio.

Em seguida, escuto o som dos seus passos se aproximando.

- Já está pronto para ir?

- Ainda não, preciso subir e me arrumar!

- O que aconteceu com sua roupa? Está toda manchada!

- Na correria para tomar o café e fazer a tarefa, acabei derramando o copo de suco.

- Tome mais cuidado da próxima vez! Deixe eu te ajudar!

De imediato, o tio Clovis tirou a minha camisa e olhou para mim de forma intimidadora, em seguida escuto o som do abrir do zíper. Foi então que me perguntei: “Mas é minha roupa que está manchada, e não a dele”. Ele colocou suas mãos frias e calejadas sobre minha boca, então ele falou:

- Silêncio meu garoto, só estou lhe ajudando.

Então permaneci em silêncio, até porque a mamãe me disse que eu deveria obedecer ao tio Clovis. Ao som de Beethoven, da chuva e de um choro desesperador, aquela manhã finalizou.

Depois de toda a cena, corri para o banheiro, tomei um banho na tentativa de esquecer tudo aquilo que havia acontecido. Apesar de estar com o corpo lavado, minha alma permanecia suja e vazia, meus pensamentos estavam entrelaçados com lembranças obscuras, a pior parte era saber que teria de ir para a escola com ele, a pior parte era saber que teria de agir normalmente, como se nada tivesse acontecido. Então entrei no carro, sentei no banco de trás, e ele tocou em minha perna, uma lágrima desceu dos meus olhos e então ele disse:

- Não aconteceu nada, meu garoto, este será um segredo nosso, por isso, estou lhe dando de presente um disco do Beethoven. Você gosta dele né?

Permaneci em silêncio, apenas com lágrimas nos olhos.

Cheguei à escola, sequei as lágrimas, entreguei a atividade e tentei transparecer estar bem. Mas a cada sorriso aberto, sentia um rasgar no peito. Depois de uma longa tarde, a mamãe passou na escola para me buscar, me abraçou forte e me perguntou:

- Olá, meu filho, como foi o dia?

Pensei milhares de vezes em me libertar de toda aquela dor, eu não poderia conviver com todo peso sobre mim, então decidir falar:

- Mamãe, preciso contar uma coisa, o tio Clovis...

Fui interrompido com sua voz de entusiasmo dizendo:

- Olha um disco do Beethoven, que legal, filho! Foi teu tio que te presenteou?

- Foi sim, mãe!

- Incrível! Desculpa te interromper filho, o que você estava dizendo?

- Nada mãe, só ia dizer que o tio Clovis tinha me dado esse disco.

Ao chegar, desci desesperadamente para o porão, eu precisava me libertar das canções que teriam atraído o mal para perto de mim, eu tinha uma imensa necessidade de apagar todas as lembranças. Quebrei todos os discos do Beethoven. Subi para o quarto, tranquei a porta, e tentei lavar a alma com as minhas lágrimas. Dali em diante, nunca mais retornaria ao porão, pois o lugar que me trazia paz e segurança, tinha se tornado um verdadeiro “matadouro”. Sim, lá ficaram mortos e enterrados todos os meus sonhos.


* Abimael Ferreira é estudante do do 4º semestre no curso de Letras vernáculas da UEFS,

quarta-feira, 8 de junho de 2016

POEMAS

Por Fabrício Oliveira*


NO ENTARDECER

Passando pelas vielas do amanhã
vi uma borboleta
e sobre a borboleta
um homem vestido de doido.



EU E OS PASSARINHOS

seguiremos as nuvens
e os cavalos.



* Fabrício Oliveira é graduando em Letras Vernáculas pela Universidade Estadual de  Feira de Santana (UEFS).

sexta-feira, 3 de junho de 2016

CONTAGEM

Por Josenilce Barreto*


Ela tinha um, dois ou talvez três ou quem sabe quatro... a quantidade pouco importa, desde que o que ela tenha seja suficientemente completo.

Todos os dias, ela se levanta de sua cama, pensa em como poderá ser seu dia, então toma um café e começa a chover. E no barulho da chuva, fervilham-lhe os pensamentos ou seriam as inquietações? Quem sabe...

O saber parece pertencer a alguém, mas e se ela nem soubesse que pertencia ao saber e não o contrário? Bem, são apenas possibilidades...

Ela, assim como outros, pensa que sabe, mas, como já dito, o saber é quem nos pertence!

Então ela vai contando, a cada dia, os livros que encontra perdidos em sua estante. E nessa conta lá se vão um, dois, três ou quem sabe quatro histórias perdidas... quer dizer, esquecidas! Esse esquecimento não completa o saber, pois este vai-se completando, completando, completando... à medida que vai tomando para si alguém... E ela, ciente de seu pertencimento ao saber, não lhe ousa deixar. 

Deixar, esquecer, perder... são verbos que não lhe pertencem. À ela são compatíveis o aprender, o escrever, o pensar, o saber, o amar, o pertencer ao conhecimento.

A chuva se foi, os pensamentos também. O livro foi fechado, as histórias ficaram jogadas novamente na estante. E de novo o tempo parou, o barulho no telhado cessou e em outro dia chuvoso, talvez ela volte a contar um, dois ou talvez três ou quem sabe quatro livros lançados na estante...


* Josenilce Barreto é graduada em Letras Vernáculas e mestra em Estudos Linguísticos pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), além de lecionar na mesma instituição. Também integra o conselho editorial da Graduando.

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