terça-feira, 29 de julho de 2014

CRÍTICA À EDUCAÇÃO BRASILEIRA*



Conceição do Jacuípe-BA,  13 de Junho de 2014.


Excelentíssima Presidenta do Brasil Sra. Dilma Rousseff,


Sou um cidadão de 38 anos, pai de família, professor do Fundamental I, casado e no momento desempregado. Domiciliado no interior da Bahia, na cidade de Conceição do Jacuípe, venho enquanto cidadão, patriota desta Terra adorada da qual Deus lhe concedeu a honra de governar, fazer-lhe alguns questionamentos a respeito da Educação Brasileira nestes últimos tempos. Espero sinceramente que se digne em respondê-los, afinal lhe confiei meu voto na última eleição para a presidência do Brasil acreditando que uma das suas prioridades fosse a Educação e, enquanto educador, até a presente data meus anseios não foram atendidos.

Por onde será que devo começar, Excelentíssima? Pela desvalorização do professor ou pela estrutura precária da maioria das escolas públicas brasileiras, onde as fachadas escondem alunos desmotivados, professores desqualificados, um sistema de promoção automático que tem como objetivo comprometer o aprendizado dos alunos durante toda sua vida acadêmica?

Será que a Excelentíssima já parou para pensar que por conta dos baixos salários oferecidos aos professores no Brasil, poucos jovens seguirão a carreira e tão logo o educador se tornará algo em extinção? Não é possível ainda que não tenha percebido que muitos professores deixam a profissão em busca de melhores salários.

Difícil aceitar que tenhamos que passar quatro anos em um curso de graduação dentro de uma Universidade Pública, e muitas vezes o dobro disso, já que temos que abandonar alguns semestres para trabalhar a fim de manter nosso sustento; mais alguns anos em pós-graduação, mestrado, doutorado... e ainda assim não conseguimos ganhar nem um terço daquilo que alguns políticos analfabetos ganham pelo país afora. Perdoe-me se me expressei mal, Excelentíssima, sei que não é o vosso caso e não pretendo ofendê-la, apenas desabafar minhas  mágoas.

De fato, não posso negar que o Governo Federal tem desenvolvido alguns programas que visam construir uma Educação mais igualitária no país, como o acesso às universidades públicas através do ENEM, SISU ou PROUNI. No entanto, as academias não possuem ainda estrutura para sediar determinados cursos, a exemplo do curso de Língua Estrangeira que nem sequer tem um laboratório e ainda recebe os alunos pressupondo que já leem, escrevem e falam uma determinada língua e, ao invés de incluí-los, acabam excluindo-os de todo o  processo.

A Educação Básica possui distribuição de livros didáticos, mas a maioria dos alunos não os recebem; existe um programa que visa manter os alunos na escola em tempo integral, no entanto as escolas não são adaptadas para atender a esta demanda. Sei também da falta de interesse da maioria dos alunos em estudar. Parece que muitos vão à escola apenas para ver amigos, comer, merendar, namorar, bagunçar e obter diploma. Mas será, Excelentíssima, que o problema não está na forma que esta Educação é oferecida? Acho que uma das propostas  do seu governo deveria ser a de identificar as falhas na Educação brasileira a fim de reverter este quadro de forma significativa, abandonando as estatísticas quantitativas para as qualitativas em relação ao número de pessoas alfabetizadas no nosso país.

Espero que me perdoe pela ousadia, mas pense bem em meus argumentos, quero poder ver a Educação do meu país dando frutos de qualidade. Desejo ver a mim mesmo e meus colegas de trabalho satisfeitos com o que recebem e tudo isso de maneira muito urgente. Tenho certeza que ainda há tempo da Vossa Excelência  deixar gravado seu nome no quadro da Educação do Brasil.

Grato,


Sandro Guimarães da Mata
Aluno de Letras com Língua Inglesa
Universidade Estadual de Feira de Santana 

* O texto publicado foi apresentado com trabalho requerido pela disciplina Política e Gestão Educacional, do Curso de Licenciatura em Letras com Língua Inglesa, da Universidade Estadual de Feira de Santana.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

HERÓIS ESQUECIDOS


* Por Rosana Carvalho


Esse ano, com os 50 anos do Golpe, mais do que nunca pudemos observar, nos meios de comunicação ou manifestações isoladas de grupos específicos, algumas homenagens às “vítimas” da Ditadura Militar. Muros foram pichados, papéis distribuídos, mas o que pouca gente sabe é que os torturadores do período estão espalhados por aí em nomes de escolas, ruas e avenidas e, ainda que inconscientemente, são mais lembrados do que os muitos personagens injustiçados naquele momento de opressão. Contudo, não é bem do esquecimento relegado às vítimas da ditatura que me proponho a falar. Hoje, quero lembrar-vos de duas personalidades que me foram apresentadas, a pouco mais de um ano, pelo meu orientador o Prof. Dr. Claudio C. Novaes. Refiro-me às figuras de Olney São Paulo e Eurico Alves, sendo que o primeiro, coincidentemente, foi preso e torturado pela Ditadura Militar.

Olney é natural de Riachão de Jacuípe, mas foi em Feira de Santana que Olney descobriu o amor pelo cinema e se empenhou na difusão cultural entre todos os ramos da população. Eurico Alves nasceu em Feira de Santana e aí viveu a infância e ingressou nos estudos que concluiria um pouco mais tarde em Salvador. Mas, o que Olney e Eurico têm em comum? Essa pergunta é simples, o que aproxima esses dois artistas é o amor pela temática sertaneja, que movia a vida de ambos.

Olney São Paulo era apaixonado pelo cinema, a sétima arte era o combustível da vida desse cineasta. Imbuído das perspectivas cinemanovistas repercutidas na Bahia, hoje praticamente nenhum livro que trate de Cinema Novo menciona o nome de Olney São Paulo. Essa pouca aparição do cineasta é semelhante ao apagamento dos personagens marginais do sertão. Já Eurico Alves foi um dos fundadores e representantes do Modernismo baiano, movimento literário que, pela postura revolucionária e interesse pela cultura popular, chega mesmo a se aproximar do Cinema Novo. O conjunto das obras desse autor e sua vida cultural também continuam no esquecimento.

Quando falamos em Cinema Novo, lembramos principalmente dos nomes de Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Alex Viany. Vez ou outra o nome de Roberto Pires também aparece em alguma nota, afinal foi ele o produtor do primeiro longa metragem baiano, o filme Redenção, e do grande sucesso de A grande feira. Mas, e de Olney São Paulo, o diretor que produziu seu primeiro filme, Um crime na rua, utilizando uma câmera emprestada e a ajuda de alguns amigos, quem é que lembra? Quem é que lembra dos filmes Manhã Cinzenta e Grito da Terra?


Olney São Paulo e Eurico Alves são apenas dois exemplos, os outros são enumeráveis. Nos últimos 14 meses, os nomes desses dois artistas não se afastaram dos meus pensamentos. Mas e quanto a vocês, será que depois da leitura dessas breves linhas procurarão algum poema de Eurico Alves para ler ou algum filme de Olney São Paulo para assistir? De toda sorte, fica o convite. E, se tiverem interesse também, procurem pelos nomes esquecidos, deem oportunidades para essas vozes.


Rosana Carvalho é graduanda em Letras Vernáculas e bolsista de iniciação científica Probic/UEFS. Tem como orientador o prof. Claudio C. Novaes.

domingo, 6 de julho de 2014

JANELAS DE LEMBRANÇAS

Por Maria Rosane Vale Noronha Desidério


Ouço as janelas e as portas serem fechadas com cuidado. O céu parece acinzentar-se e a noite enfim começa a tragar o dia. E, eu permaneço imóvel a observar ao longe as ruínas da velha casa de taipa que o avô de minha avó havia erguido em tempos remotos. Bons tempos aqueles! Diz minha avó com saudades nos olhos sempre que rememora as velhas lembranças daquele passado, guardado nas ruínas da velha casa de taipa.

E foi ela quem nos contou uma história extraordinária sobre a grande descoberta de seu avô, o meu tataravô... É claro que nós quando temos quinze anos nas ventas raramente ouvimos com atenção velhas histórias de família, mas eu adquiri uma curiosidade particular pelas histórias de minha avó. E talvez seja por isso que não consigo despregar os olhos daquela velha tapera, pois foi lá que se iniciou a caçada de meu tataravô...

O mês foi setembro. O ano devo confessar que, se minha avó mencionou, já não me lembro. O fato é que meu tataravô avô, um cearense da gema, criado entre os juazeiros e o chão de terra seca no sertão pedregoso, teve um sonho fantástico, imaginem?! Sonhou que debaixo do chão sertanejo existia ouro. Enfiou na cabeça que precisava procurá-lo. Teve a certeza de que aquele sonho era um sinal, e que ele havia sido escolhido pelo destino para encontrar os tesouros enterrados por fazendeiros que temeram os revoltosos, uma espécie de cangaceiros que outrora saqueavam as fazendas. Diz uma velha lenda que circunda o sertão que quando um fazendeiro enterrava seu ouro, este desaparecia debaixo do chão. E, só era encontrado após sua morte. Obviamente, esses fazendeiros não tinham consciência de tal lenda. Que ironia! Guardavam para perder...

Meu tataravô deixou para trás tudo e embrenhou-se solitário à procura do ouro. Dizem que ele não contou nada sobre sua empreitada nem mesmo para minha tataravó, que ficou a ver navios com a dúzia de filhos agarrados à saia. A estratégia de manter segredo fazia parte da lenda. Se o cabra contasse para alguém o ouro fugia dele, ficava invisível aos olhos do dito cabra. Meu tataravô não ia querer uma miséria desta, não é mesmo?

Ele ficou um bom tempo hospedado em umas casas de pedras esculpidas pela própria natureza nos serrotes sertanejos e, depois de uns oito meses sem enviar notícias à esposa, ele voltou para casa em uma noite como esta de hoje. E, com os olhos apreensivos, sem dar maiores explicações ordenou que a família juntasse as tralhas e amarrasse tudo no lombo dos jumentos, pois precisavam arribar-se dali com urgência. Minha tataravó, resignada e desconcertada, obedeceu às ordens. Então escafederam-se dali, fugiram pela noite escura em busca de abrigo na vila de Cachoeirinha.

Fiquei curiosa para saber o motivo de tal fuga e minha avó me explicou o restante da velha lenda sertaneja. Dizem que se uma pessoa sonha com um lugar que tem ouro e o encontra, precisa mudar de casa rapidamente, pois do contrário sofre maldições. Na certa era a explicação.

Meu tataravô se tornou homem influente na região. Seus filhos, contudo, não carregaram toda a fama dele, e a nós coube a história de família, coube as lembranças. E uma incerteza: terá ele, de fato, vivido essa história? Ou tudo isto não passa de lenda? Lastimavelmente, em nosso bolso o ouro não chegou!
  
Hoje eu espicho os meus olhos para a tapera ao longe, tentando reconstruir a memória de minha avó, mas talvez cometa o pecado do esquecimento, deixando algum fato encoberto ou o pecado do acréscimo, tentando compensar os rastros apagados da memória.

Minha avó, que ainda nos conta boas histórias, mora, hoje, bem longe de mim, mas continua contando aos netos menores, quando estes param para ouvi-la, as histórias de nossa família tal como esta história curiosa de meu tataravô e o ouro que o sertão guardou em seu chão.

E, eu preciso confessar que a velha tapera não está e nem nunca esteve ao alcance visual de meus olhos, infelizmente, mas ao alcance da memória. Sim, minha memória, é ela que avista, ao longe da janela de minhas lembranças, a velha tapera.

E como negar sua existência ou sua inexistência? Não importa, ela existe em mim.

Em homenagem a minha querida avó Rosa, que sempre me conta boas histórias e de quem cultivo imensas saudades.



* Maria Rosane Vale Noronha Desidério é aluna do 4º semestre do curso Letras Vernáculas pela Uefs.

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