quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Jeitinho de falar

Kèrolin Gomes de Jesus
Wellington Gomes de Jesus

 
Um primeiro diz “Fala jumento” e um segundo responde “Diga corno” e assim dois conhecidos se cumprimentam enquanto o sinal de trânsito está vermelho; em um lado da rua um diz “Colé filho da puta” e outro responde “Tua mãe é minha, viado”. Circunstâncias como essas são naturais, muito comuns no dia a dia das pessoas, mas podem motivar situações drásticas e irremediáveis.
O mundo contemporâneo se vê bombardeado o tempo todo por ideias novas, isto é, um conhecimento, uma informação, um conceito que existia há um minuto pode não existir no minuto seguinte. Muda-se de ideia muito rapidamente e com isso a sensação, às vezes, de perda de identidade.
Cultivar e exercitar hábitos saudáveis como andar de mãos dadas, saudar alguém com um bom dia, boa tarde, boa noite, sorrir e cooperar não só caiu em desuso como não se tem medido palavras e atitudes na relação com o outro.
O psicólogo Antônio Carlos Alves de Araújo diz que “numa sociedade totalmente competitiva como a nossa, toda a resposta caminha à agressão, por conta da leitura de que alguém está invadindo o espaço vital do sujeito”. A consequência é não apenas enfrentar os efeitos da agressividade, assim como a culpa resultante do processo. Mas não se trata disso, não estamos dizendo que não se deve “lutar” por espaço, lugar no mundo ou qualquer outra situação do gênero. O fato é que se tem achado natural tecer injúrias e distribuir palavras de baixo calão gratuitamente. E tem mais, empurrar, beliscar, dar pontapés, tapas e socos no meio de uma conversa está incluso no pacote.
A sociedade pode não querer enxergar, mas ações graves de agressividade começam com o desrespeito aos limites do outro ainda quando somos pequenos. Segundo a especialista em psicologia clínica para crianças e adolescentes Keila Gonçalves, os pais devem ficar preocupados quando as atitudes perturbadoras se tornam prolongadas. "Algumas vezes, as crianças apresentam uma agressividade não apenas transitória, mas permanente, ou seja, parecem estar sempre provocando situações de briga. Este é o momento de entrar em ação". Por isso o Bullying, comportamento bastante discutido nos últimos tempos, não deve ser um assunto fugaz em quaisquer rodas de discussão. Aramis A. Lopes Neto, sócio fundador da Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (ABRAPIA), comenta que o “Bullying diz respeito a uma forma de afirmação de poder interpessoal através da agressão, [e por isso] têm consequências negativas imediatas e tardias sobre todos os envolvidos: agressores, vítimas e observadores”. Esse comportamento tem acontecido de maneira contumaz nas ruas, nas casas, nos grupos de amigos, nas escolas brasileiras e do exterior chegando a motivar inúmeras produções de filmes, documentários e pesquisas científicas diversas.
Entretanto, na contramão de uma conversa mais profunda, sustentamo-nos na máxima popular que assegura toda caminhada começar com o primeiro passo, isto é, nunca é tarde para deixarmos de uma vez por todas as nossas sombras primitivas e assumirmos que estamos civilizados e, por isso, agirmos ponderadamente ao invés de hostis inacefalados, racional e conscientemente e não instintivos como os animais que julgamos menor na escala evolutiva.

REFERÊNCIAS

ARAÚJO, Antônio Carlos A. de. Agressividade: análise psicológica. Disponível em: «http:// antonioaraujo_1.tripod.com/psico1/portugues/agressao/agress.html». Acesso em: 1º set. 2011.

GONÇALVES, Keila. Agressividade na infância: até que ponto é normal. Disponível em: «http:// guiadobebe.uol.com.br/agressividade-na-infancia-ate-que-ponto-e-normal/». Acesso em: 1º set. 2011.

LOPES NETO, A. A. Bullying: comportamento agressivo entre estudantes. Jornal de Pediatria – Rio de Janeiro, 2005; 81 (5 Supl.), S164 – S172. Disponível em: «http://www.scielo.br/pdf/jped/v81n5s0/v81n5Sa06.pdf». Acesso em: 1º set. 2011.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

NO BERÇO INDIANO: SALVE ZEBU! HUUM...BOM ZEBU!

          

Vamos! Entre, escolha a sua mesa, sente-se e observe! Tudo em sua volta lembra um jogo, uma pequena arena. – Quem dá mais! Quem dá mais! – dispara o leiloeiro ávido por braços levantados, ameaçando bater o martelo.
Um leilão de Zebu! Na Expofeira 2011. Uma grande passarela cercada, um terreiro de chão batido, botas e botinas circulando, uma equipe de gente bonita, e agitada, pronta no acudir um braço ansioso, (mas acho que pode ser o dedo) acompanhando o bater do martelo.
Bem, hoje, é a vez do Zebu, o corcunda charmoso, e lá vem ele, seguido pelo eco do leiloeiro: – Quem dá mais? – Quem dá mais? O todo-poderoso, o puro sangue... Entrou mastigando, digo, ruminando (ato de retornar o alimento do estômago para a boca e remastigar). Eca! Tem que ter muito estômago!
Atenção! Na passarela as raças: Guzerá, Gir, Nelore, Indubrasil, Sindi e Bhahman são as mais adaptadas ao clima tropical, como o do Brasil. Os Zebus possuem grande resistência a carrapatos, seu pescoço é curto, estreito e com barbela ampla – Quem dá mais? O cupim é bastante desenvolvido nos machos, para alegria das fêmeas. Pele fina e pêlos curtos. Gosto deles!
Na Índia, o berço dos Zebus, essas criaturas são consideradas sagradas, e jamais nenhum indiano pensou nelas para o abate, selecionadas apenas para produção de leite. Para eles, é a grande “mãe” – Salve Zebu!
Em meio à poeira e olhares de seleção, bandejas de bebidas e de petiscos pairam sobre as nuvens, de compra ou não? Por entre as mesas, equilibram-se os garçons. Plantados nas cadeiras, estão os pecuaristas de olho nos touros puros que vão cobrir suas vacas na estação de monta. Outros apostam nas novilhas de alto padrão, querendo investir no mercado da genética; e há, ainda, os que preferem a cria, recria e engorda para o corte. Do topo da elite à base da economia de mercado. Dispara o leiloeiro: – Quem dá mais? Quem dá mais? Quem dá mais? – Fecho! Para o senhor de chapéu laranja.
– Quem? Eu? (eu vi... ele só queria um salgadinho da bandeja, que o esnobava). E com isso, seu sorriso acompanha a bela garota, que caminha em sua direção: – Por favor, senhor, qual é o nome da fazenda? – Fazenda ZUADA! E o leiloeiro repete várias vezes o nome da fazenda, e do proprietário – E quem dá mais? – Quem dá mais pelo prazer de participação, associação, aceitação por parte dos companheiros, da troca de amizades, afeto e amor? Façam suas apostas neste jogo sociológico, psicológico e econômico.
– Quem dá mais? Salve! Salve! Zebu.
    
Cintia Portugal

Esse texto, modificado, é uma publicação do jornal Folha do Norte, coluna "Caminhando pela cidade", 26 de agosto de 2011.

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