segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O CRAVO E A ROSA

*Por Alesandra Marques Cerqueira

A flor amou o cravo.
A flor sofreu pelo cravo.
A flor desejou o cravo.
A flor adoeceu pelo cravo.
A flor quase enlouqueceu pelo cravo.
Porém, o amar, sofrer, desejar, adoecer e enlouquecer,
Fez com que a rosa, aparentemente frágil e imatura,
Crescesse e amadurecesse.
Talvez não totalmente,
Mas o suficiente para seguir em frente.
Percebeu que ela é mais do que parece ser.
E é mais forte do que pode imaginar,
Mas essa força não veio do nada;
Buscou desesperadamente em outras rosas
E em seu melhor amigo e criador.
A rosa continua caminhando.
Por vezes lembrando-se do cravo.
Mas não como o Deus de sua vida,
Como precisasse dele para viver.
E sim como um enigma
Que traz muitas perguntas
E nenhuma resposta.
E talvez por isso, deixa-se que ele
O visite de vez em quando
Em seus pensamentos e coração.
Porém, com toda convicção de liberdade.

* Alesandra Marques Cerqueira é estudante de Licenciatura em Letras com Espanhol na Universidade Estadual de feira de Santana.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

SEMPRE ACONTECE...

* Por Nádia Rocha


E do nada bate uma saudade... De coisas que vivi, dos velhos tempos, de ontem, coisas que marcaram e jamais serão apagadas. Ah! Quem dera por um instante eu pudesse reviver cada um, sei que não é possível, porém queria que fosse. Às vezes dá vontade de voltar no tempo, sorrir novamente, aquele sorriso que por horas durou, aquele sorriso que a barriga chegou a doer de tanto rir. Dá vontade de dá um abraço naquela pessoa que muitas vezes abracei, mas queria ter a oportunidade de dar outro bem apertado. Dá vontade de dizer “te amo” a quem eu verdadeiramente amo e não sei o porquê de nunca ter dito, ou ocasionalmente não ter passado em minha mente dizer quando me encontrava com ela. E sempre me pergunto: por que não fiz isso ou disse aquilo? Eu poderia ter falado ou feito dessa maneira... Logo vem aquele “arrependimento” básico que ficamos por horas pensando e reinventando formas de como teria sido se eu tivesse mais uma chance. E sabe por que ele vem? Para quando eu e você tivermos outra chance de estar com a pessoa, possamos dizer o que uma vez não falamos. Então, que não percamos tempo de falar, demonstrar, abraçar e dizer o quanto alguém é especial e importante em nossa vida, pois o tempo não volta. Outras oportunidades virão, mas jamais da mesma forma. Não as espere, fale na primeira que tiver. Pense: e se fosse o último encontro com essa pessoa?! Aproveite cada oportunidade, todo dia, o dia todo! 

* Nádia Rocha cursa Letras com Espanhol na UEFS.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

OCULTO

Por Tainá Lima*

Quando estás dentro de mim,
devorando-me, chegas ao meu coração,
arranca a minha alma, rasga-me em mil pedaços...
Eu me perco em nossos desejos
e me encontro em teus braços,
No compasso rítmico de nossos corpos juntos.
Você, de uma forma tão voraz,
abraça-me por trás,
é possível sentir teu sexo dilatando,
competindo espaço entre você e eu.
Com suas mãos tremulas,
acaricia todo o meu corpo:
len...ta..men..te [···]
Nossos corpos, um oceano.
Maré cheia, delirante
Sua respiração ofegante
me fazendo estremecer de desejo.
Num descompasso ardente
seus lábios beijam os meus [...]
Um pequeno momento eterno...
Entre o desejo e eternidade.
Entre você e eu.

*Tainá Lima cursa Letras na UEFS.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Se eu não existisse...


Por Luciene de Queiroz Costa*

Não se sabe ao certo onde e quando ele nasceu.  Hoje eu apenas tenho uma certeza: que em seus primeiros dias de vida teve a mãe por perto para lhe dar o precioso alimento – leite materno. Nada mais! Não sei como vivia, ou se tinha irmãos, onde dormia, do que brincava, do que gostava... Negro, raquítico, grandes olhos, pernas compridas e finas.

Talvez por conta da sua aguçada curiosidade de criança, ele tenha resolvido, naquela tarde de verão, ir brincar nas ruas do bairro do Jardim Cruzeiro, sem sequer imaginar que o seu destino iria mudar completamente e para sempre.

Assim que chegou à calçada viu um objeto estranho parado perto de onde estava. Era gigante! Jamais havia visto tal coisa em sua breve vida. Era vermelho com tiras laterais pretas, possuía rodas e vidros que brilhavam a luz do sol. Um medo enorme tomou conta do seu pequenino ser. O que era aquela coisa? O que fazia aquela coisa? Aproximou-se e percebeu que o gigante estava imóvel. Resolveu investigar um pouco mais. Subiu nele, examinou cada detalhe, seu cheiro, sua cor e viu que aquela coisa, além de gigantesca, tinha esconderijos incríveis por dentro!  Era tudo muito novo, parecia um labirinto com várias entradas e saídas, maquinário estranho, cheiros fortes, ambiente quente. A excitação daquelas descobertas o fez esquecer-se do tempo que passava e da noite que se aproximava. Era tudo tão magnífico, tudo tão deliciosamente fascinante que nada mais importava...

A noite chegou e a escuridão tomou conta de tudo. Ele não conseguia ver nada em volta de si. Mas que importância isso tem? Afinal ele estava dentro do gigante e sentia-se orgulhoso de sua conquista! Foi tudo muito rápido quando começou a ouvir vozes e o gigante – agora acordado - passou a se mover. Seu medo cresceu dentro do peito e ele só teve chance de se agarrar para que não caísse ou fosse devorado por aquele barulho ensurdecedor! Deve ter gritado, pedido por socorro e se arrependido de ter entrado ali sem autorização. Tudo em vão. O gigante andava e balançava e ignorava aquela intrusa presença dentro de seu interior. Foram terríveis os minutos que se passaram até que o gigante parasse novamente em frente a uma casa verde. O pequenino estava em choque. Imóvel. Sua respiração estava ofegante. Sua voz mal conseguia pedir para ser escutada, mas ela foi ouvida em algum momento desse interminável percurso.

Enquanto ele tentava raciocinar e entender o que estava acontecendo, o gigante se abriu e ele pode enfim ver que estava num ambiente totalmente novo. Continuava em pânico. Um rapaz, um pouco mais velho que ele e tão raquítico quanto, o retirou de lá. Eles não se falaram. Nenhuma palavra foi dita. Ambos estavam assustados com aquele inusitado encontro. 

A dona da casa verde, que vivia em sua janela à espera ninguém sabe de quê, viu a cena. Não queria participar dela, apenas assisti-la como sempre fazia. Ela já tinha problemas demais, e ver a vida alheia correndo lá fora a fazia esquecer-se da sua inútil existência. Inacreditavelmente a vida dela também estava prestes a mudar naquele momento e para sempre quando o rapaz virou-se para ela e disse: “Moça, quer ficar com ele pra você? Se não quiser deixe-o na rua mesmo pois eu vim de longe, estou indo para a igreja e não posso levá-lo”.  Agora eram três os assustados – o rapaz, a dona de casa e o negrinho. “Com que direito este rapaz se dirige a mim? Como foi capaz de tamanha frieza ao perguntar tal coisa? Que espécie de ser humano é esse que age assim tão secamente? O que vou fazer com este ser indefeso?” Foram tantos sentimentos e dúvidas numa fração de segundos difícil de imaginar, mas ela, ainda atônita, acabou por acolher o pequeno.

A primeira coisa que fez foi oferecer um pouco de água e comida. Depois pensou o que faria com aquele ser feio, subnutrido e negro. É preciso que se diga que não era racismo, mas é que ela conhecia um pouco do mundo e sabia do preconceito que existe. Já era tarde, arrumou um cantinho pra ele dormir e esperou que como mágica aquele problema se resolvesse no novo dia que surgiria. Ela tinha medo, já havia enfrentado a família para poder acolher em sua casa outra vítima do abandono e achava que não seria capaz de fazer isso novamente.

O tempo foi passando... o pequenino foi se desenvolvendo, ganhando saúde corpo e beleza, conquistando a todos com suas gracinhas infantis. Recebeu o apelido carinhoso de “Estrupício”, mas ele nem parecia se importar com isso, afinal havia vencido o gigante e agora tinha uma família carinhosa, cuidados e mimos que muitos de sua raça jamais terão!

Estrupício hoje é o xodó da casa verde, muito carinhoso, doce, educado. Aquele gatinho feio e raquítico ficou no passado. Ele se transformou num lindo gato preto que, juntamente com sua dona, acolhe todos os outros que chegam perdidos e abandonados como ele um dia chegou!

A dona da casa verde hoje tem consciência de que sua vida não é inútil. Ela aprendeu que a vida é muito maior que uma janela e que sempre existirão gigantes para enfrentar! Aprendeu que vitórias e derrotas fazem parte da caminhada! E, se perguntarem a ela o que seria do século se ela não existisse, a resposta seria imediata: “do século eu não sei, mas sei que a vida de dezenas de felinos que ajudei não teria o mesmo final feliz que tiveram!”.


Luciene de Queiroz Costa é aluna do curso de Letras Vernáculas e moradora da Casa Verde desde 2006.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Ninguém quer ser negro

Por Rosana Carvalho Brito*

Certa vez entrei em um estabelecimento para tirar xerox de um documento. Fui atendida por duas funcionárias de aparências próximas, curiosa para saber se guardavam algum parentesco entre si, interroguei uma delas, essa com um tom brincalhão, me respondeu de pronto “Minha irmã? De jeito nenhum, na minha família não tem preto” nisso a outra irritada revidou “Essa é boa! Uma nega de dá veneno, falando de mim”. Eu percebendo que a discussão se estenderia, recebi meus papéis, paguei e tratei de sair de lá. No caminho de volta não pude deixar de me perguntar qual era o critério que a moça que interroguei usou para não se classificar como negra, ela se parecia com a outra inclusive no tom da pele, se diferenciava apenas por ter cabelos mais claros, com fio reto e aparentemente mais fino. Como essa moça, muitas outras pessoas fazem toda questão de deixar claro que não são negras, mesmo quando são. Isso leva a uma conclusão bem óbvia: atualmente os negros ocupam funções sociais que no passado pareciam inalcançáveis, mas, ainda assim são vistos com um olhar diferente, tanto é que poucas pessoas não têm vergonha de afirmar: “Eu sou negro”. 

Feira de Santana, 25/04/2013

*Rosana Carvalho Brito é estudante de Letras Vernáculas

terça-feira, 1 de outubro de 2013

MEMÓRIAS

Por Bruna Maria*

No momento em que eu me preparava e arrumava todos os objetos nas caixas para a minha mudança, entrei em meu quarto, comecei a separar todas as peças com a maior sutileza e paciência; uma por uma. E nesse mesmo instante em que eu revirava o meu aposento, encontrei um velho baú, o qual eu não me recordava da existência, ele estava completamente empoeirado, possuía um cadeado com marcas de ferrugem e envelhecido. Acredito que assim como o nosso corpo sofre com as assolações do tempo e as mudanças do meio, com ele não poderia ser diferente. Olhei-o fixamente durante alguns minutos, tentando evocar alguma lembrança do que ali eu havia preservado. Mas, em mim, das poucas recordações que existiam, eram distantes e vez por outra me deixavam com uma enorme sensação de vazio.
 
Provavelmente a chave daquele ferrolho devia ter se perdido nas bifurcações do mesmo recinto em que me encontrava. Com isso, não hesitei em procurar algo que desfizesse aquele obstáculo ao qual fui imposto. Encontrei uma espécie de martelo, ou algo que o imitava; peguei o baú e lancei sobre o cadeado uma bordoada que rapidamente fez com que o mesmo se abrisse. Nesse intervalo, sentei-me no chão e cuidadosamente fui levantando a parte superior da canastra. Ao abrir a mesma por completo, fui tomado por uma surpresa imensa. Ali haviam histórias representadas em cartas e fotografias que marcaram profundamente a minha vida. E, sentado naquela superfície plana, fui golpeado por um intenso sentimento de devaneio e nostalgia. Espalhei todo aquele tesouro no piso da minha alcova. Talvez algumas pessoas me achassem um longevo desatinado e se perguntassem: “Como ele pode considerar um amontoado de papéis velhos e lívidos uma riqueza?!”. E eu simplesmente deixaria um sorriso escapar e no meu mais íntimo responderia: “As lembranças são as maiores riquezas que possuímos, sendo assim, aquele sim era o meu verdadeiro tesouro...”.
 
Enquanto os meus olhos se perdiam naqueles envelhecidos retratos um tanto desbotados devido ao longo período que passaram dentro daquele baú, eu me esvaía em risos largos e utopia, mantendo assim uma ânsia imensurável de rememorar aqueles momentos similares. Além disso, diante de todas as fotografias que ali estavam, havia alguns envelopes que se perdiam no meio delas. Sobrescritos que carregavam cartas, as quais nunca foram entregues ao destinatário. A maioria delas eram minha, eu as escrevia e guardava. Embora não me faltassem palavras para descrever o meu sentimento por aquela que foi a minha vida, eu me tornava um fraco e desencorajado no momento de enviá-las para Antônia. Era assim que ela se chamava. Uma mulher de cabelos longos e negros, a qual possuía uma espécie de áurea que emitia uma paz somente através dos seus olhos. E dentre todos os meus escritos, encontrei um da minha querida Antônia. Nesse exato momento, o meu coração pulsou mais forte em meu peito, entretanto, retirei-o do envelope e desdobrei a folha pacientemente, apesar da tinta da caneta estar um pouco apagada em algumas partes no papel, não foi o suficiente para me impedir de ler a sua composição de palavras ali escritas. Com os meus olhos fixos nela, comecei a leitura:
  
“São Paulo, 19 de maio de 1948,
Meu querido Eduard,
Enquanto o sol brilha lá fora e sem que eu permita invade o meu quarto desfazendo todos os vestígios de névoa, encontro-me nesse exato instante sentada em minha escrivaninha, com uma caneta em mãos, buscando selecionar as poucas palavras para descrever o quanto a sua falta se faz presente nos últimos dias. Hoje, retornei ao parque onde costumávamos nos encontrar; sentei em um daqueles bancos que ficavam de frente para a lagoa e para aquela paisagem vislumbrante. Foi quando sem querer percebi a presença de um casal de idosos no banco ao lado. Eles se acarinhavam e amavam-se de uma forma tão pura e suave... aquilo era tudo tão lindo e ao mesmo tempo tão triste! Enquanto eu os observava sendo embalados pela canção do amor, sentia uma sensação áspera em meu peito, a saudade ia me dilacerando por dentro, pois a todo momento eu era invadida por doces e saudosas lembranças de nós dois. Passei quase duas horas lá, logo em seguida voltei para casa, e mesmo fraca resolvi escrever-te. Meu querido, tantas coisas aconteceram depois da tua partida. O ambiente mudou, os ares mudaram... a minha vida modificou... Sabe todos aqueles meus sonhos, planos e o destino que havia planejado para mim; para nós? Eles se desfizeram como grãos de açúcar em um copo d’água. Nesta manhã, descobri que tenho pouco menos de dois meses de vida. Sinto que esta será a última carta que te escrevo. Por favor, peço que não se desespere. O amor quando é verdadeiro sobrevive até mesmo à morte. E o nosso já superou tantas coisas, não é mesmo? Essa será apenas mais uma. Sabe meu amado, enquanto preencho estas mal traçadas linhas com respingos de tinta, caem poucas e silenciosas lágrimas dos meus olhos.  Por mais forte que eu tente ser, a cada palavra que está sendo posta nesta carta isso se torna cada vez mais impossível. Tenho a violenta sensação de que o meu coração vai sendo contraído aos poucos... Mas, eu te prometo lutar com todas as minhas forças para vencer esta doença e ficarei te esperando para nos envolvermos nos laços do fascínio debaixo de cada raio de luz solar. Para que possamos recuperar o tempo perdido, retomando todo o nosso amor.
Amo-te, para sempre!
De sua querida e eterna,
Antônia.”
 
Eu me encontrava oco, vazio, assim como aquele quarto. Ao ler cada palavra que se encontrava naquela velha folha amarelada, eu ia me perdendo em supérfluas e excêntricas memórias do meu passado. Mas, aquela carta foi o suficiente para fazer com que eu desmoronasse juntamente com o temporal que caía do outro lado da janela, enquanto um nó atravessava a minha garganta e algumas lágrimas escorriam pela minha face. Contudo, as enxuguei, levantei-me daquele chão, saí do meu quarto, tranquei a porta e mantive o meu silêncio.

Segurando um ramo de jasmim, a sua flor predileta, fui até o local onde Antônia havia sido sepultada, nenhuma palavra saía da minha boca, o meu desespero, meu pranto estendido e os soluços cada vez mais intensos, já falavam o bastante por mim; enquanto em meu mais íntimo me perguntava: “Meu Deus, porque eu fui fraco? Porque eu fugi daquilo que eu sentia? Porque eu te abandonei, meu amor? Por quê??!! E agora eu te perdi, não digo que para sempre, pois nada se perde para sempre... Fiquei ali entrementes algumas horas, estático e calado e com a sensação de que facas adentravam o meu corpo... E hoje, eu, um homem de 65 anos, levo comigo apenas as lembranças daqueles momentos que para mim, sem dúvidas, foram únicos. Além da paz do olhar de Antônia. E assim, espero calmamente pelo dia em que nos encontraremos pela segunda e última vez, para rememorar aqueles velhos instantes e para que possamos nos amar além do incontável e da perpetuidade. Pois, eu sei que o nosso amor ainda sobrevive em mim; em nós... E dessa forma, ultrapassa os estorvos da morte, aquilo que para muitos é o fim, enquanto que para mim, é apenas mais um recomeço do outro lado da vida.

* Bruna Maria é estudante de Letras Vernáculas na UEFS.

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