quinta-feira, 22 de agosto de 2013

A carta

Por Romário Sena*

Marina era uma menina jovem, inocente, meiga e cheia de sonhos. Vivia em um mundo diferente de todas as garotas de sua idade, não gostava do clichê que era ser garota. Ter que sempre ser comportada, sempre bem arrumada, sempre pintada. Ela gostava mesmo é de ser livre, viver de forma simples e confortável, mas sempre fora mal vista por tal comportamento.
Um dia na volta da escola viu um jovem rapaz, ele trabalhava em uma loja de CD's que acabara de ser inaugurada, ficou encantada com o rapaz, mas não sabia quem ele era.  Teve vontade de ir à loja de imediato, apenas para ter conhecimento de quem era ele, mas desistiu. Os dias que se seguiram ela continuou a observá-lo de longe, até que enfim tomou coragem e foi até à loja só para tentar um contato. Após a visita ficou ainda mais encantada com o olhar, o sorriso e o jeito daquele menino.
Pra sua surpresa, tudo veio a mudar, não de forma ruim, mas pra melhor. Ela chegou à escola e deparou-se com uma figura nova sentada na sala, havia poucos alunos na sala ainda e o professor ainda não havia chegado. O nome dele era Mike, e ela não sabia como se comportar agora com ele tão próximo e tão lindo. Então após alguns dias, eis que houve o primeiro contato, um professor fez uma atividade em dupla e eles por obra do destino ficaram juntos. Foi o contato inicial e mais importante para que ele e ela começassem a história mais linda já vivida na vida de ambos.
Tudo a partir daquele trabalho em dupla foi diferente pra ela e também pra ele. Tornaram-se cada dia mais próximos e cada vez mais ela se apaixonava por ele. E até que enfim o inevitável aconteceu, eles estavam saindo da loja onde ele trabalhava e por um descuido, ela desequilibrou-se e ele num movimento rápido e preciso a segurou e a aproximou tanto de seu corpo que aquele contato foi inexplicável; e então aconteceu, o beijo foi inevitável e aquele momento singular parecia ser eterno. Abraçados, próximos, um desejando ao outro. Então, a partir daquele beijo, o que ela já sabia aflorou-se também nele. O amor se escancarou naquelas almas jovens e tão únicas, tão cheias de sede de carinho, amor, de vivacidade, de reciprocidade.
Dali a diante eles viveram uma história de amor cheia de veracidade e cumplicidade, onde um acrescentava ao outro e sempre havia respeito. Fora um tempo de momentos único na vida deles. E Marina sentia-se cada vez mais completa ao lado de Mike. Mas de forma drástica, as coisas dali a alguns dias as coisas iriam mudar completamente. Marina iria receber uma notícia que iria dar um giro de 360 graus em sua vida.
Após uma vista de rotina ao médico, veio o diagnóstico de uma doença muito grave, que se não fosse tratada desde o início as chances de cura eram baixíssimas. E nela já estava em estágio avançado, fora um tormento pra ela a partir daquele dia ficar próxima ao seu amor. Por fim, resolveu aproveitar cada minuto ao lado dele, desfrutar ao máximo cada momento com ele, que é o único que despertou o sentimento mais verdadeiro e mais bonito que os humanos podem ter: o amor. E passou um mês de intensidade ao lado dele, cada sorriso dado por ele, cada gesto, cada palavra, foram guardados como únicos por Marina. 
Mas após outra visita ao médico, ele deixou bem claro que não restava muito tempo de vida a ela. Ela após sair do consultório, resolveu escrever uma carta e falar tudo que sentiu e sente por Mike.


Marina, 20 de setembro de 1997

Querido Mike, eu te amo. Desde a primeira vez que lhe vi, senti que o mundo havia mudado pra mim. Tudo teve outro sentido em minha vida e no nosso primeiro beijo, eu senti o calor de sua pele. Senti o teu abraço e não quis mais sair dele, gostaria de permanecer protegida ali por mais um, dois, três, cinco, sete, dez minutos, por toda minha vida. Foi tão significativo poder estar com você, mesmo que por pouco tempo, suas palavras foram as que me deram mais confiança. O "eu te amo" na hora da despedida me deu mais gás, é verdade, você tem esse potencial de me deixar melhor, é uma pena que não poderemos envelhecer juntos. Queria ser alguém melhor e sempre que você precisasse fazer você bem, mas sou falha e não conseguirei, fui chamada a uma viagem sem volta. Eu vivo nessa infinita oscilação e, só você me entende. Só você entende essa minhas fases, que me deixam nesse mar de incertezas. Gostaria de ter me entregado por inteira a você, mas não pude seria injusto com você. Meu amor me perdoe por nunca ter te falado o que se passava comigo, mas foi por amor e pra lhe poupar. Sempre estarei com você, te amo além do infinito."

Esta foi a carta deixada por Marina para seu grande amor Mike, ninguém sabe até hoje onde ela está enterrada. Após ter escrito a carta, ela viajou e não mais voltou para sua cidade natal.

*Romário Sena é graduando do quarto semestre de Letras Vernáculas da UEFS.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Renovando os votos

Por Danilo Cerqueira*

Foto: Carlos Augusto (Guto Jads) - Jornal Grande Bahia)

Escrever, aliás, é um andar ao encontro dos outros, sem deixar de ser um passeio de si próprio. José Jerônimo de Morais. Parlendas (1995).

Uma reunião com poucas pessoas, duas, ao todo. Provavelmente, a Biblioteca Municipal de Feira de Santana não será o espaço para grandes discussões por algum tempo. Mas isso não quer dizer que não tenhamos boas surpresas. Os ótimos e esticados momentos da Graduando no prédio público municipal puderam acontecer, desta vez, numa conversa com um (a) calouro (a) de outra instituição de ensino superior. Talvez mais superior do que o nível educacional referente aos envolvidos na conversa fosse a nossa disposição ao falar do cotidiano de uma universidade a partir do (s) ponto (s) de vista de uma publicação acadêmica. Nossa disposição para alimentos, muito intensa já naquele horário, não impediu que, novamente, a Graduando efetuasse “um longo e frutuoso diálogo do curso ‘consigo’”. (apresentação da 3ª edição da revista).
Conversar com um (a) estudante de outra instituição foi uma experiência importante, não simplesmente por divulgar a revista ou torná-la conhecida fora dos “muros imaginários” da universidade. Percebemos que as ações da Graduando podem ser feitas e estimulantes não apenas no curso de Letras da Uefs, não apenas nos cursos que atualmente a Uefs abarca em suas dependências, não apenas numa instituição de ensino público, não apenas numa instituição de ensino, não apenas numa instituição. Estava-se ali, na Biblioteca Municipal de Feira de Santana, para compartilhar uma experiência e perpetuar, não uma ação pontual ― equivocadamente entendida como modelo estático para “imitações baratas” ―, mas um entusiasmo criador de novas e contextualizadas ações em qualquer que seja o lugar onde se está. Não foi uma conversa de emissor para receptor. A definição de direção e papéis comunicativos não deve ser algo tão importante numa conversa sobre um periódico acadêmico. Todos (os três) estávamos envolvidos, pelo menos, nestas duas categorias em torno do momento mágico ― porque interativo ― que é a comunicação. Se alguém fica de boca aberta durante alguns momentos numa visita ao circo, ficamos de boca aberta (com um sorrisinho) quando percebemos, depois, o que estávamos fazendo, e, acreditem, o que já havíamos feito até aquele momento. O (a) estudante havia passado por um cursinho pré-vestibular no qual havia sido ensinado (a) por alguns de nossos colaboradores (entendamos colaboradores como membros do conselho, comissão, articulistas, imagistas, poetas e poetisas, cronistas, revisores ― e revisoras ―, comentaristas, fotógrafos ― e fotógrafas ―, enfim, pessoas que, de alguma forma, contribuem para a Graduando). Fomos percebendo, nas feições e interesse do (a) estudante, as mesmas questões que nos espantaram e nos entusiasmaram quando iniciamos a revista, em 2010. O reconhecimento de nossos colaboradores no processo de aprendizado de um (a) estudante que culminou em sua entrada no ensino superior ― por ele próprio ― criou um vínculo entre ele (a) e nós. Seu estranhamento quanto ao universo acadêmico no primeiro semestre, acreditamos, foi sendo diminuído ao longo de uma conversa de mais de duas horas. E também aprendemos com isso (vai aqui um “Muito obrigada!”, pois nos baseamos no gênero da palavra revista para agradecer).
Reconhecemo-nos enquanto colaboradores ― diretos e indiretos em espaços não delimitáveis ― do processo de ensino e aprendizado de mais um (a) novo (a) estudante do ensino superior feirense.

* Danilo Cerqueira é graduado em Letras Vernáculas pela UEFS, cursa o mestrado em Literatura e Diversidade Cultural na mesma instituição e é membro do conselho editorial da revista Graduando.

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