quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

A UM COMENTÁRIO ANÔNIMO 2

O seguinte comentário foi feito neste blog, na postagem “SOBRE UM CAPÍTULO DE ‘AULA DE PORTUGUÊS’”, texto cuja autoria é de um dos membros do conselho editorial da Graduando:


“Esse pessoal num larga o osso! A revista nasceu para ser veículo de promoção das atividades e das produções discentes da graduação, mas infelizmente essa galera até hoje não permite que os graduandos, como possam, desenvolvam-se no espaço da revista como esses que estão aí nos textos e nas fotos se desenvolveram... Lamentável!”


Depois de ler e discutir sobre esse comentário as ideias de seu conteúdo numa reunião do periódico, optamos por publicar um texto representativo da posição desta publicação acadêmica da Graduação em Letras da UEFS.

O texto do Anônimo registra que “esse pessoal num larga o osso!” Provavelmente o Anônimo dirige-se para o autor do texto, membro do conselho editorial, e demais licenciados em Letras Vernáculas, membros do conselho editorial e alguns colaboradores, pessoas graduadas em Letras pela UEFS e, agora, sem vínculo institucional com a graduação em Letras, motivo pelo qual provavelmente é utilizado pelo Anônimo a expressão “não larga o osso!”.

O Anônimo também escreveu, com expressiva convicção, que a revista nasceu para uma finalidade que não seria a que está realizando. Considerando o que entendemos sobre o que registrou no blog, propomos que seja necessário ao Anônimo e a todos os interessados em utilizar veículos públicos para emitir opiniões sobre a revista:

* Comparecer às reuniões do periódico – lá é possível conhecer, em fato, o que pensamos e fazemos pelo curso e para o curso, o quanto procuramos colaborar, na qualidade de revista, para a melhoria dos conhecimentos de leitura e escrita relacionados ao curso de Letras da UEFS, e, principalmente, para melhor ciência de realidade do graduando em Letras em relação ao conhecimento do próprio curso e das implicações relativas à própria prática acadêmica e profissional;

* Ler os editoriais das edições lançadas pelo periódico – neles, o conselho editorial apresenta, entre outras questões, sua visão a respeito de como tal contribuição acadêmica discente pode ser mais efetiva e incentivadora para o leitor do periódico, seja ele quem for, valorizando a área de estudo contemplada pela Graduando, os públicos incluídos na preparação, os espaços que colaboram para que pessoas e seus os textos se materializem em artigos e resenhas, reunidos e organizados em torno da publicação de uma instituição de ensino superior;

* Visitar o blog e o site da Graduando e acompanhar as atividades registradas ao longo dos 5 (cinco) anos de ações da revista – uma série de atividades de apoio e valorização definem a evidente postura colaborativa da revista para com o graduando em Letras da UEFS, consequentemente com o perfil profissional destas licenciaturas: 1) espaço para publicação de artigos e resenhas, com ou sem orientação; 2) possibilidade de participação em reuniões, além de colaboração e coordenação direta das atividades do periódico; 3) envio exclusivo de propostas de imagens para a capa do periódico desde a segunda edição; 4) espaço disponível para publicações não acadêmicas em um blog, como exercício de escrita e incentivo à leitura, espaço por meio do qual o graduando lê e relê o curso, pelo que é produzido, em muitos casos, por ele próprio (embora a publicação dependa de consenso do conselho editorial, nunca houve censura à publicação de qualquer texto);

* Conversar com pelo menos duas pessoas ligadas diretamente às atividades internas do periódico em seus 5 (cinco) anos de atuação, ou seja, membros e/ou ex-membros do conselho e colaboradores de quaisquer das edições, ou mesmo pessoas que participaram de qualquer reunião do periódico;

Julgamos que o comentário apresenta argumentações que não condizem com o que é proposto, discutido nas reuniões e realizado em nome da revista Graduando no curso de Letras da UEFS. Episódios em que membros da revista, como escreve o Anônimo, não permitem “que os graduandos, como possam, desenvolvam-se no espaço da revista como esses que estão aí nos textos e nas fotos se desenvolveram” são argumentativamente descreditados em nossas reuniões, nos momentos em que se discute as implicações de qualquer ação que represente a postura da Graduando. Se quaisquer de nossos membros e colaboradores comporta-se de maneira a restringir, intimidar ou censurar a participação de graduandos em Letras (ou mesmo de outros cursos), tal atitude não é defensável nem apoiada pelo Conselho Editorial do periódico (com participação efetiva da equipe de colaboradores), conselho caracterizado, como já citamos em um de nossos editoriais (6ª/7ª ed.), segundo a ABNT, como “[...] grupo de pessoas encarregadas de elaborar as diretrizes, estabelecendo o perfil político-filosófico-editorial de uma editora [ou publicação].” Nós, responsáveis pela elaboração deste texto, sabemos que a participação do graduando em Letras na vida social, cultural e acadêmica de nossa região ainda é insuficiente, em parte por conta da falta de projetos incitativos como este periódico, realizado de maneira voluntária e sem fins lucrativos, mas reconhecendo seu papel no cenário das exigências de nosso tempo. A Graduando atua, em suma, como julgamos demonstrar com nossas ações, com a coerência em valorizar o graduando em Letras e sua formação profissional, mas não exclui participação indireta na construção ética, social e política, na medida em que lhe cabe e como pode..
Nesse sentido, lamentamos e agradecemos a oportunidade em responder a tal comentário. Explicamos as duas posturas. Lamentamos pela ainda existência de opiniões que parecem atribuir ao periódico o julgamento sem um diálogo formal e contextualizado sobre prováveis motivações e esclarecimentos. Agradecemos porque, mesmo demandando tempo para a elaboração, apresentação, discussão, revisão e publicação deste texto, o mesmo também proporciona mais um ato de reafirmação do compromisso da revista com a sua área primeira e com o seu público-alvo, embora contemple graduandos em Letras de outras instituições a partir da 10ª edição: o estudante de Letras da UEFS.

Percebemos os erros cometidos enquanto grupo, segundo a citação que inicia a postura da revista no texto publicado sobre outro comentário em 2011, presente, inclusive, no perfil da rede social do autor do texto comentado em 2015:

“O pensador vê em seus próprios atos pesquisas e perguntas para obter esclarecimentos sobre alguma coisa: o sucesso ou o fracasso são para ele, antes de tudo, respostas.” Nietzsche, A Gaia Ciência.


Atenciosamente
Conselho Editorial
Equipe Graduando

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

VIOLÊNCIA NO AMBIENTE ESCOLAR

Por Ilana Benne Falcão Maia*


“Uma Cultura de Paz é um conjunto de valores, atitudes, tradições, comportamentos e estilos de vida baseados: a) No respeito à vida, no fim da violência e na promoção e prática da não violência por meio da educação, do diálogo e da cooperação (...)” (Declaração da ONU sobre uma Cultura de Paz, 1999). Será que os professores estão preparados para enfrentar nas salas de aula, além de sua habitual jornada de trabalho, a violência da parte dos próprios alunos? A boa relação professor-aluno é essencial para o aprendizado e para que o ensino seja satisfatório. Segundo a declaração da ONU, a educação é um dos meios de se modificar a cultura da violência, mas, infelizmente o que presenciamos atualmente é algo bem diferente: professores sendo agredidos por alunos quando esses deveriam respeitá-los e professores fazendo o mesmo quando o aluno deve ser acolhido. A violência vai desde ofensas verbais a agressões físicas, rebeldia, chegando a extremos como ameaças, alunos que portam facas e armas de vários tipos dentro das escolas. Isto afeta não só a instituição em si, mas também a sociedade como um todo, sendo as principais vítimas os próprios. Logo, a aprendizagem escolar fica prejudicada. O objetivo principal deste texto é refletir sobre a violência no ambiente escolar e porque ela acontece, o que desencadeia tais comportamentos.

Entendemos por violência a ação de intimidar, causar dano físico ou moral a outra pessoa. Tais agressões podem causar danos a curto ou longo prazo. No caso da violência escolar, as ações podem prejudicar não só a vida social como a aprendizagem do aluno, a qualidade de trabalho do professor e todo o sistema escolar.

A atual situação da educação no Brasil é de descaso, tanto na qualidade do ensino quanto nas condições de trabalho de professores e funcionários. O quadro de violência contra professores e alunos vem aumentando a todo o momento. É como se alunos e professores “não falassem a mesma língua”. De onde surge tanta intolerância? Faltam políticas públicas para resolver esta situação tão alarmante. O levantamento de respostas da Prova Brasil mostra que, em 2007, cerca de 2,3% (6.677) dos professores afirmaram terem sofrido agressões de alunos. Em 2011 os números continuaram similares. Para a pesquisadora Mirian Abramovay, da UNESCO, todo esse quadro é reflexo do descaso na educação. Para ela, a “estrutura da escola remonta ao século XIX, professores dão aulas como no século XX e alunos vivem conectados ao século XXI”, há então um descompasso. Ainda segundo a pesquisadora, a violência não é consequência do ambiente em que a escola se encontra. Tanto escolas públicas quanto particulares sofrem com essa triste realidade. Jorge Wherthein, ex-presidente da UNESCO, diz que “uma nova cultura da solução não violenta dos conflitos deve começar na escola.”

Percebe-se que hoje o maior problema é o desgaste da instituição familiar, desajustes familiares, falta de planejamento, enfim, diversos fatores que contribuem para que o jovem viva em uma estrutura pouco sólida e com bons exemplos. Içami Tiba (2009) diz que a família, assim como uma equipe, deve trabalhar em conjunto, um em prol do outro. A falta de estrutura familiar é independente de classe social, mas, sobretudo, percebe-se sua ocorrência mais frequente em classes mais baixas, devido à falta de planejamento familiar.

Segundo o guia Diálogos e Mediação de Conflitos nas Escolas, escrito pelo promotor de Justiça no Estado de São Paulo: a escola é palco de uma diversidade de conflitos, sobretudo os de relacionamento, pois nela convivem pessoas de variadas idades, origens, sexos, etnias e condições socioeconômicas e culturais. Todos na escola devem estar preparados para o enfrentamento da heterogeneidade, das diferenças e das tensões próprias da convivência escolar, que muitas vezes podem gerar dissenso, desarmonia e até desordem. (2014, p. 26).

É justamente neste ambiente heterogêneo que o professor deve, portanto, fazer seu papel de mediador. Numa mesma sala de aula, podem encontrar-se um aluno que tem problemas familiares sérios de violência doméstica, uso de drogas, alcoolismo, abuso sexual, por exemplo, com uma criança ou jovem que viva num ambiente considerado “saudável” para seu desenvolvimento.

Porém, a escola sozinha não pode resolver todos os problemas. Existe todo um contexto envolvido: político, religioso, comunidade, principalmente, a família saber que a educação parte de casa. Caso a base familiar do indivíduo não seja tão sólida, a escola entra como mediadora, através de projetos para melhor lidar com aquele aluno. Com isso, percebemos que os cursos de licenciatura e pedagogia não têm preparado os professores para lidar com situações extremas na sala de aula. Existe uma lacuna muito grande entre a teoria e a prática, o que dificulta a aprendizagem em situações extremas, como a violência física por exemplo. Uma professora pode dominar perfeitamente a teoria, foram anos de estudo para isso, porém, ela não está preparada para reagir adequadamente caso seja agredida por um aluno.

A desvalorização do professor, hoje em dia, é tanta que a violência contra ele chega a ser banalizada. Existem dois lados a serem observados: a família como estrutura e base para a criança, para formação do seu caráter, e a escola que deve estar preparada para tais situações, priorizando o ensino e a formação do cidadão. Esta, também, deve visar o bem estar do aluno para que sua permanência na escola seja sadia e não traumática. Essa realidade não existe somente nas escolas públicas. Apesar do pouco investimento em educação, das más condições com que muitos professores dão aula, e de toda a precarização em que o sistema de educação pública se encontra, nas escolas privadas também acontecem casos de violência entre professores, alunos e funcionários. É então que surge o questionamento de se o meio é que realmente influencia para a violência. O medo, a falta de experiência de muitos profissionais, traumas por já terem presenciado episódios de violência, preconceito contra alunos de classes mais baixas, falta de preparo dos cursos de formação de professores, enfim, diversos fatores que só dificultam o processo ensino-aprendizagem, visto que este está abalado pelos constantes episódios de violência no âmbito escolar.

Vê-se cada vez mais ser atribuído à escola o papel de educar. Transfere-se para a instituição “escola” a responsabilidade que antes era dos pais, ou deveria ser. A imagem dos pais presentes na vida do filho tem função emocional. A família é formadora do caráter que aquele indivíduo irá possuir. É difícil para a escola, abrigando tantas realidades diferentes, dê conta da educação no sentido de estrutura emocional, de formação de caráter, de todos seus alunos. O que se observa é esta transferência da responsabilidade de educar dos pais para a escola. Isso gera uma desestrutura na formação da criança que poderá se tornar um jovem sem bons exemplos, sem base, e isto pode então culminar em comportamentos violentos no ambiente em que ele passa a maior parte do seu tempo, a escola.

Ainda que um dos fatores da disseminação da violência escolar seja a falta de estrutura familiar adequada, a forma com que professores e alunos lidam entre si também interfere neste processo. Segundo Abramovay (2002, p.29), “um outro fenômeno associado a situações de violência é a disponibilidade de armas de fogo e as mudanças que isso impõe às comunicações conflituosas, contribuindo para o aumento do caráter dos conflitos nas escolas.”

A educação é fenômeno de interação entre escola, família, comunidade, governo, todos que direta ou indiretamente contribuem para que a educação funcione. O professor dentro dessa teia de responsabilidades tem obrigação de acolher e expandir os horizontes do aluno, mostrando-lhe caminhos para aprender, praticando também o afeto, amparando-o. Mas, sozinho é quase impossível. Necessário se faz que a escola desenvolva projetos com a participação de todos para diminuir esse grave problema.


Ilana Benne Falcão Maia é graduanda em Letras Vernáculas da UEFS.

domingo, 6 de dezembro de 2015

HOJE

Por Tatiana F. Assis*


Hoje sinto
Vontade do que não tive
Saudade do que não fiz
Hoje quero
O que antes não quis
O que um dia previ
Hoje penso
O que é impensável
E não me atormento

Hoje sigo
Com os passos do vento
Na estrada do pensamento
Os caminhos do coração

Hoje sou
Refém da liberdade
Metamorfose da realidade
Palavras da canção


* Tatiana F. Assis é natural de Feira de Santana, BA (1981). Graduada em letras Vernáculas pela UEFS (2009), participou do Jornal Artifício do D.A. de Letras (2009), e do Concurso Feirense de Poesia Godofredo Filho, tendo esta poesia premiada e publicada no livro Antologia (2009).

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

INFÂNCIA – UMA PERFEIÇÃO QUE NÃO PASSA

Por Maria Rosane Vale Noronha Desidério*


Os passarinhos estão piando lá fora, no telhado ao lado e talvez sobre o meu também. É bom ouvi-los! Sabemos que já passou das cinco da manhã e que o sol se espreguiça, abrindo os olhos para o novo dia.

– É hora de levantar! Alguém gritando lá do fundo. A cozinha já fervilha. Mamãe e vovó preparam o café da manhã para os homens, todos trabalhadores do campo. É dia feliz. A noite foi de chuva e a terra está molhada e cheirosa. Dia gostoso, preguiçoso. Bom para dormir mais. O problema é que no sertão se deve acordar cedo. A vida começa às cinco horas, talvez antes. Certamente antes para os mais velhos ou apressados.

Eu sinto um solavanco em minha rede, é mamãe reclamando minha demora. – Vá buscar água Lisbela os potes estão secos, uma miséria! Você dorme demais. Eu durmo demais?! Essa é boa! Mamãe tinha essa mania de achar que quando o sol sai do esconderijo, ninguém pode mais dormir, é preguiça. E gente preguiçosa no campo é uma lástima! Era o que pensava mamãe nos tempos da vida na roça. Ela era assim, mas o vovô era ainda mais enérgico. Acordava antes do galo, do sol e dos passarinhos. Quando mamãe e vovó despertavam, ele já vinha chegando do curral com a vasilha cheia de leite. Dormia quando o sol se apagava e acordava antes do primeiro raio de sol apanhar o chão. Vovô sempre foi assim. Era um homem típico do sertão. Era “um forte” como bem dizia Euclides.

E eu quando acordava com os sopapos de mamãe em minha rede, corria para cumprir minhas tarefas matinais. Ia ao açude buscar água para encher os potes da cozinha, depois ia buscar a lenha para o fogo e, por fim, mamãe me fazia varrer a casa, a calçada grande da frente da casa e o quintal. Quando acabava mamãe ainda me mandava lavar a louça do café. Uma lástima! Eram panelas sujas de carvão do fogão a lenha. Eu sempre as lavava reclamando, soltando mil justificativas para não ser obrigada a fazer aquilo. Parecia uma advogada em dia de julgamento. Uma advogada, não. Uma promotora acusando mamãe. Mas claro que esse discurso ocorria somente entre os limites de meu pensamento. Se mamãe ouvisse... Hum! Daria em mim, com certeza, alguns piparotes na cara. Preferia sempre por segurança e para conservação de minha integridade física o discurso mental. Era muito mais seguro!

Eu sempre fui assim. Mania de imaginar o mundo, o sertão. O sertão para mim era maior que o mundo. Um dia o mundo engoliu o sertão e ele ficou pequeno. Foi mamãe quem me disse. Mas ainda era grande o sertão. Eu andava, andava... Olhava do alto do morro e não conseguia enxergar o fim. O sertão para mim ainda era enorme.

Meu passatempo preferido na vida era embrear-me na mata. Fugir a léguas da cozinha, dos serviços. Eu voltava para o açude. Era bom ficar sozinha lá, ouvindo o grito da cigarra até não percebê-la mais de tanto ouvi-la. Já viu? Às vezes a gente ouve ou vê tanto uma coisa que para de percebê-la mesmo ela estando ali. Lembro bem dos pés de cajarana, imbu, manga e seriguela que vovô plantou no sangrador do açude. Eu ia pra lá. Subia em uma das árvores, de preferência a de cajarana por ser mais fácil. E, com as mãos, o vestido e qualquer outro suporte cheio de frutas ia refazer meu café da manhã. Era uma festa, particular!

Mamãe reclamava das minhas fugas, mas era tão bom! Sinto saudades! Saudades de tudo. O tempo, às vezes, engole a gente, nos faz crescer sem se perceber, nos faz perder certas vivências sem que prestemos atenção. Deve ser estratégia da vida para não ficarmos agarrados, sem querermos nos desprender de tempos bons que, inevitavelmente, precisamos deixar em fazes passadas da vida. É lástima!

O campo foi minha infância. Uma perfeição. Certo que as panelas sujas de carvão ficam de fora das lembranças animadas, mas pensar na mamãe entrançando o meu cabelo em noite de luar, ouvindo a vovó contar causos do passado é doce. Lembro que à noite nos reuníamos na calçada. O vovô, o papai e alguns tios e primos riam à beira de uma fogueira, assando milho ou qualquer outra coisa de comer. As mulheres se amotinavam na calçada ouvindo a vovó ou falando todas ao mesmo tempo. Dificilmente se podia distinguir as falas de cada uma.

Era muito bom. Mas o tempo passa ligeiramente e muda tudo de lugar. Eu tive que caminhar, seguindo os seus mandos. E troquei o cheiro da chuva pela fumaça dos carros, os pés de seriguela, cajarana, manga e imbu pelos supermercados, as noites de luar ouvindo a vovó e as mulheres pelos ruídos da televisão, dos livros, do mundo. Mas o cheiro da chuva nunca saiu de minha alma, as mãos da mamãe entrançando os meus cabelos permanecem em minha memória, e as frutas do pé ainda cheiram em meu nariz, ainda as degusto em minha memória, em minha alma. A infância passa, mas os cheiros, os carinhos, as brincadeiras e repreensões nunca saem, nunca se despedem de verdade. Mesmo que o tempo amorteça nossos sentidos e corra desprendendo-os das lembranças. De repente a gente vê que nada se perdeu, tudo permanece dentro, lá dentro de nós, eternamente...

Aos que nunca se desprendem da memória porque nela guardam os cheiros da vida.



* Maria Rosane Vale Noronha Desidério cursa o 7º smestre de letras vernáculas (2015.2) na Uefs.


terça-feira, 17 de novembro de 2015

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A ESCRITA DE VICTOR MASCARENHAS

Por Neila Brasil Bruno*


Desde que lançou seu primeiro livro, Cafeína, em 2008, Victor Mascarenhas vem criando, com segurança, textos que o colocam em posição de destaque no cenário baiano da literatura. Dono de uma escrita precisa e clara, seu estilo versátil tem conquistado leitores. Um certo Mal-estar é um livro de contos, o quarto publicado por Victor Mascarenhas. O escritor também atua como roteirista e publicitário.

Em Um certo Mal-estar, é possível notar um interessante processo de construção ao considerarmos suas estratégias narrativas: é um livro com treze contos, escritos numa linguagem concisa e objetiva – onde a ficção e o cotidiano estão entrelaçados. Para tanto, o autor apresenta a vida ordinária das personagens em mínimos detalhes. Através de um estilo próprio e enxuto, o leitor é direcionado para histórias de vidas comuns por meio de uma linguagem às vezes coloquial, que se revela inovadora.

Neste post, eu gostaria de tecer algumas reflexões sobre o conto intitulado “ela”, onde o autor cria personagens misteriosas, sobre as quais descreve e insere o que imagina, interessando e envolvendo o leitor. O conto traz a seguinte epígrafe: “O seu amor é uma mentira que a minha vaidade quer (CAZUZA). A citação pode estar ligada ao conflito amoroso vivido pela personagem “Ele”. É interessante pontuar que as personagens não recebem nomes próprios, mas são simplesmente denominadas como “Ele” e “Ela”.

Narra-se no conto um vínculo conflituoso entre um homem e uma mulher. A mulher representada não é uma mulher submissa; ao contrário, trata-se de uma figura feminina extremamente livre em relação aos próprios sentimentos e aos sentimentos do outro. No transcurso da história, o narrador discorre, em minuciosos detalhes, sobre os sentimentos conflituosos e perturbadores da figura masculina em relação a “Ela”: Seria angústia por amá-la? Teria “Ela” olhos de ressaca como a personagem Capitu de Machado de Assis?

Enfim, parte da história acontece num quarto de hotel, em uma cidadezinha, durante uma noite fria. É o cenário favorável para um encontro amoroso. Mas “Ele” parece não se entregar totalmente àquele encontro, pois “Ela” pode ser simplesmente o abismo. No encontro de ambos, “Ele” não saberia definir se sentia tristeza ou felicidade; o fato é que se tornara praticamente um prisioneiro daquela relação. Para definir esse relacionamento conflituoso entre os dois, aproprio-me das palavras do poeta Carlos Drummond Andrade: “Este é o nosso destino: amor sem conta, distribuídos pelas coisas pérfidas ou nulas, doação ilimitada a uma completa ingratidão...”

Assim, no conto “Ela”, como em outros contos do autor, é apresentada uma construção narrativa dinâmica e muito criativa, capaz de convidar os leitores para uma reflexão sobre situações do cotidiano que podem acontecer com qualquer indivíduo. Nesse jogo entre ficção e realidade, refaz-se o mundo da vida, permitindo novas perspectivas críticas ao potencial receptor dessas histórias, que, revestidas com um tom crítico e algumas vezes até humorístico, levam o leitor à descoberta do real.

Esse conto pode ser conferido, na íntegra, em Um certo Mal-estar, que será lançado pela Solisluna editora em 19 de novembro, às 18:00, pela livraria LDM no Espaço Unibanco de Cinema – Glauber Rocha. Posteriormente, acredito que o livro poderá ser adquirido pelo site da editora, http://www.solislunaeditora.com.br.

REFERÊNCIAS


MASCARENHAS, Victor. Um certo Mal-estar. Lauro de Freitas, BA: Solisluna Editora, 2015.


Neila Brasil Bruno é Mestre em Letras, e professora da Rede Estadual da Bahia, possui várias publicações de artigos na área de Literatura Infantil e Juvenil. Em 2013, publicou pela editora EDITUS – UESC, o livro infantil Maricota e as formigas. E-mail: neilabbrasil@hotmail.com.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

SOBRE UM CAPÍTULO DE “MANUAL DE SEMÂNTICA”*

Por Danilo Cerqueira Almeida **


AMARAL, Luciano. Cap. 4: Semântica estrutural. In: ______. Manual de semântica. Petrópolis, RJ. Vozes, 2008. p. 59-84. 

O professor Luciano Amaral expõe, no capítulo 4 do Manual de Semântica (2008), uma análise sobre o ramo da semântica ligado à linguística estrutural, que tem como precursor e fundador da abordagem científica Ferdinand de Saussure. De maneira muito clara, o texto apresenta um percurso da semântica estrutural, cujos fundamentos remontam ao Curso de Linguística Geral (1916), construto teórico que baliza inicialmente os estudos linguísticos, e que, por consequência, também inicia as reflexões sobre aspectos da língua e linguagem que hoje estão em foco na Semântica.

Embora os estudos semânticos estruturais apareçam muito diversos, com variações metodológicas e campos de atuação vários, o autor deste panorama apresenta um texto bastante informativo e reflexivo, não só pela gama de estudos apresentados no capítulo como também pela relação de influência diacrônica estabelecida entre as abordagens. Tal recurso confere ao assunto estudado uma síntese relacionada e crítica entre os cientistas da linguagem que debruçaram sobre a semântica estrutural — a ressalva “desconsiderada” sobre a elaboração de Curso de Linguística Geral (1916) e ponderações acerca de supostas incoerências nas teorias elencadas, mediante confronto com outros teóricos e reflexões do próprio Amaral. Ao longo do texto, vemos as dicotomias saussurianas tornarem-se mote para refutações sob outros pontos de vista — Charles K. Ogdem e Ivor A. Richards (e Frege), que, por sua vez, são contestados por outros semanticistas: Eco, Ullmann. É interessante notar, no texto do capítulo, não apenas o debate entre os pensadores do significado, mas a tomada de posição por parte do escritor sobre a discussão, também evidente nas passagens sobre campo semântico (lexical) — não necessariamente classificado inicialmente assim —, criação de Jost Trier. Essa teoria é didaticamente relativizada na questão das lacunas lexicais, considerando o fenômeno do estrangeirismo e empréstimo. O mesmo acontece com os componentes semânticos, que, inicialmente subsidiados metodologicamente pelos traços distintivos (Hjelmslev), são enriquecidos por Coseriu — arquilexema e tripartição dos componentes semânticos —, o que proporcionou estudos relacionados à homonímia, sinonímia e antinomínia, em suas graduações situacionais.

A variedade de correntes de abordagem da semântica estrutural aponta para um mosaico que o texto do professor Luciano Amaral mostra com evidência, mas também mostra que há semelhanças e diferenças que devem ser observadas para o avanço dos estudos semânticos estruturais.


* Texto apresentado como avaliação parcial da disciplina Língua Portuguesa VII, na UEFS, em 2009.
** Danilo Cerqueira Almeida é licenciado em Letras Vernáculas (2010), além de especialista (2012) e mestre (2014) em Estudos Literários, todas graduações pela UEFS. Também é membro do conselho editorial da revista Graduando: entre o ser e o saber.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

UM “À PARTE” DE MÃOS

Por Danilo Cerqueira *


Dois se aproximam. Dois diferentes, ou duas diferentes, sofrem ao se aproximar. Suas duas vidas, divididas no sem-número de dias de existência, ambicionam ter uma à outra. Todos as percebem. À vista se desejam, multidão e dupla. Cada um espera ansiosamente chegar ao momento de ter em si isto que é, em parte, a marca da presença deste outrem: o olhar do outro.

A grande multidão acompanha, dia após dia, a redução dos momentos que antecedem a esse encontro. Inúmeras redes de TV, emissoras de rádio aos milhares, sites e blogs estão interessados em registrar esse fenômeno... A mídia volta-se com interesse e necessidade, como se tal acontecimento a fizesse reencontrar algum princípio existencial publicitário ou publicitante, ou mesmo público, ou mesmo coletivo.

Pessoas seguem, aguardam, suplicam inconscientemente pelo encontro. Sugerem, suscitam, implicitam mensagens subliminares, promovem comerciais incitantes e subversivos, tudo isso visando a que amigos, colegas e conhecidos induzam mais rapidamente o encontro em cada um... Mas sempre infelizes tais e incontáveis técnicas de propagação de ideias essas que, cotidianamente, insistem para que ocorra o encontro entre os dois.

Não há rostos, não há cores, não há roupas. Há apenas a necessidade exacerbada de que os dois, ou as duas, finalmente saciem a agora já infinita agonia que suplicia a população mundial.

Não se sabe porque a ausência do encontro tanto aflige o corpo da massa. Procurar motivações também não parece ser a maior preocupação dos estudiosos da Ciência, mais ávidos em aplacar a querência existencial no encontro do que teorizar sobre o fenômeno, inconscientemente quase biunívoco e, certamente, mobilizador.

Todos o esperam com grande apreensão, mas aguardam com certa eminência o acontecimento. Todos conhecem os dois, mas eles não se conhecem. Por isso, acompanham-se mutuamente, embora não tenham se encontrado. Nunca se entreolharam: feito o amanhecer e o fim de tarde, seus globos nunca poderiam se encontrar. Haveria de chegar, certo dia, um eclipse: o tempo e o espaço sempre transgredindo a lógica da imaginação, exatamente na realidade daquela fantasia que, subitamente, vê-se concretizada.

Nesse dia, a distância entre ambos se colocou abaixo de suas existências, acima da crosta terrestre e na linha de seus narizes. Finalmente cederam, à população mundial, a revelação de seus sonhos mais ressurgentes de paz e prosperidade...

O eclipse pôs a desordem em suas visões. Enfim puderam ver um ao outro, notarem-se, chegarem-se, diminuírem a distância pouco a pouco, acompanhados também pelas objetivas artificiais de aparelhos, bem como os olhos de homens e mulheres. O acompanhamento terminou por configurar-se numa apreensão sobre o que aconteceria quando o toque se confirmasse: uma revolução, uma guerra, uma nova organização de governos, religiões, organizações econômicas ou políticas, novas concepções de existência e ciência do homem e da Terra. Onde se reorganizaria a humanidade após este que seria o novo marco na história das relações do ser com seu ser e, por consequência, com todos os demais igualmente diferentes a ele?

Tudo aconteceu rapidamente...

Como disse, entreolharam-se, lembraram-se de que já haviam se visto, mas nunca aos olhos do outro: portanto, simultaneamente. Seguiram-se um ao encontro do outro. A velocidade dos passos que diminuíam a distância variava, até que se reduziu, quase parando... e parou: os olhares fixaram-se nitidamente. Um par de mãos, aparentemente desprezadas no amplo espaço, semiergueram elevadas pelos antebraços. O mundo prestes a aplaudir – infinitivamente – e a dupla, no intuito de, com as mãos, abraçarem-se, foram ao aperto.

– Muito prazer.

E o povo sorriu.


* Danilo Cerqueira é licenciado em Letras Vernáculas, além de especialista e mestre em Estudos Literários, todas graduações pela UEFS. Também é membro do conselho editorial da revista Graduando: entre o ser e o saber.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

SOBRE UM CAPÍTULO DE “AULA DE PORTUGUÊS”*

Por Danilo Cerqueira  **

ANTUNES, Irandé. Refletindo sobre a prática da aula de português. In:______. Aula de português – encontro & interação. 4. ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2003. p. 19-37.

Irandé Antunes traça um quadro da situação em que se encontra a educação brasileira em seu cotidiano pedagógico, estrutural e perspectivo. Ela procura enfatizar o atraso da classe docente quanto à realidade, a qual se insere na contemporaneidade, e a emergência de convívio com a atualização — não só dos conhecimentos técnicos, como também a atenção a aspectos sociais, sensíveis e reflexivos se tornam emergentes no perfil do professor da atualidade, ambientado com a linguagem e seus desdobramentos.  O descompasso entre teoria e prática é notório e paradoxal, quando se percebe que a ciência de que esses saberes são necessários estão presentes em documentos legais do sistema educacional brasileiro, como os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) e o Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB). Nessa orientação funcionalista, orientação cognitiva contemporânea, onde conhecimento e reflexão se mostram necessários pela via do contexto, Antunes ressalta o uso da língua oral e a reflexão acerca de seu uso, que, tomados metodológica e didaticamente, tornaram-se princípios basilares para o exercício da atividade docente na atualidade.

O quadro traçado por Antunes da educação brasileira, sob esse ponto de vista, permite — e isso é feito pela autora — inferir sugestões sobre a atividade pedagógica a respeito de quatro campos: oralidade, leitura, escrita e gramática se condensam para dar corpo à competência linguística, como também apresentam momentos que ainda chocam os educadores brasileiros. Ao discorrer sobre esses problemas do ensino brasileiro, Antunes diagnostica incoerências no sistema educacional do país, mas também aponta saídas metodológicas para trabalhar em sala de aula, fruto, segundo a autora, de muita reflexão sobre suas (e de outros) experiências vividas no espaço de ensino por excelência.


* Texto apresentado como avaliação parcial da disciplina Metodologia do Ensino da Língua Portuguesa, na UEFS, em 2009.
** Danilo Cerqueira é licenciado em Letras Vernáculas, além de especialista e mestre em Estudos Literários, todas graduações pela UEFS. Também é membro do conselho editorial da revista Graduando: entre o ser e o saber.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

ASPECTOS DA LITERATURA FANTÁSTICA EM DOIS CONTOS DE NELSON DE OLIVEIRA*

Por Danilo Cerqueira Almeida  **


Os contos “Lá” e “Naquela época tínhamos um gato”, do escritor Nelson de Oliveira, apresentam elementos considerados pela teoria literária como pertencentes à literatura fantástica. Os três contos sustentam a narrativa em fatos que se relacionam com certo suspense resiliente que acompanha as histórias. O efeito hesitante e vacilante é intensificado por um narrador em primeira pessoa, o qual aproxima o leitor numa envolvente apresentação de cotidiano perturbador, inquieto ou fatidicamente encerrado em episódios que desestabilizam, em algum momento das narrativas, a razão humana.

A existência de um destino sem certeza de localidade nomeia o conto “Lá”, no qual a “ideia de ordem e desordem jamais esteve muito clara” (OLIVEIRA, 2004, p. 39) nas cabeças das personagens e de um narrador em primeira pessoa, instaurador de um niilismo persistente e assimilado no cotidiano de camelôs. A informação insólita — circunda o conto numa caminhada sem fecho, em que diversos elementos da contística inserem o texto na temática fantástica. A hesitação ante a dubiedade da realidade de que fala Todorov (1970, p. 148) é alcançada pelo retorno de um conselho vazio, uma situação banal que surpreende pelo inusitado de não se desejar ir até o final de uma rua, lá, cuja sucessão de medidas e suposições o mundo familiar e concreto não consegue explicar, mas que o universo da literatura faz emergir como metáfora vacilante do real, “afinal, para um estranho, deve ser terrível não estar ciente do solo em que se está pisando.” (OLIVEIRA, 2004, p. 41).

Em “Naquela época tínhamos um gato”, a simples troca de um animal doméstico incide no conto uma aura de perscrutação do homem pela figura de um cão “nu, sem coleiras e sem regras” (OLIVEIRA, 2004, p. 51). Após um início cercado de muita tolerância e receptividade, animal surge como um cão anormal, numa situação insólita — perscrutar as características e ideias mais profundas dos moradores da casa. A descrição psicológica no conto é notável na medida em que a atmosfera do fantástico se constrói ao olhar do cachorro, ser que escancara na vida as indeterminações mais densas do ser (narrador) observado. Sansão, o cachorro, provoca na família a sensação de que é um homem, tamanha é a identificação instaurada aos olhos, como qualquer outro morador da residência. No entanto, o distanciamento da realidade de um cachorro e da forma humana, em Sansão, encarcera o narrador em primeira pessoa — e com isso em todos os outros moradores da casa —, numa desagradável necessidade de aprisioná-lo, sob a forma de falsa liberdade, nas feições de um periquito, “encarcerado numa gaiola”.

Há, nos dois contos, forte traço social, uma forma de representação que focaliza o ser humano e/ou as criaturas naturais nas suas relações com o mundo. Nesse contexto, uma existência rotineira autônoma vai ao encontro do protagonista, em que situações de hesitação e dúvida assumem contornos de inquietação, em que é inegável não se poder sugerir o questionamento de uma rotina existencial, metamorfoseada no espantoso e até sinistro, dado o grau de perscrutação do gênero humano.

Referências

OLIVEIRA, Nelson de. Pequeno dicionário de percevejos. Rio de Janeiro: Lamparina, 2004.
TODOROV, Tzvetan. As estruturas narrativas. Tradução de Leyla Perrone-Moisés. 2.ed. São Paulo: Perspectiva, 1970.


*  Texto apresentado como avaliação parcial da disciplina Literatura Brasileira V, na UEFS, em 2009.
**  Danilo Cerqueira Almeida é licenciado em Letras Vernáculas, além de especialista e mestre em Estudos Literários, todas graduações pela UEFS. Também é membro do conselho editorial da revista Graduando: entre o ser e o saber.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

CINEMA NOVO: UMA REVOLUÇÃO NO CINEMA NACIONAL - E O FILME VIDAS SECAS - UM NOVO OLHAR PARA O SERTÃO

Por Maria Rosane Vale Noronha Desidério *


Os anos sessenta parecem ter sido uma década de grande efervescência na cultura brasileira. O teatro experimentou a revolução no seu modo de fazer a ponto de alcançar finalmente uma linguagem dita nacional, afastando-se do modelo italiano. E o cinema começava a conhecer uma nova e revolucionária linguagem, um cinema arte, um cinema revolucionário e com uma cara nacional. Essa nova linguagem cinematográfica virou um importante movimento conhecido como Cinema Novo, assim batizado por Glauber Rocha, cineasta de grande importância do Brasil e principalmente do Cinema Novo.

O movimento cinemanovista tinha como características principais o despojamento, o caráter revolucionário e a busca por mostrar a realidade como ela era de fato, sem enfeites, sem cenários montados. A linguagem buscava o mais alto grau da realidade, e usando de poucos recursos técnicos fazia um cinema artesanal e tocante. O Cinema Novo torna-se um cinema de autor, pois os diretores passam a imprimir sua marca própria a cada cena. Cada detalhe de uma cena era rica em significados, tudo era pensado para produzir sentidos. Por isso, o cinema dos anos sessenta deixa o seu caráter apenas de entretenimento para figurar como a sétima arte, chamando o público a reflexão. 

O Cinema Novo ao assumir um caráter revolucionário buscará refletir a realidade do Brasil, a fim de revelar e discutir os problemas sociais e trazer ao público a verdadeira cara do país. É desse modo que Nelson Pereira dos Santos, precursor desse movimento, dá os primeiros passos como cinemanovista com o filme “Rio, 40 graus”, trazendo o verdadeiro cenário dos morros, das favelas do Rio de Janeiro. Com coragem, Nelson usou como cenário o próprio morro, criando personagens que traziam os reais problemas e dilemas sociais das favelas. Depois, Nelson surge com o filme “Vidas secas”, adaptação do livro homônimo de Graciliano Ramos, e conquista a comunidade especializada com a bela obra de traços cinemanovistas, revelando o estado de exploração e abandono do homem cativo da seca. Fabiano invadiu as telas e emudeceu o mundo.

Nelson usou nesse filme os recursos naturais e gravou no próprio sertão nordestino, diferente dos filmes clássicos da época que gravavam filmes com temática sertaneja usando cenários montados. Em Vidas Secas nada foi montado. Tudo era real, a luz do sol, os ruídos, a sonoridade, nada se desviou da realidade do sertão. Nelson escolheu abrir o filme com o som das rodas de um carro de boi, um som desagradável assim como a seca e a miséria dos personagens centrais, indivíduos abandonados à própria sorte em meio à seca nordestina, sujeitos invisíveis, esquecidos, jogados às margens da sociedade. Curiosamente, é pelas margens do rio seco que os miseráveis caminham. Não estão apenas às margens do rio seco, estão às margens do sistema social, estão excluídos e sem pouso certo, silenciados. 

O Cinema Novo ao mostrar a realidade, revela também às causas dessa realidade e desse modo, Vidas Secas não mostra somente a miséria e abandono da família de retirantes, mas também revela os causadores dessa miséria, ou seja, o Estado camuflado nas figuras do patrão, do soldado amarelo e do cobrador de impostos que juntamente com a seca jogam os miseráveis em um ciclo interminável que os prende no mesmo estado de miséria e exploração. Um ciclo que os impede de vislumbrar uma saída.

A obra Vidas Secas, adaptada ao cinema funciona como um soco no estômago de uma sociedade alheia as misérias dos sertanejos esquecidos. Fabiano com seu silêncio, seu estado de bicho acuado e sem armas aparentes para lutar revela-se em si mesmo um despertar. É ele, que parece um personagem apático, quem chama o mundo a reflexão acerca do apagamento que os problemas sociais do sertão estavam imersos. Fabiano é um personagem emocionante.

Ao posicionar-se como um bicho no mundo Fabiano revela o estado de abandono e exploração ao qual estava submetido. Ele não possuía espaço para além dos limites da fazenda e do ofício de vaqueiro, sempre propriedade de alguém, explorado e sem direitos. Sua identidade foi se moldando e Fabiano não reunia em si a força para se desprender da situação a qual estava submerso, mas tornou-se um devir. A revolução não foi feita por ele, nem sinhá Vitória com seu olhar mais consciente, tampouco por seus filhos, crianças desprovidas de qualquer identidade porque eram a soma de todos os meninos igualmente destinados a serem esquecidos pelo poder do Estado para se tornarem novos “fabianos” no mundo do sertão seco. Contudo, esses sujeitos despertaram um mundo alheio a eles a enxergarem as misérias sociais e o sofrimento daqueles que são jogados as margem da sociedade e estão destituídos de voz e vez em um mundo que segue seu curso sem os perceber.

O filme Vidas Secas, precursor do movimento Cinema Novo, foi premiado internacionalmente, mas seu grande legado foi despertar o mundo e não somente o Brasil para esses personagens extraordinários e ricos na imensidão das caatingas nordestinas. O movimento Cinema Novo tirou a maquiagem das produções nacionais e as pintou com tintas de realidade. Libertou-se dos conceitos clássicos do cinema e com “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, como disse Glauber Rocha, fez arte, chamou os espectadores à reflexão e à descolonização das ideias e revolucionou o cinema nacional, encantado o mundo.


* Maria Rosane Vale Noronha Desidério é aluna do 6º semestre do curso Letras Vernáculas pela UEFS.

domingo, 7 de junho de 2015

A REPRESENTAÇÃO DO ÍNDIO EM DIFERENTES PERÍODOS LITERÁRIOS

Por Pâmella Araújo da Cintra Silva *



Desde a chegada dos portugueses às terras brasileiras, o índio, na literatura, ora é consagrado, ora marginalizado. Entretanto, foi considerado o herói nacionalista brasileiro. Muitas são as representações de que temos da figura do índio ao longo do tempo e dos diferentes períodos literários. O presente texto busca tratar da temática das representações do índio em três fases distintas mostrando como esse símbolo da nacionalidade brasileira foi e ainda tem gerado diversos mitos e desmistificações a respeito da história do Brasil.

Em O Guarani, José de Alencar coloca a figura do índio como herói romântico. Peri representa o herói nacional brasileiro, imbuído de características que traçam o perfil do povo brasileiro, tais como: a cordialidade, ou seja, seu caráter pacífico; e a sua ligação com a natureza. Assim como os escritores da sua época, José de Alencar traçou uma identidade nacional brasileira, a partir da figura do índio Peri como herói, idealizado por ele, de acordo com o modelo eurocentrista de homem.

Dessa forma, a pretensão objetivada durante o Romantismo, em sua primeira fase, consistiu na procura de um herói nacional na tentativa de exaltar elementos e características típicas do brasileiro, como forma de afirmarem a identidade e o nacionalismo do país em “nascimento” em face a Portugal, país este de tradição literária e de um passado histórico. Em suma, muitos escritores românticos debruçaram-se na tentativa de construir o passado histórico e um herói nacional legítimo. Alencar, assim como os demais, elege o índio como símbolo da identidade nacional. Daí a presença do índio Peri, por exemplo, não como o selvagem, mas como um ser de natureza hostil e de valores nobres, caracterizado na obra de José de Alencar.

O romance de Alencar apresenta a ligação do nativo americano e do colonizador português. Peri retrata o aborígene e, D. Antônio de Mariz, o português. Eles representam nações diferentes que mais tarde não tardou a formar uma nova nação, a brasileira. O índio Peri é caracterizado pela natureza, pelo ambiente da mata virgem, típica do Brasil. Vive em harmonia com a natureza, detentor da coragem, liberdade e selvajaria. Enquanto que o fidalgo europeu é caracterizado pelo ambiente da civilização moderna, ou seja, seu lugar de origem, a Europa. Portanto, um ser civilizado e educado. 

É possível perceber na narrativa de Alencar que essa distinção de “mundos” das personagens não resultou nenhum conflito. Entretanto, é possível reconhecer que o choque entre o aborígene e o colonizador, na obra de Alencar, mostra a submissão do índio à “superioridade” do colonizador já no primeiro contato com ele. Em resumo, mesmo o índio sendo o representante das florestas, da terra virgem, após enfrentar o seu colonizador se submeteu a ele. Tal passagem da narrativa nos leva a crer que a intenção do autor foi a de mostrar a união entre o índio e o português como se tivesse ocorrido de forma pacífica, tal como no relato da carta de Caminha. Embora saibamos que historicamente tal fato não se deu assim.

Na obra de Antônio Torres, intitulada Meu Querido Canibal, o autor por meio da figura do índio chamado Cunhambebe tenta desconstruir esse imaginário do índio construído pelo discurso historiográfico. Ele, podemos assim dizer, reconta a história do Brasil fazendo uma revisão e reavaliação dos processos que consolidaram uma possível identidade nacional, rasurando a imagem estereotipada do índio, que constitui o discurso sobre a identidade do Brasil e de seu povo.

Torres, ao retratar o índio como herói não se utilizou da idealização romântica e da visão do OUTRO, ou seja, dos colonizadores, como Pero Vaz de Caminha que em sua carta afirma que o contato dos portugueses com o índio se deu de forma pacífica, assim como Alencar, em O Guarani. Muito pelo contrário, ele caracterizou o indígena como um bravo guerreiro figurando como símbolo de resistência à colonização, acabando com essa ideia de que os índios aceitaram pacificamente a dominação dos portugueses e de que não houve combate, o que resultou na dizimação de uma parcela numerosa de indígenas. Assim, na obra de Torres, temos o perfil guerreiro de Cunhambebe, contrário ao índio pacífico que Pero Vaz de Caminha descreve em sua Carta para o rei de Portugal.

De acordo com Marilena Chauí (2000), em Brasil: o mito fundador e a sociedade autoritária, observa-se uma repetição das narrativas de origem, embora elaboradas na época da conquista de Portugal sobre o Brasil, durante o movimento literário estético do Romantismo perdurou a escrita de textos que difundiam e aceitavam os fatos narrados da época na carta de Caminha. 

Antônio Torres faz então uma releitura histórica rompendo com as representações indígenas iniciadas lá no tempo do processo de colonização, agora percebemos que em sua obra não há mais a presença do índio como herói romântico, de posição neutra, primitivo e selvagem tal como no indianismo de Alencar. Por meio do imaginário contemporâneo, Torres, traça um novo perfil para o índio, que passa a ser visto como o anti-heroi moderno e não mais como um ser de natureza neutra. 

Com isso, o índio anti–heroi não deixa de ser humano, ao contrário, ele é mais humano, ousado e vitorioso. Torres defende a prática do canibalismo como sendo uma prática de ritual antropofágico imbuída de significados para a cultura indígena. Desse modo, Cunhambebe reverte a imagem de índio como o “bom selvagem” de Roussear, e o ritual antropofágico antes mal visto e negativizado pelos europeus passa a ter um outro olhar, agora, talvez, mais compreensível e com sentido. “A preocupação do século XVIII em relação às mentiras e à falsidade passa a ser uma preocupação pós-moderna em relação à multiplicidade e à dispersão da(s) verdade(s), verdade(s) referente(s) à especificidade do local e da cultura.” (HUTCHEON, 1951, p. 140). Com base na afirmação da autora, o pós-moderno não se prende a historiografia. Foi o que fez Torres ao recontar a história das expedições não considerando o discurso do outro, do português. Portanto, desmistificou a ideia da carta de Caminha de ser o índio um ser ingênuo e facilmente domesticável.

Segundo Zilá Bernd em Literatura e identidade nacional, no contexto de releitura da história brasileira, “Só bem recentemente começa[-se] a operar a síntese — ainda inacabada — deste jogo dialético, associando o resgate dos mitos à sua constante desmistificação [...]” (BERND, 2003, p. 20). Tal afirmação significa dizer que, na pós-modernidade, há o deslocamento das imagens que fixam a ideia de nação e de povo, ao passo que revela ideologias presentes na narrativa da identidade nacional. O autor contemporâneo consegue enxergar que de fato, mesmo os textos históricos, não são tão reais e verídicos, assim, a depender das reais intenções do escritor, muita coisa pode ser apagada.



* Pâmella Araújo da Cintra Silva é graduanda em Letras Vernáculas do 6º semestre da UEFS.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

DISCURSO DE FORMATURA - LETRAS ESTRANGEIRAS 2014.2

Por Cleyton Vidal de Oliveira *


Magnífico Senhor Reitor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) José Carlos Barreto de Santana e Vice-reitor, Professor Genival Corrêa de Souza, Pró-reitor de Graduação Professor Rubens Pereira, Professora Girlene Portela cujo nome temos a honra de ter em nossa turma, queridos paraninfo e patronesse da turma, demais homenageados, caros colegas formandos, familiares e amigos, muito boa noite.

Agradeço a Deus por viver este momento único, e à turma por haver ofertado a mim a oportunidade e o privilégio de ser sua voz em ocasião tão especial.

“Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”.

Talvez não tivéssemos consciência do tamanho da responsabilidade que estávamos assumindo quando escolhemos Letras estrangeiras como curso. Tomo como base o monomito, também conhecido como “jornada heroica”, proposto por Joseph Campbell no livro “o herói de mil faces” para dizer que a nossa jornada já havia começado no momento que aceitávamos o chamado dessa aventura chamada LETRAS ESTRANGEIRAS. Restava-nos, agora, sair da nossa zona de conforto e seguir em frente. 

Claro, nenhuma jornada estará completa sem a resistência natural, quase que uma recusa, sem as perguntas: “você tem certeza disso?”, “é isso mesmo que você quer?” feitas por nós mesmos, por receio, ou por aqueles que, por vários motivos, nos fazem pensar nas nossas escolhas. Resistência superada, hora de atravessar o primeiro portal: o tão falado e temido vestibular. Estudamos, fizemos e passamos. Tornamos-nos estudantes de Letras Estrangeiras e um vasto e complexo mundo nos aguardava. Logo vimos que não seria uma campanha fácil. E, à medida que fomos vencendo os pequenos e grandes desafios diários, fomos abrindo nossos olhos para a imensa gama de possibilidades que nos aguardavam e fomos aprendendo cada vez mais.

Cada área nos dava a oportunidade de desenvolver diferentes habilidades e conquistar novos poderes: nos idiomas dominamos o poder de entender as semelhanças e diferenças entre a nossa cultura e a do outro e que a língua é o reflexo de cada identidade cultural e que nenhuma cultura é melhor que outra; na literatura, adquirimos o poder de questionar, da inquietude e da necessidade de transformação que deve ser uma constante para todos; na linguística, conquistamos o poder de enxergar a língua como organismo vivo, mutável; de entender aquilo que é dito, o que está nas entrelinhas e que até o silêncio pode dizer muito.

Todo percurso tem seus mentores, aqueles que nos guiam e nos dão as ferramentas para seguirmos adiante. A esses, chamamos professores. Somente com o seu cuidado, fomos vencendo as provações naturais, ganhando aliados e entendendo cada vez mais a nossa responsabilidade enquanto nos aproximávamos da nossa recompensa. Recompensa essa que ultrapassa a conquista de notas e aprovações semestrais. É a consciência de que hoje nos encontramos aptos a assumir as responsabilidades conscientes de Professores de Língua Estrangeira. E devo dizer que o fim de uma jornada nada mais é do que o inicio de uma nova. Joseph Campbell diz que é o problema, ou desafio, apresentado ao herói que o conduz em sua aventura afastando-o do seu estado de comodismo.

Então, caros colegas de profissão e de curso aqui presentes, digo que estamos proibidos de nos acomodar, pois vários são os problemas que integram o caminho da docência, desde a tão conhecida desvalorização da profissão, até o desafio de fazer de cada aula a melhor. E ter esse dia de hoje como um dia de encerramento é abrir mão dos poderes que hoje nos são outorgados. Continuaremos a nossa e seremos mentores de várias e várias jornadas posteriores. 

Encerro esta fala repetindo a frase de um personagem fictício que citei no inicio: “com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”. Uma boa noite e uma longa e próspera jornada a todos.


* Cleyton Vidal de Oliveira é graduado do curso de Letras co Inglês da UEFS.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

AUTORRETRATO: UMA COMPLEXA CONSTRUÇÃO

Por Maria Rosane Vale Noronha Desidério *


Tirar uma foto parece algo relativamente simples hoje em dia. Nada mais que um clic e pronto tem-se um momento eternizado, uma face alegre, triste, distraída. Uma face qualquer para sempre guardada, ou talvez não, pois hoje é muito fácil apagar fotos, basta outro clic. Mas como apagar retratos? Será fácil ou difícil? Penso que um clic não constrói um retrato, talvez nem mesmo uma vida inteira seja suficiente para construir ou decifrar um retrato. E apaga-lo então. Como apagar retratos? Neste caso é preciso um clic de esquecimento. Aí se apaga tudo. Porque retratos e fotos são coisas distintas. Portanto, suas feituras ou apagamentos também se operam de modo diferente.

Mas não falemos de apagamentos, melhor que visualizar um apagamento é contemplar uma construção. E a construção de um retrato é mesmo algo inexplicável. Tão extraordinário. Tão despercebido e tão indizível. Principalmente se o retrato for de si mesmo. Fazer autorretrato é mesmo uma obra indizível. Tão complicado. Quase impossível. Ou mesmo absolutamente impossível.

Certa vez ouvi alguém perguntar: quem é você? Eu provavelmente conseguiria pronunciar meu nome, idade, religião entre outras informações úteis sobre minha pessoa. Falaria da família, da naturalidade, mas provavelmente essas respostas não contemplaria a pergunta. Quem é você? Passaremos a vida inteira nos perguntando quem somos nós. E ao fim dos anos descobriríamos que a pergunta permanecerá vaga, incompleta e assim será eternamente. Muitos fariam vários autorretratos de nossas almas e faces e ainda assim estariam longe de responder a pergunta: quem era ele ou ela?

Por isso, fazer autorretrato é tão complexo, estaremos sempre vendo fleches. Pequenos pontos de nós mesmos. Ainda que a pintura seja bem feita ela estará sempre incompleta, porque estamos e estaremos sempre em processo de construção. 

Eu posso dizer que me chamo Maria, que já passei dos vinte, que gosto de literatura e vivo planejando comprar livros, que oro, que gosto de ter amigos, de abraçar meus pais, de sentir saudades, de matar saudades, de ouvir o som do alto, contemplar a beleza de Deus, de ler os clássicos da literatura, os teóricos e principalmente a bíblia, que nasci no sertão de uma cidade chamada Tauá e fui registrada e vivi boa parte da infância em uma outra cidade chamada Parambu, cujo significado é cachoeirinha pequena. Posso dizer que sou cearense, que amo escrever por ócio e me esquecer nas páginas de um bom livro ou nos sonhos do futuro, que não falo muito , que ouço, que as vezes sou insegura, mas será que isso contempla o meu autorretrato? Haverá um jeito de dizer tudo? Eu saberia? Não, não saberia. Não é que não me conheça um pouco, é que fazer um autorretrato demanda uma eternidade de reflexões sobre mim, sobre nós. Mas não quero desanimar os meus caros colegas no prosseguimento de sua tarefa, porque o exercício de fazer nosso autorretrato é fundamental para pensarmos quem somos, seremos ou seríamos. Aviso-lhe que sempre sentirão que esqueceram algum detalhe ou que a tarefa é árdua, indecifrável. 

Eu, pessoa em construção, sou exatamente eu. Provavelmente não existem duas de mim como não existem duas outras cópias de ninguém, porque ainda que biologicamente nasçam no mundo dois iguais, seus retratos, suas almas jamais serão. Somos unidades únicas de nós mesmos em um mundo imenso, às vezes pequeno, às vezes assustador. E nós, unidades únicas, somos imensos, complexos, indecifráveis e nisto se encontra toda a beleza. 

E se você reparou, eu ainda não fiz meu autorretrato, atividade expressamente pedida em aula. Não fiz e ao mesmo tempo estou a fazer. A cada frase, letra, ponto, a cada dia, hora minuto, bisbilhotando-me para descobri novos detalhes a cada instante. Sou eu. Esse eu imenso de todos nós. Esse eu que a gotas se revela a mim...


* Maria Rosane Vale Noronha Desidério é aluna do 6º semestre do curso Letras Vernáculas pela UEFS.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

POR QUE O TEATRO SE DESENVOLVEU MAIS PARA O RISO DO QUE PARA A TRAGÉDIA?

Por Márcia Silva de Souza *


A palavra teatro, de origem grega, vem de théatron, uma configuração de arte em que um ator ou uma junção de atores interpretam uma história para um público em algum lugar.  O teatro surgiu na Grécia Antiga, mais precisamente, no século IV A.C. Em consequência dos festivais anuais em consagração a Dionísio, o deus da alegria e do vinho. Foi na Grécia antiga que surgiram dois gêneros teatrais, sendo eles: a comédia e a tragédia.

As peças teatrais trágicas tinham temas ligados à justiça, às leis e ao destino. E o bom exemplo é o “Rei Édipo” de Sófocles, que retrata a impotência do homem contra o seu destino. Já, o teatro cômico, tem como intuito o riso dos espectadores, pois representava de forma engraçada o cotidiano da vida em formato de sátiras, porém vale lembrar que o riso não é um fator essencial da comédia, mas a reordenação (renovação).

A origem do teatro no Brasil teve grande influência dos padres Jesuítas, que ao chegarem ao país, trouxeram consigo influências como a literatura e o teatro, sendo estes os principais instrumentos pedagógicos para a educação religiosa. Este período corresponde ao século XVI, quando o Brasil passou a ser colônia de Portugal. Os Jesuítas notaram que a utilização de métodos como o teatro, somado com a cultura indígena, eram eficazes como instrumento de civilização, principalmente para a catequese dos índios.

O teatro realmente nacional só veio se estabelecer em meados do século XIX, quando o Romantismo teve seu início. Martins Pena foi um dos responsáveis por isso, através de suas comédias de costumes, o teatro passou a refletir as cenas e as problemáticas da realidade brasileira. Apesar do Brasil já ter conquistado sua independência, ainda buscava sua identidade nacional, e buscava essa identidade através de temas universais que falassem da dor, dos conflitos, etc.

O Brasil se desenvolveu mais no teatro cômico, pois enquanto a tragédia fala dos deuses e dos feitos heroicos, a comédia fala do homem, dos mortais e de sua fragilidade, daí sua identificação com a arte popular. Por mais grosseira, por mais grotesca que pareça, por mais que dê a impressão que ela esteja te atacando, ela diz 'eu falo a mesma linguagem que você, eu sou humano'. Ou seja, fala do homem comum. Através dela, é possível transmitir determinados princípios de maneira mais direta e acessível, pois o cômico vem falar do que já existe em determinado tempo-espaço.

Por mais franco que o suponham, o riso esconde uma segunda intenção de entendimento real ou imaginário. Assim, ao rir do outro, sempre se ri um pouco de si mesmo; esta é uma maneira de se conhecer melhor e também de sobreviver às dificuldades e obstáculos. Sendo assim, a tragédia traz questões, perguntas para o espectador, ou seja, propõe que as pessoas pensem, reflitam.


* Márcia Silva de Souza é graduanda do 6º semestre de Letras Vernáculas da UEFS.

segunda-feira, 16 de março de 2015

POR QUE ALGUÉM AINDA QUER SER PROFESSOR?

Por Maria Rosane Vale Noronha Desiderio  *


Houve uma época memorável de nossas vidas juvenis em que desejávamos ser tão extraordinários quanto nossos professores. E quem já não disse lá por volta dos seus sete anos de idade que quando crescesse gostaria de ser bombeiro, policial, médico e professor. O professor era uma espécie de herói infantil. Ele, certamente, sabia tudo. Um mago. Mas o que aconteceu depois? O que houve com as crianças desejosas de serem professores? O que houve com as maçãs nas mesinhas. É, parece que os tempos mudaram muitíssimo!

Hoje em pleno século XXI ser professor não possui mais o glamour de outrora. E as belas palavras de Paulo Freire sobre a importância dos professores como agentes que conduzem seus alunos a atravessarem as fronteiras do senso comum para aventurarem-se nos saberes mais profundos com liberdade e curiosidade, tornando-se sujeitos atuantes e críticos, vem gradativamente dando lugar a professores desmotivados, desrespeitados e presos a cenários de trabalho que não os motiva nem os instiga a romperem com as velhas didáticas, disseminando apatia semelhante em seus alunos.

Os professores do século XXI encontram no cenário nacional uma impressionante desvalorização de sua profissão. A sociedade ao ver um jovem entrar na universidade para uma licenciatura tece uma rede imensa de críticas e reprovações. Ser professor? Para que? Logo se supõe que esse calouro não tem a capacidade de cursar um curso de maior prestígio. E o perfil do calouro é logo traçado: vem de escola pública, não aprendeu o suficiente e não teve outra opção a não ser a licenciatura. Argumentos fortes, os preferidos da imprensa e da sociedade atual. Bom, obviamente que esses argumentos são um tiro no pé da educação pública brasileira, mas isso é assunto para outro momento. O fato é que esta profissão hoje, na visão da sociedade, é sinônima de ausência de melhores opções.

Mas de quem é a culpa? Do governo que oferece um salário muito aquém do que deveria? Será que é só isso? Certamente a melhora na condição salarial seria um grande avanço nos passos para uma valorização do professor, mas não é só isso. Falta oferecer a este profissional condições de trabalho mais adequada e segura. Pois, o professor enquanto autoridade não é mais levado a serio dentro das salas de aula, não é mais ouvido e respeitado pelos pais de seus alunos e precisa fazer malabarismos para oferecer aos alunos o mínimo para a continuidade das aulas. Muitas vezes precisa ele mesmo comprar materiais básicos como folhas para as provas. Quem pode imaginar os suplícios que passam professores de zonas rurais isoladas aonde nada chega e tudo falta.

Outra questão é a violência. Os casos de professores mortos por ex-alunos, ou atuais, começa a se multiplicar em todo o país, mas outros tantos que nem se quer vem a público como tapas, palavras ofensivas, textos, fotos ou vídeos para denigrir a imagem de docentes em redes sociais e sites. A autoridade do professor vem sendo cada vez menos presente nas salas de aula, culpa de uma enxurrada de circunstâncias que se aglomeram e vira uma bola de neve, carregando a profissão docente ladeira a baixo. É lamentável. Realmente lamentável!

O título deste texto não recebeu aspas por acaso. É uma fala de um pré-adolescente quando ouviu de uma jovem aluna universitária de licenciatura que esta estudava letras vernáculas. “Por que alguém ainda quer ser professor” no Brasil? É bom o governo e a sociedade encontrar boas respostas e rápido para essa pergunta. Caso contrário, haverá um déficit imenso de docentes nas escolas e universidades do Brasil.


*  Maria Rosane Vale Noronha Desidério é aluna do 6º semestre do curso Letras Vernáculas pela UEFS.

segunda-feira, 2 de março de 2015

UMA QUESTÃO DE IDENTIDADE

Por Maria Rosane Vale Noronha Desidério *


Supõe-se que todas as nações do mundo estão deitadas sobre o berço esplendido de sua história. E, este berço é, sem dúvida, também o alicerce de sua identidade, de sua particularidade no meio universal. Mas quando os alicerces históricos de uma nação são apagados como definir seu conceito de identidade?

Esta foi, certamente, uma pergunta muito presente entre os intelectuais do Brasil. Como identificar a identidade de uma nação cujo passado foi apagado? Os Românticos, influenciados pelos ideais iluministas, buscavam as respostas entre os primeiros habitantes das terras brasileiras – os índios. No entanto, a cultura indígena há muito que havia sido suplantada pela europeia. Os Românticos, então, idealizaram o índio na tentativa de constitui-lo como herói nacional, como o representante genuíno da nova pátria.

Transformar o índio em herói da nova pátria seria uma saída extraordinária para uma nação sem história, sem passado, mas a solução se mostrou conflituosa. E, isto ocorreu porque primeiro, a figura indígena foi retratada sob aspectos que não lhe era próprio. O índio herói possuía um caráter europeizado, cristianizado, imbuído de uma profunda inocência, coragem e generosidade, incapaz de atitudes cruéis e profundamente fiel ao amor e ao cuidado com o branco. Lembremo-nos de Peri devotado ao amor por Ceci.

Em segundo lugar, buscava-se alicerçar o Brasil sobre uma cultura que fora esmagada pelo Outro europeu. Uma cultura que desde o princípio foi subjugada inferior pelo olhar europeu. Ao ler Iracema de José de Alencar, observamos o abafamento da cultura indígena para que florescesse a do Outro. A metáfora de Iracema que abandona suas raízes para devotar-se ao amor do europeu Martim e morre solitária para dá a vida ao filho – fruto da dominação do Outro, demonstra essa visão de que era necessário, para que a cultura europeia florescesse, a morte sacrificial da indígena.

Portanto, é profundamente complexo construir a ideia de identidade nacional, alicerçado ao índio. Porque este não era exposto, de fato, como ele era. Logo, a identidade brasileira não possuía raízes sólidas. O que havia era uma idealização conflituosa e pouco palpável. 

A busca pela temática indígena fora, certamente, motivada pela necessidade de se libertar das influencias portuguesas. Era preciso encontrar as raízes, mas estas já não existiam, de fato. Esta tentativa de livrar-se de Portugal aproximou os escritores brasileiros da França. Estes vislumbraram o Brasil e sua natureza exuberante e imensa, enquanto contemplavam o rio cena. A literatura brasileira ainda estava impregnada pelo olhar europeu. Não havia como não estar, tendo em vista, que os nossos escritores estavam tomados pelo Outro – ainda que a princípio não percebam a força umbilical de sua ligação com o outro estrangeiro. 

É interessante observarmos que todo o processo de construção do ideário de Pátria e da própria literatura no Romantismo não levou em conta a matriz africana. Isso ocorreu porque o negro também era visualizado como o Outro. É este outro estava agravado pela condição de escravo. Desta forma, os escritores Românticos rejeitaram os Portugueses e os africanos, mas agarraram-se a ideologia iluminista da França. E, assim, a França diferentemente de Portugal, conquistou o Brasil de forma diferente. Conquistou o Brasil de forma mais poderosa – pelo pensamento, pela palavra. 

A literatura nacional, portanto, não possuía um caráter efetivamente nacional. Estava caminhando a passos tímidos em busca de encontrar o seu caráter particular, universal. Mas esta tarefa seria e permanece bastante complexa.


Maria Rosane Vale Noronha Desidério é aluna do 6º semestre do curso Letras Vernáculas pela UEFS.

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