terça-feira, 17 de novembro de 2015

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A ESCRITA DE VICTOR MASCARENHAS

Por Neila Brasil Bruno*


Desde que lançou seu primeiro livro, Cafeína, em 2008, Victor Mascarenhas vem criando, com segurança, textos que o colocam em posição de destaque no cenário baiano da literatura. Dono de uma escrita precisa e clara, seu estilo versátil tem conquistado leitores. Um certo Mal-estar é um livro de contos, o quarto publicado por Victor Mascarenhas. O escritor também atua como roteirista e publicitário.

Em Um certo Mal-estar, é possível notar um interessante processo de construção ao considerarmos suas estratégias narrativas: é um livro com treze contos, escritos numa linguagem concisa e objetiva – onde a ficção e o cotidiano estão entrelaçados. Para tanto, o autor apresenta a vida ordinária das personagens em mínimos detalhes. Através de um estilo próprio e enxuto, o leitor é direcionado para histórias de vidas comuns por meio de uma linguagem às vezes coloquial, que se revela inovadora.

Neste post, eu gostaria de tecer algumas reflexões sobre o conto intitulado “ela”, onde o autor cria personagens misteriosas, sobre as quais descreve e insere o que imagina, interessando e envolvendo o leitor. O conto traz a seguinte epígrafe: “O seu amor é uma mentira que a minha vaidade quer (CAZUZA). A citação pode estar ligada ao conflito amoroso vivido pela personagem “Ele”. É interessante pontuar que as personagens não recebem nomes próprios, mas são simplesmente denominadas como “Ele” e “Ela”.

Narra-se no conto um vínculo conflituoso entre um homem e uma mulher. A mulher representada não é uma mulher submissa; ao contrário, trata-se de uma figura feminina extremamente livre em relação aos próprios sentimentos e aos sentimentos do outro. No transcurso da história, o narrador discorre, em minuciosos detalhes, sobre os sentimentos conflituosos e perturbadores da figura masculina em relação a “Ela”: Seria angústia por amá-la? Teria “Ela” olhos de ressaca como a personagem Capitu de Machado de Assis?

Enfim, parte da história acontece num quarto de hotel, em uma cidadezinha, durante uma noite fria. É o cenário favorável para um encontro amoroso. Mas “Ele” parece não se entregar totalmente àquele encontro, pois “Ela” pode ser simplesmente o abismo. No encontro de ambos, “Ele” não saberia definir se sentia tristeza ou felicidade; o fato é que se tornara praticamente um prisioneiro daquela relação. Para definir esse relacionamento conflituoso entre os dois, aproprio-me das palavras do poeta Carlos Drummond Andrade: “Este é o nosso destino: amor sem conta, distribuídos pelas coisas pérfidas ou nulas, doação ilimitada a uma completa ingratidão...”

Assim, no conto “Ela”, como em outros contos do autor, é apresentada uma construção narrativa dinâmica e muito criativa, capaz de convidar os leitores para uma reflexão sobre situações do cotidiano que podem acontecer com qualquer indivíduo. Nesse jogo entre ficção e realidade, refaz-se o mundo da vida, permitindo novas perspectivas críticas ao potencial receptor dessas histórias, que, revestidas com um tom crítico e algumas vezes até humorístico, levam o leitor à descoberta do real.

Esse conto pode ser conferido, na íntegra, em Um certo Mal-estar, que será lançado pela Solisluna editora em 19 de novembro, às 18:00, pela livraria LDM no Espaço Unibanco de Cinema – Glauber Rocha. Posteriormente, acredito que o livro poderá ser adquirido pelo site da editora, http://www.solislunaeditora.com.br.

REFERÊNCIAS


MASCARENHAS, Victor. Um certo Mal-estar. Lauro de Freitas, BA: Solisluna Editora, 2015.


Neila Brasil Bruno é Mestre em Letras, e professora da Rede Estadual da Bahia, possui várias publicações de artigos na área de Literatura Infantil e Juvenil. Em 2013, publicou pela editora EDITUS – UESC, o livro infantil Maricota e as formigas. E-mail: neilabbrasil@hotmail.com.

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