quarta-feira, 2 de setembro de 2015

ASPECTOS DA LITERATURA FANTÁSTICA EM DOIS CONTOS DE NELSON DE OLIVEIRA*

Por Danilo Cerqueira Almeida  **


Os contos “Lá” e “Naquela época tínhamos um gato”, do escritor Nelson de Oliveira, apresentam elementos considerados pela teoria literária como pertencentes à literatura fantástica. Os três contos sustentam a narrativa em fatos que se relacionam com certo suspense resiliente que acompanha as histórias. O efeito hesitante e vacilante é intensificado por um narrador em primeira pessoa, o qual aproxima o leitor numa envolvente apresentação de cotidiano perturbador, inquieto ou fatidicamente encerrado em episódios que desestabilizam, em algum momento das narrativas, a razão humana.

A existência de um destino sem certeza de localidade nomeia o conto “Lá”, no qual a “ideia de ordem e desordem jamais esteve muito clara” (OLIVEIRA, 2004, p. 39) nas cabeças das personagens e de um narrador em primeira pessoa, instaurador de um niilismo persistente e assimilado no cotidiano de camelôs. A informação insólita — circunda o conto numa caminhada sem fecho, em que diversos elementos da contística inserem o texto na temática fantástica. A hesitação ante a dubiedade da realidade de que fala Todorov (1970, p. 148) é alcançada pelo retorno de um conselho vazio, uma situação banal que surpreende pelo inusitado de não se desejar ir até o final de uma rua, lá, cuja sucessão de medidas e suposições o mundo familiar e concreto não consegue explicar, mas que o universo da literatura faz emergir como metáfora vacilante do real, “afinal, para um estranho, deve ser terrível não estar ciente do solo em que se está pisando.” (OLIVEIRA, 2004, p. 41).

Em “Naquela época tínhamos um gato”, a simples troca de um animal doméstico incide no conto uma aura de perscrutação do homem pela figura de um cão “nu, sem coleiras e sem regras” (OLIVEIRA, 2004, p. 51). Após um início cercado de muita tolerância e receptividade, animal surge como um cão anormal, numa situação insólita — perscrutar as características e ideias mais profundas dos moradores da casa. A descrição psicológica no conto é notável na medida em que a atmosfera do fantástico se constrói ao olhar do cachorro, ser que escancara na vida as indeterminações mais densas do ser (narrador) observado. Sansão, o cachorro, provoca na família a sensação de que é um homem, tamanha é a identificação instaurada aos olhos, como qualquer outro morador da residência. No entanto, o distanciamento da realidade de um cachorro e da forma humana, em Sansão, encarcera o narrador em primeira pessoa — e com isso em todos os outros moradores da casa —, numa desagradável necessidade de aprisioná-lo, sob a forma de falsa liberdade, nas feições de um periquito, “encarcerado numa gaiola”.

Há, nos dois contos, forte traço social, uma forma de representação que focaliza o ser humano e/ou as criaturas naturais nas suas relações com o mundo. Nesse contexto, uma existência rotineira autônoma vai ao encontro do protagonista, em que situações de hesitação e dúvida assumem contornos de inquietação, em que é inegável não se poder sugerir o questionamento de uma rotina existencial, metamorfoseada no espantoso e até sinistro, dado o grau de perscrutação do gênero humano.

Referências

OLIVEIRA, Nelson de. Pequeno dicionário de percevejos. Rio de Janeiro: Lamparina, 2004.
TODOROV, Tzvetan. As estruturas narrativas. Tradução de Leyla Perrone-Moisés. 2.ed. São Paulo: Perspectiva, 1970.


*  Texto apresentado como avaliação parcial da disciplina Literatura Brasileira V, na UEFS, em 2009.
**  Danilo Cerqueira Almeida é licenciado em Letras Vernáculas, além de especialista e mestre em Estudos Literários, todas graduações pela UEFS. Também é membro do conselho editorial da revista Graduando: entre o ser e o saber.

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