domingo, 6 de julho de 2014

JANELAS DE LEMBRANÇAS

Por Maria Rosane Vale Noronha Desidério


Ouço as janelas e as portas serem fechadas com cuidado. O céu parece acinzentar-se e a noite enfim começa a tragar o dia. E, eu permaneço imóvel a observar ao longe as ruínas da velha casa de taipa que o avô de minha avó havia erguido em tempos remotos. Bons tempos aqueles! Diz minha avó com saudades nos olhos sempre que rememora as velhas lembranças daquele passado, guardado nas ruínas da velha casa de taipa.

E foi ela quem nos contou uma história extraordinária sobre a grande descoberta de seu avô, o meu tataravô... É claro que nós quando temos quinze anos nas ventas raramente ouvimos com atenção velhas histórias de família, mas eu adquiri uma curiosidade particular pelas histórias de minha avó. E talvez seja por isso que não consigo despregar os olhos daquela velha tapera, pois foi lá que se iniciou a caçada de meu tataravô...

O mês foi setembro. O ano devo confessar que, se minha avó mencionou, já não me lembro. O fato é que meu tataravô avô, um cearense da gema, criado entre os juazeiros e o chão de terra seca no sertão pedregoso, teve um sonho fantástico, imaginem?! Sonhou que debaixo do chão sertanejo existia ouro. Enfiou na cabeça que precisava procurá-lo. Teve a certeza de que aquele sonho era um sinal, e que ele havia sido escolhido pelo destino para encontrar os tesouros enterrados por fazendeiros que temeram os revoltosos, uma espécie de cangaceiros que outrora saqueavam as fazendas. Diz uma velha lenda que circunda o sertão que quando um fazendeiro enterrava seu ouro, este desaparecia debaixo do chão. E, só era encontrado após sua morte. Obviamente, esses fazendeiros não tinham consciência de tal lenda. Que ironia! Guardavam para perder...

Meu tataravô deixou para trás tudo e embrenhou-se solitário à procura do ouro. Dizem que ele não contou nada sobre sua empreitada nem mesmo para minha tataravó, que ficou a ver navios com a dúzia de filhos agarrados à saia. A estratégia de manter segredo fazia parte da lenda. Se o cabra contasse para alguém o ouro fugia dele, ficava invisível aos olhos do dito cabra. Meu tataravô não ia querer uma miséria desta, não é mesmo?

Ele ficou um bom tempo hospedado em umas casas de pedras esculpidas pela própria natureza nos serrotes sertanejos e, depois de uns oito meses sem enviar notícias à esposa, ele voltou para casa em uma noite como esta de hoje. E, com os olhos apreensivos, sem dar maiores explicações ordenou que a família juntasse as tralhas e amarrasse tudo no lombo dos jumentos, pois precisavam arribar-se dali com urgência. Minha tataravó, resignada e desconcertada, obedeceu às ordens. Então escafederam-se dali, fugiram pela noite escura em busca de abrigo na vila de Cachoeirinha.

Fiquei curiosa para saber o motivo de tal fuga e minha avó me explicou o restante da velha lenda sertaneja. Dizem que se uma pessoa sonha com um lugar que tem ouro e o encontra, precisa mudar de casa rapidamente, pois do contrário sofre maldições. Na certa era a explicação.

Meu tataravô se tornou homem influente na região. Seus filhos, contudo, não carregaram toda a fama dele, e a nós coube a história de família, coube as lembranças. E uma incerteza: terá ele, de fato, vivido essa história? Ou tudo isto não passa de lenda? Lastimavelmente, em nosso bolso o ouro não chegou!
  
Hoje eu espicho os meus olhos para a tapera ao longe, tentando reconstruir a memória de minha avó, mas talvez cometa o pecado do esquecimento, deixando algum fato encoberto ou o pecado do acréscimo, tentando compensar os rastros apagados da memória.

Minha avó, que ainda nos conta boas histórias, mora, hoje, bem longe de mim, mas continua contando aos netos menores, quando estes param para ouvi-la, as histórias de nossa família tal como esta história curiosa de meu tataravô e o ouro que o sertão guardou em seu chão.

E, eu preciso confessar que a velha tapera não está e nem nunca esteve ao alcance visual de meus olhos, infelizmente, mas ao alcance da memória. Sim, minha memória, é ela que avista, ao longe da janela de minhas lembranças, a velha tapera.

E como negar sua existência ou sua inexistência? Não importa, ela existe em mim.

Em homenagem a minha querida avó Rosa, que sempre me conta boas histórias e de quem cultivo imensas saudades.



* Maria Rosane Vale Noronha Desidério é aluna do 4º semestre do curso Letras Vernáculas pela Uefs.

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