sábado, 11 de outubro de 2014

TRAGÉDIA X COMÉDIA

* Por Pâmella Araujo da Silva Cintra


As peças de teatro, ou seja, a arte de encenar, data dos tempos da colonização. Durante o processo de catequização dos índios, os autos foram uma das maneiras encontradas de cristianizá-los, pelo interesse que a encenação lhes causava. Eis que os gêneros teatrais tragédia e comédia se destacaram bastante devido às suas características peculiares e pela forma como foram introduzidos e aceitos pela sociedade, tal como as transformações geradas de ordem religiosa, social, formação do pensamento reflexivo, e a busca pela nossa identidade nacional.

A tragédia grega caracteriza-se por ser a imitação de uma ação importante e completa que suscita compaixão e terror (medo). A compaixão significa, portanto, uma identificação, em outras palavras: a mimesis. Quanto ao terror, este apresenta-se como uma espécie de compreensão adquirida, ou seja, uma verdadeira catarse. Segundo Aristóteles, a importância da tragédia grega está na organização dos fatos, sendo fundamental a imitação de ações da vida real, da felicidade e da desventura, pois ela não é imitação de pessoas e sim, dessas realidades citadas.

O interesse que se tinha em que a sociedade grega assistisse às tragédias provém da transformação política da Grécia Antiga, que pretendia também acabar com a crença desmedida em divindades mitológicas, fazendo com que as pessoas enxergassem não mais uma única visão absoluta de mundo, e sim levar a sociedade ao questionamento, a refletir sobre as atitudes e comportamentos humanos, ora tratados como tabus pela sociedade, como coisas distantes da realidade do povo.

A tragédia consegue levar as pessoas à reflexão da problemática causada pelo conflito estabelecido, sem apresentar uma solução pronta. Ela suscita no espectador os porquês disso e daquilo, uma possível identificação com as personagens e uma procura até mesmo mais racional de explicações e soluções para a problemática tratada. Aristóteles diz que a tragédia é sem ventura, ao passo que a comédia é com ventura, o que significa dizer que não existe final feliz nas tragédias, enquanto que a comédia, assim como a grande maioria dos contos de fadas, apresenta final feliz. 

Já a comédia, caracteriza-se, segundo Aristóteles, pela exacerbação dos vícios (defeitos), ou seja, a comédia trata dessa intensificação dos defeitos. Trabalha com a reordenação/renovação, com a coletividade, com o social. Ao contrário da tragédia cujos personagens principais são sempre os heróis, na comédia estes são vistos como os anti-heróis. A comédia traz uma proposta de superação, não sendo algo só para rir. Até porque, a ironia pode estar associada à crítica, a quebra da lógica é o que gera o riso. A graça está na compreensão nova daquele contexto.

As relações sociais que são as relações de poder, assim como os tipos sociais, são os focos das peças teatrais cômicas. A comédia tem como objetivo retratar a sociedade tal como ela é, com os seus sujeitos, seu modo de falar... No Brasil, sem sombra de dúvida, a força da literatura brasileira está no cômico. A comédia proporcionou ao teatro brasileiro uma desvinculação dos moldes europeus. Com isso, percebe-se que, com a comédia, há uma busca pela identidade nacional do nosso país, até então, os nossos palcos retratavam realidades que não eram nossas, como também a linguagem utilizada.

Fica a pergunta: Por que o teatro brasileiro desenvolveu mais a veia cômica do que as tragédias? A resposta pode estar no fato da comédia causar uma identificação maior no público. Ora, a comédia era mais fiel à realidade do nosso país, havia uma linguagem compreensível, porque era o nosso modo de falar que era utilizado, personagens tinham características próprias do povo brasileiro, os costumes eram nossos, como também os obstáculos esperados. Os tipos sociais demonstravam bem traços da personalidade brasileira, ao mesmo tempo que denunciava as discrepâncias de igualdade e de justiça do nosso país.

Embora a comicidade tenha se desenvolvido e se destacado mais que a tragicidade, ambas tiveram muita importância pelas transformações geradas. O teatro se destacou muito com esses dois gêneros que serviram como instrumento de reflexão e de aprendizagem ao discutirem questões como o ser humano, suas atitudes e comportamentos. Foi uma forma de fazer as pessoas repensarem a sociedade como um todo. Assim como a literatura nunca é apenas literatura, devemos ter em mente que o teatro e a ideia que temos dele hoje é bem diferente do que foi o teatro e suas propostas. O teatro de outrora, era mais que teatro, tinha embasamento filosófico, educador, político e causas. Em síntese, a tragédia e a comédia conseguiram ganhar os palcos e o povo brasileiro.


* Pâmella Araujo da Silva Cintra é graduanda em Letras Vernáculas, 5º semestre, UEFS.

2 comentários:

As mais visitadas postagens da Graduando

Graduandantes