sexta-feira, 27 de abril de 2012

O outro lado

Por Maurício d'Oliveira*     

     Lembro de poucas e ótimas aulas em que professores e colegas, mas, principalmente, professores, falavam da experiência de leitura como algo transcendente e mágico - chegaram a dizer "libertador", certa vez. Falavam com ânimo de como a literatura atua sobre o leitor, falavam dos mundos possíveis/impossíveis que poderíamos conhecer através dos livros, do prazer calmo das horas de leitura numa mesa, numa rede, no chão da sala, só não falaram do outro lado.
    Que lado? O outro lado, sempre há pelo menos um. Sempre há, pelo menos, vários e infinitos lados. Mas, deste lado, pouco se costuma dizer: há um lado angustiante, quase desesperador.
     Há uma grande perda no último capítulo de um grande livro.
   Parece que o autor é como um bom amigo que partiu, que morreu ou que não quer mais a nossa companhia. As mãos acostumadas à textura das páginas sentirão a falta, o vazio deixado; os personagens todos que povoavam nossa mente se dissolvem, restam apenas algumas lembranças. Como era mesmo o nome da mulher de Mersault?
     Perda sim, e não me venham com essa de “isso ficará marcado para sempre”. Acabou a droga do livro, e agora? John Fante deixou um monte de pó a minha frente, podem perguntar a qualquer um; Camus acendeu um sol absurdo e se foi; Bradbury fugiu com os homens livros; Hesse está numa estepe, sozinho; Vonnegut levou embora Billy Pilgrim para o futuro, ou passado, não sei; dos Capitães de Areia não ficou nem o cheiro de mar nem o cheiro de mofo.
      Há uma grande perda na última página de um grande livro.
     Quem diria que as centenas de páginas de Ubaldo chegariam ao fim? Até Maria da Fé se foi; no quarto de Gregor Samsa, além do cheiro de inseto morto, nada ficou; variando sobre os mesmos temas, Gessinger foi tocar a sua guitarra elétrica e beber seu chimarrão. Do meu livro preferido guardei uma frase, uma só: “tanto faz!”. Parece pouco... e é pouco mesmo. Foi o que o livro deixou, além de um misto de tristeza e calmaria nas semanas seguintes. Mas, quer saber? “Tanto faz!”.
     Há uma grande perda na última frase de um grande livro.
    Por ser um pessimista, ao começar a ler um livro e desbravar os mundos possíveis/impossíveis de que tanto me falaram, antecipo o sofrimento, quase sem notar: ao perceber que o fim se aproxima, leio menos, leio devagar, como criança que come a sobremesa devagar, aproveitando cada dose de prazer e angústia, mas, numa hora termina, sempre termina.
     Há uma grande perda na última palavra de um grande livro.


*Maurício d'Oliveira é graduando em Letras com inglês na UEFS e também escreve em seu blog Pior é na Guerra

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