quinta-feira, 14 de novembro de 2013

CASAMENTO

* Por Jaciene Andrade

Na mão, eu tinha o papel já um tanto suado me indicando a casa apoiada no monte. Incorporada à paisagem, ela parecia se fazer de ramos, e pedras, e chuva, e ar. A carta? Ah, puro amor clareando o papel pardo primorosamente recortado... A caligrafia fina, levemente inclinada para a direita, deslizava vez ou outra sob as linhas marcadas a régua. No rodapé, um pequeno mapa artesanal com uma setinha indicava: “minha casa”. 

Havia anos que não nos encontrávamos. Amizade de infância. “Tenho tanta coisa pra te contar...” Disse-lhe que morava na mesma casa, que me visitasse. Eu, com minha cabeça nas nuvens. Ela, com a alegria de sempre, me prometeu que viria. Vi seu olhar úmido, arrebatador, transpiração enevoada de uma alegria urgente. Eu não a compreendia – nossa partilhada distância. Ela disse algumas palavras rápidas, que logo se embolaram com a nuvem de fumaça que se seguiu. O ônibus tinha se arrastado numa tosse rouca. 

Virei a página. Mas, um dia, a carta dela chegou. Escrevia me levando sutilmente pelas bainhas do assunto. Finalmente: iria se casar, e me convidava para uma cerimônia simples em sua casa, no Monte Alto. Por que ela vinha agora com aquele convite? Senti profundamente haver deixado o tempo escavar um penhasco entre nós. O tempo, certamente um injusto culpado de minhas injustiças. 

O estremecimento da culpa me fez partir, de carta nas mãos, rumo à casa do Monte. A passagem me despiu das capas de civilidade. O vento reordenara meu coque, os calos me fizeram retirar as sandálias. O suor, que manchava tímido a maquiagem, passou a brotar caudaloso. A vida anda por caminhos estreitos. Sentia antecipadamente a alegria do casamento, lembrança daquela parte de vida que ela havia deixado em mim, agora em ponto de renascimento.

Aproximava-me da casa e do pôr-do-sol. Rastro de flores. Vi a chama cambaleante de uma vela. Os convidados não teriam chegado ainda? Um violão silencioso guardava a frente da casa. O tempo virando chuva arrebatada. Comecei a ouvir conversa baixa. Um cheiro doce de café...  Que casamento diferente! Alguns laços brancos amarrados nas pilastras da casa. À medida que me aproximava, sentia a conversa se assemelhar a uma reza, uma ladainha... O vento se avolumando em rápidas gotas de chuva. Um móvel de madeira coberto parcialmente por um tecido branco. Foi quando desmoronei na certeza que não queria ter. Havia um caixão na sala.  

Ninguém ouviu meu grito, a não ser meu corpo paralisado. Aproximei-me do caixão, como quem não tem mais nada na vida. Ela, de véu e grinalda, perfeita noiva. Um soluço me lacerou o peito, ao tempo em que o conjunto de xícaras que trazia se estraçalhava miudamente no chão. Lá fora, um trovão ecoava, enquanto uma derradeira chama de sol insistia em não sair.

* Jaciene Andrade cursa Letras Vernáculas na UEFS.

Um comentário:

  1. Que maravilha! Toda a doçura e poesia de uma jovem e brilhante escritora...
    Parabéns, querida Jaci! Que outros belos escritos como este possam ser produzidos!

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