quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O conselho sobre o triângulo de um quarteto

Por Danilo Cerqueira*

Fonte: blog Palazzos Codomínios


Talvez quatro personalidades sejam necessárias para as formulações de um conselho: a idealista, a incentivadora, a pé no chão e a articuladora. Nesse quadripé formam-se e formulam-se ações para suportar as intempéries dos momentos controversos entre representatividade e coletividade. Falar de pessoas não é tão importante, em raríssimos momentos, quanto falar de suas personificações, características ou potencialidades. Creio que este é um dos tão pincelados momentos, porque o mais importante, no caso de uma revista acadêmica da graduação para graduandos em letras de nossa instituição pública, não deve ser a pessoa que exerce a função ou sua personalidade, mas o que de contribuição ela oferece para uma concretização reconhecidamente benéfica do projeto para o grupo criador, executor e atendido. Creio ainda mais que existe uma relação além das potencialidades de cada um, somente constatada quando há reunião e sintonia entre olhares e ideias, admirações e respeitos, mútuos, no espaço representativo e no seu público, ambos coletivos.

Quanto ao ideal e às ideias, elas formam as novidades, e estas movem os dias, o que seria uma redundância: todos os dias, por mais que não acreditemos, novos (ou renovos) pensamentos emergem de nossas cabeças. Um mesmo alimento, consumido diariamente, pode possuir normalmente as mesmas substâncias, mas a sua singularidade está, por exemplo, no momento em que o escolhemos e em nossa disposição quando o consumimos. Como ali-pensa-mentos, as ideias dão a certeza que não tivemos morte cerebral, embora às vezes pereçamos estar em um conhecido estado vegetativo (isso me lembra plantas, o que, pra mim, é uma confluência semântico-ortográfica com incoerência de sensibilidade).

O incentivo é tão importante quanto as ideias: sem estímulo para a criação e a execução das atividades (sair das raízes) propostas e planejadas (ou mesmo para a discussão), não existe grupo. Para estar numa constância, sentir vivacidade individual e coletiva, algo de não palpável ou objetivo precisa nos impulsionar. Um riso, uma palavra amiga, uma piada, uma pirraça ou uma personalidade pirotécnica são traços do que seria uma pessoa incentivadora. Ter isso em reuniões é, sem a demonstração forçada dessas características, um alento às agruras cotidianas em nossas lutas internas — e, paradoxalmente, para os outros e pelos outros.

Mas alguém precisa exercer a gravidade em torno da qual todos nós precisamos fazer as coisas, dizer que existe o mundo concreto e burocrático... que não se deve apenas combatê-lo com o pensamento positivo. Devemos mesmo agradecer a alguém por nos mostrar a dúvida entre o que nos pesa mais: a gravidade do mundo ou a gravidade das coisas, ou seja, a atração que a Terra exerce nas coisas (e pessoas) ou a força que as coisas exercem "na gente". Qualquer relação com o triângulo de incêndio não é mera coincidência. Assim, saber de nossas limitações (como também do meio em que estamos) é importante para transformarmos as ideias em ação de maneira estimulante, incentivando a continuidade e certeza de sucesso às próximas gerações.

Às próximas gerações... As próximas gerações precisam de provas de que as coisas dão certo... Essa talvez seja a tarefa mais delicada do projeto que se pretende permanecer. Ainda que os mais internamente envolvidos estejam certos de sua importância, é preciso provar e prover a segurança de sua continuidade por meio de uma forma de execução que contribua para a didática realização das atividades, na qual se vislumbre a certeza de que é possível para qualquer pessoa realizá-la, com alcance e êxito num futuro próximo e próspero. Esse espírito ou disposição para articular também precisa estar presente. Mesmo que tenhamos a ideia, o incentivo e a gravidade das coisas, onde estaria o momento de organização e feitura de nossas atividades? Como provocar em quem ouve e vê (ou apenas ouve ou apenas vê) a mesma determinação em aprender e contribuir com o que está à frente e ao alcance das mãos. Uma boa articulação, penso, deve ser, em nosso meio, entendível e promotora, insuflável e imperecível, didática e compartilhável. Imagino que a capacidade de demonstrar articulação inspira o compartilhamento da mensagem, o que proporciona a inebriante sensação de inclusão quando sentimos e quando comentamos sobre ela, ainda que a censura seja maior do que o elogio. A prova do entendimento marca a existência da articulação, fruto de que existiu (algum) planejamento. Nos casos exitosos, as ideias deixam de ser insossas, o incentivo passa da euforia ao entusiasmo... e o chão com a gravidade se combinam, formando o caminho e a perspectiva, a criatividade (mais idealista e animada) e a inteligência (mais realista).

Acho que acabei encontrando mais uma metáfora para meu texto: com quase 75% de água, calor humano, um planeta inteiro onde morar e ar quase à vontade, uma criança, brincando com um cone, começa a falar.

* Danilo Cerqueira é graduado em Letras Vernáculas pela UEFS, cursa o mestrado em Estudos Literários na mesma instituição e é membro do conselho editorial da revista Graduando.

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