quarta-feira, 22 de junho de 2011

Língua alforriada

A língua é uma das manifestações mais expressivas (senão a mais) de uma cultura, de uma identidade. Refiro-me não somente à forma presa, prescritiva da língua, mas sim à variedade linguística, isto é, língua como sinônimo de sociedade e, como tal, repleta de peculiaridades e distinções.
Não obstante a pluralidade do português brasileiro, advoga-se a necessidade do uso da língua padrão em detrimento da popular, por ser aquela a língua de prestígio, a qual norteia o cidadão à ascensão social. Argumenta-se, inclusive, que a chamada norma culta é a variedade linguística que melhor expressa a identidade da nação e que seu uso e preservação é uma autêntica forma de patriotismo. Então me pergunto: como num país tão miscigenado pode haver apenas uma variante linguística que caracteriza o seu povo?
A recente polêmica em torno do livro didático Por uma vida melhor, adotado pelo Ministério da Educação (MEC) e destinado a estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA), demonstra a maneira inábil como muitos encaram a língua padrão, a exclusiva língua portuguesa que se deve abraçar e aprender nas escolas. A autora da obra defende o uso da norma popular, ilustrando que os alunos podem utilizar na fala construções linguísticas como “os livro” ou “nós pega o peixe”, com a ressalva de que o padrão também precisa ser aprendido e utilizado. Essa visão suscitou ferrenhas críticas por parte dos defensores da língua pura e imácula.
Como preconizam as leis que regem a educação brasileira, a exemplo da LDB e dos PCNs, a realidade e a diversidade social dos alunos também devem ser temas das aulas, portanto, a variedade linguística dos estudantes não pode ser ignorada. Cabe ao professor de português expor aos seus alunos as diversas formas de comunicação; a língua padrão, apesar de ser essencial em muitos contextos, precisa ser vista como uma dessas formas, a qual se adéqua a momentos específicos, e não como a língua privilegiada que deve substituir a variedade coloquial.
A língua, com toda a sua diversidade, reflete os valores de uma sociedade. Aspirar a que uma variante linguística se sobreponha às demais é promover a destruição de propriedades culturais.  Mas essa é tarefa difícil de ser realizada, pois, por mais que se busque o português ideal, a nossa língua – apesar de manter estruturas fixas, o que evita o caos - é dinâmica e alforriada, não se limita a prescrições. Contudo, compete aos seus usuários lidar com essa liberdade de maneira adequada.

Aline da Silva Santos

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