sábado, 15 de junho de 2013

Sobre o que dizer a um calouro, “ao que vai nascer”?

Por Danilo Cerqueira*

Montagem em vídeo com a música "Ao que vai nascer" 
(Intérprete: Milton Nascimento)
Fonte: youtube


― Memória de tanta espera. Teu corpo crescendo, salta do chão... E eu já vejo meu corpo descer. Um dia te encontro no meio da sala ou da rua. Não sei o que vou contar...
― Respostas virão do tempo! ― Um rosto claro e sereno me diz... E eu caminho com pedras na mão. Na franja dos dias, esqueço o que é velho, o que é manco... E é como te encontrar... Corro a te encontrar!...
― Um espelho feria meu olho e na beira da tarde uma moça me vê. Queria falar de uma terra com praias no norte e vinhos no sul. A praia era suja e o vinho vermelho... Vermelho, secou. Acabo a festa, guardo a voz e o violão... Ou saio por aí raspando as cores para o mofo aparecer.
Responde por mim o corpo de rugas que um dia a dor indicou... E eu caminho com pedras na mão. Na franja dos dias esqueço o que é velho, o que é manco... E é como te encontrar...
Corro a te encontrar!

Letra adaptada da música "Ao que vai nascer" (Milton Nascimento).


O que temos a dizer sobre nossas experiências aos novos que estão chegando? Será que as preocupações que temos em relação aos calouros serão reduzidas, em seu momento máximo, a um “trote”. Compreendendo a polissemia do termo, sugiro que tentemos ir além de um encontro em qualquer dia das primeiras semanas de aula e estejamos dispostos a pensar mais em nosso “calouro”. Primeira suposição: creio que todos somos calouros, de todos os semestres. Ao considerar que o calouro seria não apenas aquele que cursa as primeiras disciplinas na instituição, mas sim o que cursa “qualquer” novo semestre na instituição, o número de calouros aumentaria significativamente. Ainda que os dessemestralizados sejam um número cada vez maior, certamente os que estão repetindo uma disciplina é que seriam, categoricamente e especificamente, segundo o meu raciocínio, veteranos. Meu pensamento, acho, é bem estranho: todos os que estão fazendo uma disciplina pela primeira vez é que são calouros. Pronto, falei!
Tá, outras experiências também são importantes na universidade ― e, claro, até as disciplinas já cursadas ―, mas onde podemos conversar abertamente sobre elas, refletir sobre elas, aprender com elas? Repeti-las já é deveras comum. Depois de concluir um curso então... Trazer pessoas graduadas para falar aos novos é tarefa bem estranha e talvez impossível e impensável (até o presente momento, suponho). Mesmo estudantes de semestres posteriores poderiam apresentar as disciplinas recém-cursadas aos mais novos calouros do semestre... Pensemos na impressão que isso iria resultar em nosso curso... Seria estúpido? Seria estranho? Seria incomum? Curioso? Experimentável...? Seria boludo (como poderiam dizer alguns de meus conhecidos, já acalourados)? Seria, sim, a metáfora hiperbólica de uma realidade, a realidade de quem não apenas declama de cabeça, mas de(re)clama com a cabeça; de quem lê não apenas “de cor e salteado”, mas “com cor e sapateado” (!). Convenhamos que seria uma solução mais barata, menos dispendiosa e obviamente mais fácil de ser organizada essa de convidar graduandos para falar a graduandos... “Ou não”?.
Segunda suposição: se pensam(mos) que critico confortavelmente que isso seja atitude obrigatória de uma representação estudantil, um Diretório (ou Centro) Acadêmico, estamos (eu também, talvez) enganados. Se todos somos calouros no início de cada semestre, temos renovada a nossa disposição para aprender, com fascínio, novas ideias. Pensar, organizar e falar sobre algo de nossas experiências para os novos pode surpreender nossa inteligência com uma nova relação, uma nova ligação entre dois fatos que aguça a curiosidade e estimula a leitura da próxima página (ou final desta), o retorno à página anterior (ou ao período acima) e a atenção maior à página aberta (ou linha atual), esta, a presente, no presente. “O tempo é a minha matéria [ou disciplina?]/ O tempo presente, os homens presentes, a vida presente” (poema Mãos dadas, de Carlos Drummond de Andrade). Por falar em presente, em calouros, em ideias, em pensamentos, em letras de músicas, vou deixar mais uma letra pra encerrar, pois a letra com a qual comecei o texto era muito complicada e até triste. Esta é um pouco mais esperançosa... Outra historieta.

A noite entreabre a porta pro sol que já vai entrar... E eu tenho mais perguntas que respostas. A vida me surpreende e o dia vem me lembrar... que todo dia é tudo diferente. Do sudoeste vem chuva e um sentimento de paz... De noite a gente se escuta muito mais. O céu invade a varanda e eu deixo a alma no escuro... E ainda me espanto... com o quanto eu deixo de notar. O sol escala as encostas enquanto eu tomo o café... E eu tenho mais perguntas que respostas.
Tem tanta gente no mundo vivendo vidas seguras... Será que só eu me sinto tão confuso? Eu encho a alma de sustos, de vaga-lumes e estrelas... E fico feliz por nada ou quase tudo. Me sinto meio antiquado pensando tanto em família, vivendo cercado de poucos bons amigos. Eu acredito em bondade, amor e honestidade... E o que me importa são mais perguntas que respostas. A noite encosta a porta, o sol desperta a cidade... E eu planto mais perguntas que respostas.

Letra adaptada da música "Mais perguntas que respostas" (Leoni).

Montagem em vídeo com a música "Mais perguntas que respostas"
(Intérprete: Leoni)
Fonte: youtube

* Danilo Cerqueira é graduado em Letras Vernáculas pela UEFS, cursa o mestrado em Literatura e Diversidade Cultural na mesma instituição e é membro do conselho editorial da revista Graduando.

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