terça-feira, 8 de novembro de 2011

"Com mérito!"

É possível registrar a experiência sob uma inscrição em papel? Sim, e é isso o que demonstram nossos currículos. Antes de registrarem títulos (entendido, a grosso modo, como um atestado de vida intelectual e prática), eles resgatam, por comprovação, experiências; algo como uma fotografia cognitiva, onde o complemento se torna cada vez mais valioso, não pelo papel, mas pelo que se pode discorrer a respeito dele. Todos os momentos desde o primeiro lapso – o momento primordial da ideia – até a última palestra ou comentário, são vividos como se fosse uma cumulação (conceito da Linguística: reunião, num mesmo morfema, de várias funções gramaticais [talvez significações]) – e não acumulação – de conhecimento.

Esse todo, com a sucessividade de nossas experiências, transforma-se em saber, mais atemporal, pessoal e intrínseco, assim, a cada faísca de pensamento que singulariza cada um de todos nós. Penso que nossas indistintas assimilações, com o tempo, como que decantam nos locais mais ermos de nossas lembranças e, em momentos inesperados, surgem feito “a mão” que movimenta certo volume de água, ar... ou globo com bolinhas – tanto do bingo mais próximo como o da Mega Sena – atrás do que falta para o grande prêmio. Em instantes, passa-se do que se julga um “mero mortal” à momentânea impressão da mais completa e exuberante inteligência humana – estado não só de inteligibilidade, mas de sapiência. Assim, tateamos o reino das palavras em estado de dicionário, como poetiza Drummond. Os vocábulos substantivam nossas ações e percepções de espaços, pessoas, notícias, comportamentos, concepções sobre diversos assuntos e relações entre campos do conhecimento. Talvez a consequência disso seja presenciarmos uma expansão (não crescimento) e conforto que impulsiona nossas vidas a buscar cada vez mais experiências, mais conhecimento, mais capacidade de relacionar, mais eventos, mais sensação de saber... e claro, mais documentos que os comprovem.

Mas há de se averiguar o verso deste pensamento – quase com status de lei de formação – cognitivo, intelectual e social. Um dos riscos da comprovação do conhecimento é a burocratização do saber e o encontro de fendas no “espaço-tempo” de nossas atividades. Somente a teoria da relatividade e seus desencadeamentos contemporâneos nos mais diversos campos do saber poderia dar conta dos casos de onipresença, onipotência e onisciência que emergem tanto de nossas TVs ou telas de computador quanto das demais formas percebidas através do globo ocular.

Assisti a um filme no qual, em determinada cena, o professor pergunta “a seus alunos” (contexto do filme): “Qual a genialidade da constituição?”.
A resposta que “impressionou” (com mérito) o professor (mas regozijou a turma) foi a seguinte:

 “- A genialidade da Constituição é que sempre pode ser mudada. A genialidade da Constituição... é que não manda permanentemente, mas contida... na sabedoria das pessoas comuns para se governarem. 'Confiança na sabedoria do povo... é exatamente o que faz a Constituição incompleta e crua' [Fala do professor].  Crua? [...] Nossos ancestrais eram fazendeiros, brancos, de meia-idade... mas eram também grandes homens... porque eles sabiam algo que todo grande homem deve saber: Que eles não sabiam tudo. Eles sabiam que podiam cometer erros, mas inventaram um jeito de corrigi-los. Eles não se achavam líderes. Eles queriam um governo de cidadãos, não de realeza. Um governo de ouvintes, não de conferencistas. Um governo que pudesse mudar, não ficar parado. O presidente não é um rei eleito, não importa quantas bombas possa jogar... porque a crua Constituição não confia nele. Ele é um servo do povo. [...] O único prazer que ele busca é... liberdade... e justiça.”


Uma pergunta a ser formulada a respeito da cena: Quem responde ao professor? Um autointitulado vagabundo de Harvard.


Danilo Cerqueira Almeida


Cena do filme Com Mérito (Dir.  Alek Keshishian, 1994).


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