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quarta-feira, 13 de maio de 2015

DISCURSO DE FORMATURA - LETRAS ESTRANGEIRAS 2014.2

Por Cleyton Vidal de Oliveira *


Magnífico Senhor Reitor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) José Carlos Barreto de Santana e Vice-reitor, Professor Genival Corrêa de Souza, Pró-reitor de Graduação Professor Rubens Pereira, Professora Girlene Portela cujo nome temos a honra de ter em nossa turma, queridos paraninfo e patronesse da turma, demais homenageados, caros colegas formandos, familiares e amigos, muito boa noite.

Agradeço a Deus por viver este momento único, e à turma por haver ofertado a mim a oportunidade e o privilégio de ser sua voz em ocasião tão especial.

“Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”.

Talvez não tivéssemos consciência do tamanho da responsabilidade que estávamos assumindo quando escolhemos Letras estrangeiras como curso. Tomo como base o monomito, também conhecido como “jornada heroica”, proposto por Joseph Campbell no livro “o herói de mil faces” para dizer que a nossa jornada já havia começado no momento que aceitávamos o chamado dessa aventura chamada LETRAS ESTRANGEIRAS. Restava-nos, agora, sair da nossa zona de conforto e seguir em frente. 

Claro, nenhuma jornada estará completa sem a resistência natural, quase que uma recusa, sem as perguntas: “você tem certeza disso?”, “é isso mesmo que você quer?” feitas por nós mesmos, por receio, ou por aqueles que, por vários motivos, nos fazem pensar nas nossas escolhas. Resistência superada, hora de atravessar o primeiro portal: o tão falado e temido vestibular. Estudamos, fizemos e passamos. Tornamos-nos estudantes de Letras Estrangeiras e um vasto e complexo mundo nos aguardava. Logo vimos que não seria uma campanha fácil. E, à medida que fomos vencendo os pequenos e grandes desafios diários, fomos abrindo nossos olhos para a imensa gama de possibilidades que nos aguardavam e fomos aprendendo cada vez mais.

Cada área nos dava a oportunidade de desenvolver diferentes habilidades e conquistar novos poderes: nos idiomas dominamos o poder de entender as semelhanças e diferenças entre a nossa cultura e a do outro e que a língua é o reflexo de cada identidade cultural e que nenhuma cultura é melhor que outra; na literatura, adquirimos o poder de questionar, da inquietude e da necessidade de transformação que deve ser uma constante para todos; na linguística, conquistamos o poder de enxergar a língua como organismo vivo, mutável; de entender aquilo que é dito, o que está nas entrelinhas e que até o silêncio pode dizer muito.

Todo percurso tem seus mentores, aqueles que nos guiam e nos dão as ferramentas para seguirmos adiante. A esses, chamamos professores. Somente com o seu cuidado, fomos vencendo as provações naturais, ganhando aliados e entendendo cada vez mais a nossa responsabilidade enquanto nos aproximávamos da nossa recompensa. Recompensa essa que ultrapassa a conquista de notas e aprovações semestrais. É a consciência de que hoje nos encontramos aptos a assumir as responsabilidades conscientes de Professores de Língua Estrangeira. E devo dizer que o fim de uma jornada nada mais é do que o inicio de uma nova. Joseph Campbell diz que é o problema, ou desafio, apresentado ao herói que o conduz em sua aventura afastando-o do seu estado de comodismo.

Então, caros colegas de profissão e de curso aqui presentes, digo que estamos proibidos de nos acomodar, pois vários são os problemas que integram o caminho da docência, desde a tão conhecida desvalorização da profissão, até o desafio de fazer de cada aula a melhor. E ter esse dia de hoje como um dia de encerramento é abrir mão dos poderes que hoje nos são outorgados. Continuaremos a nossa e seremos mentores de várias e várias jornadas posteriores. 

Encerro esta fala repetindo a frase de um personagem fictício que citei no inicio: “com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”. Uma boa noite e uma longa e próspera jornada a todos.


* Cleyton Vidal de Oliveira é graduado do curso de Letras co Inglês da UEFS.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

AUTORRETRATO: UMA COMPLEXA CONSTRUÇÃO

Por Maria Rosane Vale Noronha Desidério *


Tirar uma foto parece algo relativamente simples hoje em dia. Nada mais que um clic e pronto tem-se um momento eternizado, uma face alegre, triste, distraída. Uma face qualquer para sempre guardada, ou talvez não, pois hoje é muito fácil apagar fotos, basta outro clic. Mas como apagar retratos? Será fácil ou difícil? Penso que um clic não constrói um retrato, talvez nem mesmo uma vida inteira seja suficiente para construir ou decifrar um retrato. E apaga-lo então. Como apagar retratos? Neste caso é preciso um clic de esquecimento. Aí se apaga tudo. Porque retratos e fotos são coisas distintas. Portanto, suas feituras ou apagamentos também se operam de modo diferente.

Mas não falemos de apagamentos, melhor que visualizar um apagamento é contemplar uma construção. E a construção de um retrato é mesmo algo inexplicável. Tão extraordinário. Tão despercebido e tão indizível. Principalmente se o retrato for de si mesmo. Fazer autorretrato é mesmo uma obra indizível. Tão complicado. Quase impossível. Ou mesmo absolutamente impossível.

Certa vez ouvi alguém perguntar: quem é você? Eu provavelmente conseguiria pronunciar meu nome, idade, religião entre outras informações úteis sobre minha pessoa. Falaria da família, da naturalidade, mas provavelmente essas respostas não contemplaria a pergunta. Quem é você? Passaremos a vida inteira nos perguntando quem somos nós. E ao fim dos anos descobriríamos que a pergunta permanecerá vaga, incompleta e assim será eternamente. Muitos fariam vários autorretratos de nossas almas e faces e ainda assim estariam longe de responder a pergunta: quem era ele ou ela?

Por isso, fazer autorretrato é tão complexo, estaremos sempre vendo fleches. Pequenos pontos de nós mesmos. Ainda que a pintura seja bem feita ela estará sempre incompleta, porque estamos e estaremos sempre em processo de construção. 

Eu posso dizer que me chamo Maria, que já passei dos vinte, que gosto de literatura e vivo planejando comprar livros, que oro, que gosto de ter amigos, de abraçar meus pais, de sentir saudades, de matar saudades, de ouvir o som do alto, contemplar a beleza de Deus, de ler os clássicos da literatura, os teóricos e principalmente a bíblia, que nasci no sertão de uma cidade chamada Tauá e fui registrada e vivi boa parte da infância em uma outra cidade chamada Parambu, cujo significado é cachoeirinha pequena. Posso dizer que sou cearense, que amo escrever por ócio e me esquecer nas páginas de um bom livro ou nos sonhos do futuro, que não falo muito , que ouço, que as vezes sou insegura, mas será que isso contempla o meu autorretrato? Haverá um jeito de dizer tudo? Eu saberia? Não, não saberia. Não é que não me conheça um pouco, é que fazer um autorretrato demanda uma eternidade de reflexões sobre mim, sobre nós. Mas não quero desanimar os meus caros colegas no prosseguimento de sua tarefa, porque o exercício de fazer nosso autorretrato é fundamental para pensarmos quem somos, seremos ou seríamos. Aviso-lhe que sempre sentirão que esqueceram algum detalhe ou que a tarefa é árdua, indecifrável. 

Eu, pessoa em construção, sou exatamente eu. Provavelmente não existem duas de mim como não existem duas outras cópias de ninguém, porque ainda que biologicamente nasçam no mundo dois iguais, seus retratos, suas almas jamais serão. Somos unidades únicas de nós mesmos em um mundo imenso, às vezes pequeno, às vezes assustador. E nós, unidades únicas, somos imensos, complexos, indecifráveis e nisto se encontra toda a beleza. 

E se você reparou, eu ainda não fiz meu autorretrato, atividade expressamente pedida em aula. Não fiz e ao mesmo tempo estou a fazer. A cada frase, letra, ponto, a cada dia, hora minuto, bisbilhotando-me para descobri novos detalhes a cada instante. Sou eu. Esse eu imenso de todos nós. Esse eu que a gotas se revela a mim...


* Maria Rosane Vale Noronha Desidério é aluna do 6º semestre do curso Letras Vernáculas pela UEFS.

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