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terça-feira, 26 de dezembro de 2017

O QUE A 'GRADUANDO' TEM A VER COM UMA GRADUANDA EM LETRAS DA UEFS?

Por Josenilce Barreto*


Depois de um bom tempo, resolvi escrever este texto para falar a vocês um pouco da minha experiência enquanto membro do Conselho Editorial e revisora da Graduando, revista da Graduação em Letras da UEFS. A minha motivação, nestas linhas, pauta-se não somente no fato de o nosso periódico discente ter completado, em 2017, aniversário de 7 anos, número simbólico, mas principalmente pela contribuição significativa que a Graduando tem prestado, inicialmente, aos cursos de Letras da UEFS e, agora, aos cursos de Letras do Brasil, já que temos visto e lido, nas últimas edições lançadas, inúmeros trabalhos de discentes de variadas universidades brasileiras.

Somente isso já é motivo de comemoração para nós. Contudo, inicio as próximas linhas com um relato de minha experiência desde o meu ingresso até o momento atual de minha participação e contribuição no processo de feitura e manutenção da nossa Graduando.

Era final de novembro de 2010, vésperas do lançamento da primeira edição da Revista Graduando, o qual aconteceria em 02 de dezembro daquele ano, período em que fui convidada por um dos fundadores do periódico para prestigiar o lançamento e, depois, começar a participar das reuniões, enquanto simples curiosa. Contudo, na época, eu estava com outros projetos em mente e, por conta disso, não dei muita atenção nem ao lançamento e nem ao convite de participação.

Passaram-se os lançamentos da primeira e da segunda edição da revista e, novamente, o mesmo criador e conselheiro do periódico me convidou para participar das reuniões, o que foi, para mim, uma grata surpresa. Aceitei o convite e, por curiosidade e sem compromisso assumido, resolvi ir à uma das ditas reuniões que acontecia aos sábados, na Biblioteca Municipal Arnold Silva, em Feira de Santana.

Ao final daquela reunião, entendi melhor a articulação e o funcionamento interno da revista e, em seguida, ainda me mandaram, via e-mail, alguns documentos sobre o projeto do periódico. Resultado: apaixonei-me pela proposta e pela “revolução” que aquilo proporcionaria, de fato, aos cursos de Letras da UEFS.

Após ler cautelosamente cada linha do projeto, constatei que provavelmente valeria à pena investir o meu tempo e energia naquilo, que me soava como uma proposta ousada e que já estava dando certo, posto que duas edições já tinham sido lançadas. Então continuei participando das reuniões, dando pitacos em tudo e, ao final, estávamos construindo diálogos, cujo objetivo era melhorar e ampliar a participação dos graduandos na terceira edição, que estava prestes a ser lançada. Nesse ínterim, lá estava eu toda envolvida, motivada e aprendendo com a revista coisas que nem as disciplinas da minha graduação, principalmente a de metodologia do trabalho científico, estavam me ensinando: como fazer/produzir um artigo, resenha, como fazer uma boa revisão, questões de normatização, leitura e discussão de ABNT, como funciona um periódico, o que cada revisor deve fazer etc. etc. Vi, de fato, uma oportunidade de aprender na Graduando coisas que eu não vi em muitas disciplinas da Graduação, o que de um lado me entristece e de outro me deixa feliz porque alguém (a Graduando) não me permitiu sair da graduação sem saber essas coisas!

Veio o lançamento da terceira edição, em 31 de maio de 2012, momento em que me senti extremamente feliz, porque eu estava colhendo os frutos de uma edição que eu ajudei a fazer, comemorada com o evento Os traços e trilhas da pesquisa em Letras que nós organizamos, no qual tivemos um público bem maior do que nas duas edições anteriores (o que pode ser verificado a partir das fotografias publicadas no site da revista, na página intitulada memória). A partir desta edição, fui integrada como parte do Conselho Editorial da revista e desde então continuo nesta função e na de revisora final, o que para mim é uma imensa responsabilidade.

Talvez muitos nem saibam o quanto a gente trabalha para manter e lançar regularmente um número da revista, mas, com certeza, todos devem saber que somos uma das poucas revistas discentes existentes no Nordeste e no Brasil, o que já é uma grande conquista. Entretanto, ao ler este textinho até aqui, vocês devem se questionar o por quê estou lhes contando essas coisas? A resposta é um tanto óbvia: porque a Graduando fez parte de minha formação acadêmica e profissional, assim como também o fez da de muitas outras pessoas que passam e já passaram pela UEFS, muitas delas já professores ativos.

Logo, falar da Graduando em um contexto em que muitos já a conhecem pode até parecer redundante ou desnecessário, mas não é! Quantas pessoas vocês conhecem que já publicaram ou colaboraram, nem que seja mandando uma fotografia para concorrer à capa da revista? Quantas revistas discentes vocês conhecem que, em 7 anos, já tem 11 edições, 10 lançadas e uma saindo por esses dias? Quantas revistas discentes vocês conhecem que começou a ser feita por graduandos e que ainda continua sendo, já que o graduando envia trabalho, publica, manda fotografia para a capa da respectiva edição, vota, escreve para o blog etc. etc.?

Pensando em tantas questões, decidi escrever este texto justamente para falar que uma dessas pessoas que começou como graduanda na revista fui eu e que, com o conhecimento adquirido a partir dela, muitas outras coisas aconteceram. Ao longo desses 7 anos (2010 a 2017), a Graduando já contribuiu para a formação de centenas de estudantes de Letras da UEFS e, da 10ª edição para cá, de estudantes de Letras de todo o Brasil, o que é, sem sombra de dúvidas, bastante significativo, haja vista que estamos em um contexto em que os graduandos já escrevem e leem bem mais esta revista do que no início dela!

Durante esses anos, muitos graduandos já se formaram, alguns deles já são especialistas e mestres, e outros no doutorado, como é o caso de alguns articulistas das primeiras edições, de alguns revisores e até da conselheira que vos escreve. Sendo assim, ver graduandos que passaram, enquanto leitores, articulistas, revisores e até conselheiros terem se tornado professores mais qualificados nos dá mais fôlego, e esperança aos que ainda vão ingressar nos cursos de Letras. Assim, quando presenciamos colaboradoras, como é o caso recente de Jéssica Mina e de Vanessa Pereira, serem aprovadas em cursos de mestrado, sentimos alegria e motivação para continuarmos contribuindo com a formação dos graduandos em Letras.

Como o próprio título deste texto diz: o que a Graduando tem a ver com uma graduanda em Letras? Muita coisa, não?! É preciso exercitar a escrita acadêmica e essa revista possibilita, entre outras coisas, isso aos graduandos em Letras, quando publica e divulga os seus textos nacional e internacionalmente.

E no caso da autora deste texto, é salutar, mais do que falar, agradecer a oportunidade que lhe foi dada pela Graduando, que me viu enquanto graduanda em Letras, depois especialista, mestra, professora substituta da UEFS, doutoranda em uma das melhores universidades brasileiras e professora da terceira melhor universidade baiana, segundo última avaliação da CAPES e do MEC. Mais do que agradecer, é preciso reconhecer a importância dos conhecimentos que me foram oportunizados dentro da revista, enquanto conselheira editorial e revisora de trabalhos.

Logo, no mínimo, o que se espera é que, assim como eu, outros graduandos também tenham a oportunidade de participar desta ou de outras revistas, de instituições administrativas como, por exemplo, o diretório acadêmico dos estudantes, de bolsas de pesquisa, de extensão ou de tecnologia etc., cujo interesse central do estudante de Letras seja o de aprender e amadurecer acadêmica e profissionalmente, e que esses aprendizados o levem a caminhos muito mais amplos do que os meus.

É com este desejo que quero encerrar 2017 e este texto: mais oportunidade aos estudantes de Letras! Dito isto, deve ter ficado claro o que a Graduando tem a ver com os estudantes de Letras, não é mesmo?


* Josenilce Barreto é graduada em Letras Vernáculas e mestra em Estudos Linguísticos pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). É professora da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB) e também integra o conselho editorial da Graduando.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

EDITORIAL DA 11ª EDIÇÃO

Por Conselho Editorial*


Chegamos a mais uma edição da Graduando: entre o ser e o saber. É o momento de sentir a satisfação por mais um trabalho cumprido, na passagem de um ano de atividades planejadas, vivenciadas e comemoradas ainda mais agora, quando podemos perceber que o processo de leituras e releituras proporcionou um material que carrega, entre tantas ideias e motivações, a memória, a disposição, a solidariedade, a representatividade e o reconhecimento a todas e a todos os responsáveis por esta publicação periódica do curso de Letras da UEFS.

A história da revista pode ser contada pelas pessoas que fazem ou fizeram parte dos conselhos, comissão, equipes e colaboradores do periódico. Seu cotidiano de atividades, seus relacionamentos com cada (futuro) autor(a) de texto, cada avaliador(a), cada revisor(a), cada interessado(a) em saber a respeito das atividades da revista em espaços de comunicação e de divulgação como o e-mail, o Facebook, o blogue e presencialmente, cara a cara... são momentos em que se oferece ao outro em nosso diálogo a mensagem que carrega o conjunto de experiências, de visão moral e de ética sobre as atividades desenvolvidas pela revista. Essas pessoas, em seu(s) momento(s) de contato com alguém que faz ou fez parte de nosso periódico, podem saber informações de seu interesse, visando algum objetivo: um trabalho publicado, um texto divulgado, um apoio em assuntos nos quais o periódico pode ajudar. Também querem encontrar, mesmo que não explicitem em seu discurso, credibilidade, uma postura minimamente aceitável em relação ao que se deseja com o pedido, informação ou relacionamento. Destacamos a credibilidade, a confiabilidade em nosso periódico. Muitos e muitas confiam e muitos creditam nosso periódico discente de Letras da UEFS.

O primeiro idealizador da revista, creditado por sua professora de Literatura em sala de aula, teve a ideia de criar o periódico e teve o crédito de outras 4 pessoas. Estes 4 graduandos em Letras, mais o idealizador, organizaram o periódico e comunicaram professores e setores da UEFS sobre a ideia. Os 5 graduandos tiveram a confiança de todos os setores visitados para o apoio ao então novo projeto: uma revista acadêmica da graduação em Letras da UEFS. Ao longo desses sete anos, a vida afastou alguns de nossos idealizadores, creditadores e “confiadores”. Aos que nos foram afastados pela vida, resta-nos a memória, resta-lhes a memória, provavelmente uma das motivações sociais mais devastadas da (e não pela) cultura brasileira. Sempre estamos em processo tendencioso de realizar ações sem perceber o quanto a memória sobre o contexto da situação em que estamos pode mudar a decisão a tomar. Toda vez que a Graduando lança um número, sua memória vai sendo marcada em um número exponencial de pessoas, sempre à medida em que fazem da leitura, da revista, uma atividade confiável.

Toda pessoa que organiza, escreve, lê, avalia, revisa, colabora e incentiva a revista, confia no trabalho que é feito. O tamanho de nossa confiança no(a) graduando(a) em Letras, e em todas as pessoas envolvidas com o periódico, só aumentou nesse tempo de existência: dos estudantes de 2010 para os de 2017, do curso de Letras de nossa universidade para os demais cursos de Letras do Brasil. A confiança de muitas pessoas na revista tem aumentado nosso crédito na comunidade acadêmica, no reconhecimento ao trabalho realizado, com a citação em, pelo menos, mais de 50 trabalhos acadêmicos, entre artigos, monografias, dissertações e teses, como também em materiais pedagógicos e postagens de blogue; entretanto, o percurso da leitura e das letras pode ser identificado, descoberto, mas sempre parcialmente mapeável. De nossa parte, encontrar o possível sobre a receptividade à revista Graduando: entre o ser e o saber significa exemplificar uma troca de confiança: confiamos em vocês, leitores do mundo tocado pelo periódico, e vocês confiam em nós: confia-se a quem se pede e se confia ao que pede.

Trocar confiança, dentre as atividades humanas, é um dos comportamentos motivadores das relações sociais, e dos mais exitosos nas relações acadêmicas. Explicitando que as relações acadêmicas são sociais, de trabalho, muitas vezes intensificadas ao longo da vida, nosso projeto acadêmico de periódico tem angariado muitos “confiadores”. Nós confiamos na capacidade de leitura deles; eles passam a confiar em nós pelo conhecimento de nosso trabalho e de suas necessidades, sejam estas de cunho acadêmico ou não, do que podem perceber de nossa postura a partir da perspectiva em que estão. Nosso agradecimento deve ser sempre periódico, como cada letra que pode – e deve – ser reintegrada a cada nova palavra, a qual, assim, supre a necessidade de falar de nossa própria história, emergir-nos de nossa própria memória com a atualidade e a representatividade que o tempo, do qual também fazemos parte, precisa, mas que em muitas ocasiões nos apresenta na condição de minoria, marcada por inúmeras formas de violência. Todos os que escrevem ou falam, fazem-no em última análise para deixar um pouco de si para o que pode haver de semelhante no outro, no próximo leitor/ouvinte, num diálogo que os une enquanto povo que lê, que ouve, que compartilha, a exemplo do tema que marcou a XV Semana de Letras da UEFS, no ano de 2017, realizada pelo nosso Diretório Acadêmico de Letras: “Por letras que contem nossas histórias: o movimento da língua enquanto identidade de um povo”.


* O Conselho Editorial da revista Graduando: entre o ser e o saber, é formado por Danilo Cerqueira Almeida e Josenilce Rodrigues de Oliveira Barreto.

terça-feira, 29 de março de 2011

O que é uma revista acadêmica?



 


O que é uma revista acadêmica?

Desidério Murcho

Como diretor executivo da revista Disputatio tenho recebido ao longo dos anos várias cartas e emails de pessoas que me perguntam dois tipos de coisas: "Por que razão quase só publicam artigos de estrangeiros? Por que razão não publicam artigos sobre X ou Y?" Tenho respondido a estas perguntas ficando com a sensação de que há algo de mais profundo que precisa ser esclarecido: o próprio conceito do que é uma revista acadêmica.

A maior parte da comunidade filosófica nacional tem uma concepção errada do que é uma revista acadêmica. Pensam que uma revista acadêmica é uma coisa como a Crítica, ou como um jornal. E isto é profundamente alarmante. O meu objetivo neste pequeno texto é dar uma ideia do que é realmente uma revista acadêmica.

Uma revista acadêmica tem uma direção e um quadro, permanente ou não, de consultores. O trabalho da direção consiste em ler os artigos submetidos e dá-los a ler a um ou mais consultores, especialistas da área. Tanto a direção como os especialistas que irão ler os artigos desconhecem a autoria do artigo. Só o secretariado da revista sabe quem é o autor. A autoria só é revelada à direção caso o artigo seja aceite para publicação. Caso seja recusado, ninguém sabe quem foi o autor, exceto o secretariado da revista, em geral uma única pessoa que trata da correspondência com os autores. No caso da Disputatio, essa pessoa sou eu.

Qual é o objetivo deste secretismo? Simples: procurar a qualidade acadêmica. O conhecimento da autoria pode influenciar as decisões quer da direção quer do consultor. A direção ficaria numa situação incômoda se quisesse recusar um artigo de um professor reputado; ou teria talvez relutância em publicar um artigo de um estudante, ou de um desconhecido. Mas se não souber quem é o autor, irá dar atenção unicamente à qualidade do artigo, e não à sua autoria.

O sistema de submissão e avaliação anônima de artigos faz parte da prática corrente de todas as revistas acadêmicas do mundo, de todas as áreas — da física à matemática, da filosofia à história, da teologia à musicologia. É assim que se trabalha nas universidades sérias. Infelizmente em Portugal, na área da filosofia, só a Disputatio trabalha deste modo. As restantes revistas de filosofia não são assim.

Tanto a direção como os consultores que nos dão um parecer quanto à qualidade do artigo submetido procuram ser imparciais. Não é raro receber-se um relatório de um especialista que diz "Discordo totalmente do que o autor diz, mas ele defende-o muito bem e com óbvio domínio da bibliografia relevante, pelo que deve ser publicado".

Este sistema de anonimato não pretende apenas corrigir os erros de favorecimento ou desfavorecimento da direção e dos consultores. É também uma forma de procurar ativamente evitar publicar erros crassos, o que faria perder tempo aos leitores e deitaria por terra a possibilidade de progresso intelectual na área. O fato de um artigo ser lido por mais de um especialista especificamente para tentar encontrar erros é um filtro que não garante artigos sem erros, mas que os limita ao mínimo humanamente possível. (Sobre a importância do erro na prática acadêmica e na investigação toda a academia portuguesa devia ler o prefácio do livro O Mistério do Bilhete de Identidade e Outras Histórias de Jorge Buescu.).

O sistema de anonimato é mau? Sem dúvida que sim. É tão mau como a democracia. Infelizmente, apesar de ser mau, é o melhor de todos os outros sistemas. Não é imune ao erro? Sem dúvida que não. Mas a percentagem de maus artigos é muito menor nas revistas com submissão anônima do que nas outras. É uma garantia de qualidade? Sem dúvida que não. Mas a probabilidade de haver artigos de alta qualidade nas revistas com submissão e avaliação anônima de artigos é muito superior ao das revistas sem esta prática. Pode acontecer que a direção e os consultores recusem um artigo genial e aceitem um que é um disparate? Sem dúvida que sim. Mas a probabilidade de isso acontecer é muito mais reduzida se várias pessoas especializadas tentarem imparcialmente avaliar a qualidade do artigo do que se eu estiver a ler um artigo de um amigo meu... ou de um inimigo. O sistema das revistas acadêmicas sérias está concebido para limitar na medida do possível as várias tolices humanas que nos toldam o pensamento e desorientam a decisão.

Como Jorge Buescu afirma no seu livro, publicar um artigo numa revista que não tenha submissão e avaliação anônima vale literalmente zero em termos acadêmicos; vale o mesmo do que publicar um artigo de opinião no Diário de Notícias. Pode ser interessante, mas não é trabalho acadêmico a sério. O que é espantoso é que grande parte da comunidade filosófica nacional (e o mesmo se passa nas restantes tolamente chamadas "humanidades") desconhece isto por completo, ou parece desconhecer. De todos os muitos professores de filosofia portugueses que conheço, só dois publicaram artigos em revistas com submissão anônima de artigos. Isto é escandaloso. É como termos uma imensidão de Grandes Maratonistas que nunca na vida foram aos Jogos Olímpicos. Quem pode saber se eles são realmente Grandes Maratonistas ou reis em terra de cegos?

A tradição acadêmica é, por inerência, internacional, supra-nacional, supra-fronteiras, universalista. Não faz sentido falar de física belga ou de psicologia mexicana. Faz sentido falar de física feita por belgas ou de psicologia feita por mexicanos, mas seja o que for que essas pessoas desses países fizerem, tem de ter pendor universal, tem de servir para ser discutido pela comunidade internacional. É a discussão de pontos de vista diversificados, o confronto com quem discorda de nós, a liberdade de dizer não e porquê que distinguem a investigação acadêmica do dogma religioso. E sem esta liberdade, não há verdadeira investigação acadêmica: há apenas uma má imitação. É por isso que as melhores revistas acadêmicas têm um pendor internacional. Procuram que nas suas páginas os especialistas dos quatro cantos do mundo discutam as suas ideias.

Serão todas as revistas com submissão anônima igualmente boas? Claro que não. A maior parte não é boa. É apenas razoável. Em cada disciplina acadêmica há apenas quatro ou cinco revistas excelentes. E como sabemos quais são as excelentes, as boas e as menos boas, mas apesar de tudo perfeitamente decentes? Há dois critérios. Um critério é o índice de recusas. Uma revista que recebe cem artigos num ano e publica dez é melhor do que uma que recebe cinquenta e publica igualmente dez. Outro critério é o número de artigos de uma revista que se tornam clássicos modernos, que são muito discutidos e citados em muitas outras publicações e livros. A Mind, a Analysis e o Journal of Philosophy têm uma folha de serviços impressionante a este respeito: grande parte dos artigos que qualquer estudante de filosofia pós-graduado tem de ler foram publicados nestas revistas ao longo dos últimos decênios.

Compreende-se agora por que razão perguntar por que não publica a Disputatio artigos sobre X ou Y é um disparate: a Disputatio publica os artigos que são submetidos, não «inventa» artigos, não convida os autores a publicar. Só alguns artigos foram o resultado de convites feitos a autores, a título excepcional. A esmagadora maioria foram submetidos. Se ninguém submete artigos sobre X ou Y, que podemos nós fazer?

E também se compreende por que razão é um disparate acusar a Disputatio de só publicar artigos de estrangeiros. Se os portugueses não submetem artigos, que podemos nós fazer? A maior parte das submissões que recebemos são de autores estrangeiros, e é pena que assim seja — até porque a Disputatio sempre mostrou desde o início (e está patente na sua política editorial) a vontade de publicar artigos de jovens investigadores, estudantes de mestrado e doutoramento.

Quem está descontente por não ver na Disputatio artigos sobre X ou Y ou artigos de portugueses o melhor que tem a fazer é submeter um artigo! Terá uma garantia única no nosso país: o seu artigo será avaliado pela sua qualidade intrínseca por um especialista na área, sem saber quem é o autor do artigo. O artigo não será recusado ou aceite por pertencer à universidade X ou Y, nem por ser a pessoa W ou H, mas apenas por ter qualidade ou falta dela.

Em Portugal não existem também editores acadêmicos, no sentido em que há editores acadêmicos noutros países. Um editor acadêmico funciona exatamente como uma revista acadêmica. Uma pessoa manda um manuscrito de um livro para o editor X; o editor contato com pelo menos dois especialistas — muitas vezes mais — que lêem o manuscrito e dão uma opinião, fazem correções, etc. Os editores acadêmicos estrangeiros fazem isto mesmo com livros que já concordaram publicar! Tal como no caso das revistas acadêmicas, os objetivos são evitar os erros e promover a qualidade. E o resultado está à vista: quantos livros de filosofia publicados em Portugal estão ao nível dos melhores livros publicados pelas grandes editoras acadêmicas internacionais? Infelizmente, quase nenhum. Porque em segredo e solidão ninguém é capaz de fazer bom trabalho acadêmico. Editoras como a Fundação Calouste Gulbenkian ou a Imprensa Nacional não se podem considerar acadêmicas precisamente pelo que acabei de dizer. De modo que publicar um livro português de filosofia ou qualquer outra coisa é como publicar um artigo de opinião num jornal: academicamente, não tem qualquer valor.

O trabalho acadêmico é comunitário; temos de nos corrigir uns aos outros. Se não nos corrigirmos uns aos outros quem nos corrige? O grande público que pouco ou nada sabe do assunto? Ou seremos tão tontos que pensamos que estamos acima da possibilidade do erro? Pela minha parte, passo a vida a corrigir os meus erros — erros de compreensão das ideias dos filósofos, erros nos argumentos que sustentam as minhas ideias, erros de pormenor, erros de concepção geral, etc. Sem a ajuda dos meus colegas e professores, não saberia como começar sequer a fazer filosofia decentemente. Quando faço uma conferência quero que os meus colegas e professores reajam e me corrijam. Uma ideia filosófica que nunca foi defendida em público é como uma teoria física que nunca foi testada por outros físicos, ou como uma sinfonia tão boa, tão boa, que nunca ninguém a não ser o seu próprio autor a ouviu: tolices ao nível do horóscopo da revista Maria.

Curiosamente, o mesmíssimo processo de submissão anônima de artigos ocorre nas melhores conferências. Uma conferência acadêmica não é feita de pessoas convidadas que vão lá dizer o que lhes apetece, sem qualquer controlo de qualidade. Uma conferência de investigação é como uma revista acadêmica: tem um período de submissão de artigos, que são anonimamente avaliados como no caso das revistas. Os autores dos melhores artigos são então contatados para apresentarem os seus artigos na conferência. Uma vez mais, temos um mecanismo que tem o objetivo de filtrar erros e de promover a qualidade.

Finalmente, resta chamar a atenção para o papel importante que as publicações não acadêmicas podem ter: publicações como a Crítica, a Intelectu, a Filedu ou a Trólei (que precisamente por não serem publicações acadêmicas não têm um sistema de submissões anônimas de artigos). Dar a conhecer a estudantes e professores do secundário, assim como ao público em geral, alguns elementos da nossa disciplina deve ser encarado por todos nós como um hábito normal, e não como uma esquisitice de gente maluca. Todo o intelectual tem o dever de dizer o que anda a fazer com o dinheiro de quem lhe paga uma vida de estudo.

Texto disponível em: http://criticanarede.com/ed37.html

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Apresentação

APRESENTAÇÃO ELABORADA PARA O BLOG


Entre o ser e o saber, as Letras não existem sem a atividade de leitura.

Pensar em leitura num Curso de Letras é pressupor que há uma produção de textos que reflete o reconhecimento dos professores e estudantes que ajudam a fazer desse curso o que ele realmente é.

O curso de graduação em Letras da UEFS, o maior contingente de estudantes em torno de uma área de conhecimento no(s) campus(campi), necessita de atividades que apresentem para comunidade universitária a existência, para a sociedade, de relevantes reflexões acadêmicas entre os graduandos em Língua Vernácula, Espanhola, Inglesa e Francesa.

Estudantes dos cursos de Letras dessa instituição organizaram-se em torno da proposta de uma revista, almejada pela necessidade em divulgar os trabalhos acadêmicos de graduandos em Letras.

Os mais de 700 estudantes matriculados nas graduações em Letras merecem um espaço para contribuir com o conhecimento socialmente instituído na universidade e, por consequência e extensão, com o complexo corpo social no qual o curso está dialogicamente localizado. A Graduando está locada no MT 25b, juntamente com o Núcleo de Estudos Portugueses - NEP.



APRESENTAÇÃO DO PRIMEIRO NÚMERO DA GRADUANDO


As Letras não existem sem a atividade de leitura. Pensar em leitura nos cursos de Letras da UEFS é pressupor que há estudantes cientes do próprio espaço numa universidade erigida de forma ética e dialética sobre os pilares do ensino, pesquisa e extensão. Nessa perspectiva, a produção de textos funda e reafirma constantemente o reconhecimento aos partícipes no labor de proporcionar à determinada área do conhecimento uma identidade universitária. Deve-se estar cônscio das articulações necessárias por objetivos em vista de emergências críticas sobre o próprio exercício acadêmico.

Os cursos da graduação em Letras da UEFS integram o maior contingente de estudantes em torno de uma grande área do saber no(s) campus (campi). Essa evidente realidade representa o potencial contributivo — e reconhecido — do estudioso das letras para a sociedade. A existência de reflexões acadêmicas entre os graduandos em Língua Vernácula, Espanhola, Inglesa e Francesa não só os insere no universo acadêmico como também os torna sujeitos de seu tempo, agentes interdependentes, seres aos quais o saber se oferece pela atitude de busca. Apresentar o potencial cognitivo-científico-artístico do graduando letrólogo em nossa universidade, motivação que acontece ao sabor de leituras de livros, pessoas e mundos, é uma construção representativa de uma descoberta fascinante, imanente ao homem — a própria capacidade de criar neste universo contemporâneo que lhe cabe a existência.

Estudantes se propuseram à criação de uma revista para divulgar trabalhos acadêmicos (na presente edição constam artigos) dos graduandos em Letras da UEFS. A palavra que emblema o nome do periódico nomeia e conglomera as intenções, docente e discente, de trânsito simultâneo — porque indissociável — entre o estudo e a reflexão, entre o substantivo e o verbo; busca mediar a relação sujeito - objeto, dito e não-dito, atual e porvir. Entre o ser e o saber, discentes, docentes, instâncias, representações e colaboradores integram a Revista Acadêmica da Graduação em Letras da Universidade Estadual de Feira de Santana, a Graduando.

A produção acadêmica de qualidade no curso de Letras da UEFS é verossímil. Devido a elogiosos comentários sobre as atividades realizadas numa disciplina do curso, Literatura Brasileira IV, a professora Elvya Pereira levantou a necessidade de publicação dos trabalhos elaborados na graduação. Diante desse relato, um grupo de estudantes percebeu que era necessário um veículo próprio, no curso de Letras, que representasse o que acontece e, não raro, sempre aconteceu nas salas de aula e nos projetos de Extensão e de Iniciação Científica das licenciaturas em Letras. Como já frisamos em outros documentos, os cognomes Linguística, Literatura, Artes e Educação formam as áreas, diversas e autônomas, que integram o corpo de conhecimentos contemplados nos cursos da graduação em Letras da instituição feirense. Assim começou a GRADUANDO, exercitando a máxima de Aristóteles ao afirmar que tudo nasce antes no mundo das ideias e depois se realiza no plano concreto.

Embora pouco difundida e valorizada, a produção acadêmica entre graduandos das licenciaturas em Letras da UEFS têm grande valor expansivo. Ações mais contundentes no fomento e fortalecimento da produção acadêmica na graduação de qualquer curso são (e serão) sequenciadas por elevado nível de produção de conhecimento, relevante ao ensino superior, pois comprovam maior ciência no universo de saberes almejados pelo homem.

Os mais de 700 estudantes matriculados nas graduações em Letras merecem um espaço para contribuir com o conhecimento socialmente instituído na universidade e, por consequência, extensão e integração, com a complexa estrutura da sociedade na qual o curso está dialogicamente localizado.


Comissão Editorial

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